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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 651

d'oliveira, 20.02.22

 

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Jogar às escondidas com a História

mcr,  20-02-22

 

 

Há em Portugal um velho hábito de esconder o lixo debaixo do tapete. Com um problema que não é de somenos: o lixo acumula-se, cheira mal, infecta o ambiente e começa a ser visível mesmo escondido. Aquele alto debaixo do tapete cresce e em algum momento haverá que resolver a situação.

Durante treze longos anos, mantivemos, todos, repito todos (e aqui incluo os poucos que desde o primeiro dia se opuseram mas que foram obrigados a combater – e foram dezenas de milhar!...), os que viveram esses anos medonhos.

Não  devo exagerar ao dizer que cerca de um milhão de jovens portugueses fizeram o seu serviço militar entre 196 e 1974/5. As respectivas famílias, as namoradas, os familiares próximos, alguns amigos sentiram de diferentes formas o peso da contenda. Recebiam cartas, fotografias, ouviam os que vinham de licença, trataram os feridos e choraram os mortos. 

Até bem tarde, 66/67 houve um vasto consenso nacional sobre a razão da presença em África, alicerçada tamvém pelo facto de outro milhão de portugueses lá viver, por vezes há gerações

(note-se que falo de um país que teria no máximo nove milhões de habitantes)

Por outro lado, os efeitos da guerra foram fortíssimos. Comecemos por algo que raramente vejo citado: a entrada maciça de mulheres no mercado do trabalho para substituir a mão de obra mobilizada e (nunca esquecer) a fortíssima vaga de emigração para a Europa  (e também pra África, note-se)Dezenas ou centenas de profissões “femininizaram-se” o que também trouxe profundas modificações de mentalidade, de costumes, de situação das mulheres.

Ao contrário de alguns ignorantes comentadores, esses anos sessenta foram de prosperidade justamente por via da guerra, das transferências das soldadas das transferências dos emigrantes, de uma curta abertura ao que se passava na europa.

E depis do inicio da descolonização, houve que receber centenas de milhar, provavelmente um milhão de “retornados” que, ao contrário do que se passou em França se integraram com grande rapidez numa terra quase estrangeira, em todo o lado, em aldolas perdidas do interior ou nas grandes cidades. Relembro a título de exemplo os casos de vários presidentes de Câmara oriundos dessa v aga aflita de refugiados (o caso mais conhecido foi o de Évora), o forte empurrão dado por “retornados” a muitas economias locais, incluindo à restauração (té me apareceu um caril de lampreia!...). A cozinha africana e indiana (por via de Moçambique)instalou-se rápida   e duradouramente em Portugal. A guerra, para surpresa de alguns provocou uma forte emigração para as colónias, ou melhor para Angola e Moçambique. Normalmente eram ex-militares que seduzidos por África, pela vida africana, pelas oportunidades , decidiam, finda a comissão de serviço, instalar-se definitivamente. E isto, porque, apesar de tudo, a partir de finais de 63 a guerra era “de baixa intensidade” e muito circunscrita  a certas partes dos territórios.

Ora, tudo isto, todo este passado que não é glorioso nem deixa de o ser (é apenas, e só passado), de repente, ficou submerso nas brumas de uma memória forçada e artificial (vício velho desde o nevoeiro de Alcácer Quibir). Esse passado recente (e o menos recente, convém acrescentar) foi obliterado pela euforia (nem sempre  genuína) do post 23 de Abril.

Vitoriavam-se os militares “revolucionários” apontava-e o dedo a um pequeno punhado de reaccionários como se as malhas que o Império teceu fossem não uma obra razoavelmente colectiva mas uma conspiração de uma minoria contra o “povo” português.

Seria bom lembrar que boa parte (quase todos) os “militares de Abril” eram oficiais no activo, formados nos anots cinquenta e participantes activos em todas as operações militares  levadas a cabo depois da revolta africana. E quando digo todos ou quase quero significar isso mesmo pois foram apanhados ainda subalternos e tiveram de marchar para “o mato” nos anos dificílimos do inicio dos combates. A única, ou uma das poucas, excepção foi a de Spínola que era já coronel ou tenente coronel mas entendeu ir para a frente de combate. O feneral costa Gomes foi um dos principais (e dos melhores...) artífices da estratégia portuguesa em Angola, outros igualmente conhecidos membros da Junta de salvação Nacional e sucedâneos, andaram no meio dos tiros arriscando a sua vida, matando para não morrer.

Na Oposição política portuguesa destacaram-se vários importantes líderes republicanos (cunha Leal por todos) que defendiam a integridade do território nacional “do Minho a Timor”. É verdade que concordavam na necessidade de reformas, condenavam a inacção colonial mas, no fundamental, era-lhes estranha a ideia de independência das colónias, nisso se distinguindo do PCP que a advogava . todavia, mesmo no caso deste partido, a regra geral era a do cumprimento do serviço militar nas colónias, ao contrário do que em finais de sessenta ou mais precisamente em princípios de setenta era o mote de pequenos grupos “esquerdistas” (havia mesmo um que proclamava as virtudes da “deserção com armas” mesmo se se ignore quantos o fizeram). Arnaldo Matos ou Jerónimo de Sousa estiveram no ultramar como militares o mesmo sucedendo a outros destacados militantes políticos do PS como António Arnault que, num comício durante as eleições de 69, se apresentou como ex-combatente em África.Todavia, toda a história pregressa dos militares eex-militares em África, foi varrida para a obscuridade durante dezenas de anos. Agora, dezenas de anos depois, começam a surgir as histórias, os documentos, as cartas, alguns depoimentos . Começam a fazer-se exposições e uma realidade antiga e tumultuosa (e dolorosa) reaparece à luz crua do dia. Em boa hora!

A História de um país, deuma comunidade não se faz apenas do que a cada momento é conveniente mostrar. Todos tem esqueletos no armário e o mais saudável é traze-los cá para fora, areja-los, dar-lhes sepultura condigna. Talvez assim possamos perceber que país somos, que povo, e que futuro queremos ter. E isso, o futuro só existe quando há presente