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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 690

d'oliveira, 14.05.22

Mikahilstahl

mcr, 14-5-22

 

Não, não é uma ruina fabril no meio de um território devastado mas tão só um jornalista em fim de percurso, reformado, envelhecido, rabugento, zangado por não lhe reconhecerem o talento literário e perseguindo o sonho impossível de suplantar a memória do pai, um homem de coragem, um lutador infatigável num tempo em que simplesmente discordar já era um atrevimento inaudito. Recordarei sempre a sua imagem a discursar no Largo do Carmo quando tudo ainda era duvidoso. 

Miguel Sousa Tavares já ão viveu esse tempo, chegou tarde, a hora dos heróis romanescos já passara.

Com o passar dos anos o ego foi-se-lhe crescendo na inversa proporção do seu discernimento político. O mundo não girava exactamente como o jornalista queria, os costumes pátrios  já não admitem a bondade das touradas, a ousadia da caça e,  apesar de continuar dentro da mesma inteira página do Expresso, a sua opinião e as suas proclamações ja deixam indiferentes os leitores. MST é lido ainda mais como um abencerragem (é a palavra justa...) saudoso de um Portugal vagamente marialva que também já viu melhores dias. 

 Por outro lado, do lado materno, MST também vem de uma mulher a vários títulos excepcional. Não apenas como poeta mas também como resistente á ditadura (e mais uma vez não posso esquecer a sua participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos de quem sou, fui, devedor grato).

De certo modo, compreende-se o drama do filho mais velho de um casal excepcional. Nem todos se conformam com um percurso normal com os seus altos e baixos, num país normalizado sem necessidade (pelo menos aparente) de heróis e sem vilões medonhos. 

Ficou-se pelo jornalismo onde ninguém lhe nega alguma competência  esmo se tintada de insolência atrevida e de excesso opinativo  que, segundo alguns lhe toldava o necessário espírito crítico.  

Nos últimos anos,  o peso da idade (fatal em quem se toma por importante) revelou-se em todo o seu esplendor. Um par de idiossincrasias que passariam por originalidade há anos e enquanto jovem, tornam-se mais evidentes e menos densáveis nestes tempos em que o politicamente correcto enforma a vida pública.  MST foi-se promovendo a “velho do Restelo” com toda a carga que a sua intemperada arrogância de muitos anos, a sua truculência jornalístico-opinativa merecem. 

A guerra na Ucrânia tem-lhe sido fatal a mais de um titulo. Também ele, alinhou na frente dos combatentes contra o pensamento único, provavelmente mais por tentar mostrar-se “au dessus de la melée” do que por qualquer russofilia ou ucranofobia. Apesar de tudo ninguém confunde o ex-azougado jornalista com a senhora da última página do Publico ou os camaradas dos sr Jerónimo de Sousa.

MST começou por se afirmar como adepto da paz, coisa que o não distingue de 95% dos restantes portugueses. Todavia, já nessa defesa a outrance da paz, parece ter esquecido algo: o agredido (e ele diz sem peias que é a Ucrania) por muito que queira a paz não tem outro remédio senão o de se defender pela guerra da guerra que lhe é feita. 

Depois, um país tem direito à sua integridade territorial e foi isso, desde 2014 que sempre esteve em causa. Qualquer pessoa sabe que a auto-proclamada secessão dos dois territórios russófonos do leste, disfarçada de insurreição popular só se manteve graças ao apoio de tropas russas. E mesmo assim, mais de metade desses territórios resistiram a essa primeira guerra larvar e que uma boa parte dos cidadãs que tem o russo como primeira língua entenderam conservar-se ucranianos. Só isso justifica estes longos oito anos de hostilidades.

Já o caso da Crimeia é diferente: aí foi o exército russo a tomar a iniciativa a partir da base de Sebastopol e de forças navais que desembarcaram na região onde, de resto, haveria uma população – ou parte dela – pró-russa. 

Aliás, o conflito, pelo menos a sua fase mais acesa, limitou-se ao leste e mesmo assim com limitações: os ucranianos esforçaram-se por conter a “rebelião” mas com o cuidado de não levar a cabo operações que suscitassem mais e maior intervenção russa. 

Por isso a “operação especial” foi, de algum modo, uma surpresa (mesmo se os americanos desde sempre a dessem por certa e próxima).

Querer nestas circunstâncias que se entabulassem conversações de paz que, à cabeça implicasse perda de territórios já parecia algo de inconcebível. A brutalidade do ataque, a progressão de tropas russas no sul até à zona próxima de Mikolaiev (o que além do mais indiciava um próximo ataque a Odessa e, eventualmente uma marcha até à Moldávia) não são de modo algum argumentos propiciadores a qualquer acordo de paz, sequer a um armistício que, aliás, e a crer nas palavras de Putin e do governo russo, sempre foram excluídas.

As únicas condições conhecidas (perda dos territórios, impossibilidade de adesão à NATO, renúncia à entrada na UE, “desnazificação”, duvidosa neutralidade, desarmamento quase completo, enfim um ultimato em boa e devida forma) eram inaceitáveis para qualquer pessoa excepto, ao que parece, Miguel sousa Tavares aposto da paz e da harmonia entre o cântaro de  ferro e o cântaro de barro. 

Mas ele, qual vox clamantis in deserto, insistiu nessa tecla sem explicar como isso seria útil para uma Ucrânia retalhada e para a sua população cuja tenacidade em defender-se diz muito. 

Agora, na última edição do Expresso, para comemorar a falta de avanço russo, as pequenas reconquistas ucranianas, eis que entendeu glosar o discurso de Putin na Praça Vermelha e o que ele apelidou de parada de Zelenski sozinho numa avenida de Kiev.

E bolsa um par de imbecilidades sobre Zelenski a esse propósito mas não só. Mais uma vez, só contra o mundo todo o u quase. Um herói! O al dacoisa está em que o artigo confunde planos, realidades e afirma que o mundo inteiro mente ou pelo menos sonega boa parte da verdade. Assim, as reportagens são todas pró ucranianas não se consegue ver nada do lado russo, como se os jornalistas ocidentais conseguissem acompanhar de perto as tropas de Putin. Parece esquecer-se que, mesmo nos raros momentos em que aparecem russos, isso é apenas em cenários cuidadosos inócuos, como se a guerra real não fosse mais do que uma inocente operaçãoo especial sem grande aparato. MST “está farto” de ver cidades, bairros inteiros arruinados, fossas onde estão corpos de civis (testemunhados por toda a gente a começar pela Aministia Internacional e pelos enviados da ONU, quase como se dissesse que é tudo uma cambada de mentirosos, de patetas, de inocentes úteis ao serviço de cavilosos interesses da NATO (que vende armas!). Provavelmente, não reparou na gigantesca vaga de refugiados, no que eles dizem, nas imagens de não poucos cidadãos russos contestatários que se sujeitam a penas de 15 anos de prisão por se manifestar ou simplesmente por usarem um léxico proibido pelas autoridades em decretos publicados pelo poder russo. 

A idade não ajuda mas neste caso há que dizer que MST não aprendeu nada e já esqueceu muito. Continuará, até que a voz lhe doa, a afirmar que armar quem se defende e está em clara inferioridade numérica e de armamento, é um crie lesa paz .

Não é possível imaginar MST em Munique, durante a triste comédia de um acordo em que Hitler toureou um tonto e presunçoso Chamberlain. Nem noutras alturas da mesma época em que havia a ideia peregrina de consentir todas as tropelias que ocorressem ao trêfego Adolfo desde que isso o aplacasse. 

E o resultado viu-se.

(não valerá a pena recordar que na mesma trapaça caiu Stalin que celebrou um pacto infame com os nazis que permitiu a estes invadir tranquilamente Polónia – partilhada com a URSS - e o Ocidente. E fornecer durante dois inteiros anos de guerra uma quantidade gigantesca de bens de toda a ordem à Alemanha. O último comboio com um carregamento soviético cruzou-se com a vanguarda das tropas invasoras alemãs! Também, por essa época havia quem dissesse que a causa da paz estava a ser defendida e que os belicistas ocidentais tinham fortes responsabilidades na guerra.

 

Não quero com o que vem de ser escrito defender que MST seja defenestrado da sua coluna semanal. Até convém que ele continue pois à medida que o tempo passa e já lá vão mais de 70 dias a sua prosápia vagamente pacifista vai-se mostrando cada vez menos neutral e menos independente e não se vislumbrando na sua  cruzada contra o famoso pensamento único um argumento que sirva mesmo quando refere (que os há) alguns ultra-defensores da Ucrânia que também fazem tábua rasa do bom senso e da verdade factual. 

É por isso que entendi que MST merece também ele, o seu reduto inexpugnável  que o título do folhetim indicia. De modo algum o comparo, logo ele um civil (mesmo caçador e amador de touradas) que usa a caneta como arma com os “desperados” da aciaria de Mariupol.