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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam 641

d'oliveira, 03.02.22

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Dialogando amenamente com ZÉ Onofre

mcr, 02-02-22

 

 

O leitor Z.O., a quem desde já agradeço os comentários e a paciência em me ler, propõe-me uma explicação razoável e seguramente histórica para o que meia dúzia de folhetins abaixo eu escrevera sobre os constantes golpes de Estado, as guerras civis endémicas e o desassossego geral em África, sobretudo, mas não só na África sub-sahariana.

Quis o acaso que eu começasse a minha prometida resposta justamente no dia seguinte a mais um golpe de Estado na Guiné(Bissau), o enésimo nesta ex-colónia que considero, até prova (forte) em contrário, um Estado falhado.

 

Já sei que os mais fervorosos anti-colonialistas, racistas & similares me vão cair em cima mas os factos são os factos, a verdade é, como queria Danton, “áspera”. Paciência e adiante, mesmo se, desta feita, a intentona tenha abortado. Provisoriamente, vou avisando, provisoriamente...

 

ZO depois de historiar rapidamente, a evolução europeia, desde o fim do Império Romana (e da “pax romana”, invenção inteligentíssima e duradoura que criou em todos os territórios sucessivamente conquistados e anexados sociedades  rapidamente romanizadas e cidadãs de pleno direito de Roma oferecendo ao Império altos dirigentes (só das províncias da Hispania vieram dois excelentes imperadores) e permitindo que numa enorme extensão de território se criasse uma civilização comum que não só resistiu aos “Bárbaros” mas os instruiu, educou,, civilizou.

Depois, o Papado, integrou e pacificou, na medida do possível, os reinos resultantes.

É verdade que, depois, as guerras não deixaram de ocorrer mas, para além delas, foi sempre perceptível a mesma ou semelhante ideia de cultura e de modos de vida.

 

Ora, diz ZO a colonização europeia de África (fundamentalmente no sec XX) assentou numa divisão do continente africano feita a régua e esquadro na Conferência de Berlin. Tratava-se de partilhar um gigantesco território desconhecido a 90%, entre países que sonhavam com a glória, o poder  e as mirificas (ou não) riquezas de África.

E é absolutamente verdadeira a situação descrita mas mesmo que importante para explicar a África contemporânea não ´é, de per si, inteiramente suficiente, para se entender este permanente estado de guerras civis endémicas, de golpes de Estado, de toda a sorte de violências inter-étnicas (e é aí que a questão das fronteiras estabelecidas é primordial)

Tirando a Etiópia (alvo tardio da Itália que aí quebrou os dentes)a África foi toda dividida. Na verdade, o Egipto e o Magrebe também não escaparam, mesmo se aí houvesse um reino ancestral e forte. Marrocos, várias províncias do Império Otomano,  ligadas a este por laços demasiadamente débeis.

Poder-se~á dizer que em países jovens criam-se sempre situações de incerteza que, mal geridas, conduzem a resultados sempre maus.

E é uma verdade que a colonização belga, francesa e portuguesa, assentando sempre em colonos  ou administradores coloniais com reduzido conhecimento do mundo africano, não permitiu a emergência de elites locais, autóctones que facilitassem a transição para independência. Mesmo hoje, há numa forte maioria de países um deficit importante de pessoal técnico preparado e sobretudo, independente do poder.

A descolonização africana operou-se por duas vias, armada e pacifica, mesmo se a esta última houvesse sempre subjacente a ameaça de conflitos abertos. No primeiro caso sempre e no segundo a maior parte das vezes houve srmpre um partido político, melhor dizendo uma frente política que comandou o processo de independência. Uma vez obtida esta, esses partidos mantiveram-se firmemente no poder e, regra geral dividiram as benesses deste decorrentes entre a sua clientela. Tratando-se, como se tratava de vanguardas politizadas, educadas (as únicas ou quase, educadas) é natural que de fora ficasse a maioria da população. Desde logo a rural que em África constituía a maioria mas também outros estratos que, por razões diversas não participaram significativamente na oposição à potência colonial.

E esta é uma das razões porque os partidos que se foram tornando, ou já eram, únicos se enquistaram nas nóvas sociedades post-coloniais.

Costuma dizer-se que o poder corrompe. Porventura a asserção não é de rodo em todo verdadeira mas em África foi e para além de todas as previsões. Basta olhar para Angola onde um partido, que recebeu apoios de todo o lado, desde os países socialistas até ao poder revolucionário colonial, se apossou do país, das suas instituições, bateu os adversários com o formidável apoio do corpo expedicionário cubano e continua, mesmo depois de fortes convulsões internas (a revolta “nitista”, a contestação de antigos grupos dentro do MPLA, a queda do clã Dos Santos...) a dominar o Estado, as forças armadas e a economia nacional.

Noutros países, o partido único conseguiu sobreviver a guerras civis catastróficas, mantem o poder nos grandes centros populacionais e, como em Moçambique, mostra-se absolutamente incapaz de defender vastos territórios onde pequenos grupos fanatizados de base islâmica fazem a lei e aterrorizam centenas de milhares de camponeses.

Um terceiro grupo junta a estas situações conflitos inter-étnicos ou simplesmente religiosos  que não conhecem fronteiras nem são facilmente identificáveis ou controláveis.

Aliás, há países em que na época colonial e eventualmente antes havia uma pacífica convivência entre povos que, uma vez independentes, se viram mergulhados em autenticas guerras de extermínio (o desastre Hutu-Tutsi, não é único mas é, seguramente o mais tenebroso(.

Finalmente há ainda países que resultam de uma única administração colonial (o Sudão, agora dois ) ou o Congo. Se no primeiro caso não se vislumbra mais do que a oposição islâmica cristã, no segundo há tudo o que atrás se enunciou, guerras civis, lutas étnicas, incapacidade ou inexistência de elites, ambições desencontradas de militares putchistas e imensas riquezas. No Congo não há ou quase não há poder central eficaz idêntico ao    que fugidiamente foi exercido por Mobutu, ele próprio putchista e autocrata.

Noutros, nomes como Bokassa ou Idi Amin deixam ainda hoje um rasto de terror e desespero. A característica mais comum a todos é o campear absoluto da corrupção. Nem a África do Sul e o seu poderoso e quase único partido governamental escaparam ao flagelo. Hºa um ex-presidente da República acusado de várias tropelias e em risco de passar o resto da sua vida na cadeia.

Acima afirmei que o poder corrompe. Às vezes dir-se-ia que enlouquece. A tragédia do Zimbabué aí está para o recordar.

Nos longínquos anos 60/70 uma série de autores fascinados por África tentou propor medidas que ajudassem à boa governação. Dentre eles, mas não o único, René Dumont escreveu “LÁfrique  noire est mal partie”(Seuil) que mais tarde teve tradução portuguesa, segundo julgo (A África começa mal).Foi um choque e sobretudo uma maneira de juntar africanos devorados pela ambição e ocidentais que viam no negro uma espécie de inocente criatura feita à maneira dos ensinamentos de Rousseau: Dumont foi caluniado, exorcizado, mesmo quando as suas previsões iam sendo claramente verificadas.

Em a África mediterrânica escapou: tirando Marrocos por especiais circunstâncias (o poder político e religioso do Rei) todos os restantes países Argélia, Líbia, Tunísia e Egipto tem sofrido de tudo golpes militares, guerra civil, revoltas populares, caos, anarquia eva permanente ameaça do fanatismo islâmico. E aqui não há fronteiras artificias (enfim, as fronteiras existentes não dividem muito mais do que areias do deserto.

A juntar a isto, no Magrebe melhor dizendo em Marrocos e Argélia, há uma minoria espoliada de quase todos os direitos políticos e sociais: o povo berbére. Mas isso é para outra conversa.

E um abraço caro leitor Zé Onofre, desculpe a demora e a escrita apressada mas ando numa roda vida e não queria deixar passar mais tempo sobre a prometida resposta. E obrigado, mais uma vez, pela sua excelente crítica

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