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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam 691

d'oliveira, 17.05.22

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Nem de fato e gravata...

mcr, 17-5-22

 

 

dedico alguma atenção a uma boa dúzia de políticos de todos os partidos (é bom dizê-lo, não vá alguém acusa-me de parcialidade) mas a lista vai encolhendo e alargando segundo o que vou vendo deles. Um desses cavalheiros foi durante algum tempo o sr Bernardino Soares. Não que eu visse nele um geterodoxo, um eventual dissidente, um crítico. Naa disso. Parecia, contudo, um rapaz inteligente , capaz de pensar pela sua própria cabecinha e tinha uma característica que o tornava frequentável: era parco, muito parco, no uso da “cassete”, da “langue de bois”  a que fomos ao longo de dezenas de anos habituados.  Havia alguma frescura nos seus pronunciamentos mesmo se, nunca tivesse notado nele, qualquer fuga ao cânone.

Depois, perdi-o de vista pois ele andava embrenhado na gestão autárquicae, francamente, o que ele pensava da sua autarquia entrava a cem mas saía a duzentos.

As agruras do PC  caíram em cima dele pois perdeu as eleições. Havia quem merecesse mais essa marga sorte mas o povo équem mais ordena e o povo que o elegera mandou-o dar uma volta ao bilhar grande depois.

Ontem, de raspão, num zapping incompleto apanhei-o a discutir com uma senhora de que nada sei. Apanhei-o já no fim, e concluindo uma argumentação qualquer sobre a Ucrânia.

Já disse que me escapou quase todo o diálogo travado mas o que ouvi chegou.

Bernardino entendia que só havia um caminho para pôr fim à guerra: negociações.

Se apenas tivesse dito isto, não haveria quem saltasse para a arena para o contradizer. Porém, insistir em “negociações” enquanto os misseis vão sistematicamente partindo, de longe, muito longe, e rebentando as mais das vezes alvo puramente civis (são misseis velhos, pouco precisos, parece que já gastaram a maior parte dos mais recentes e agora andam a rapar o fundo do tacho). Ontem os que acertaram em Odessa e Nicolaiev não fizeram mais que destruir um par de instalações turísticas, errar uma ponte, e alcançar o martirizado centro da  2ª cidade citada- quatro ou cinco vítimas a juntar às anteriores.

E o mesmo terá acontecido em outras zonas  onde os combates são mais acesos.

É verdade que, entretanto, alguma negociação terá havido pois terão saído da fabrica de Azov  umas dezenas de feridos e, parece, mais outros tantos soldados. Uns, os últimos terão sido levados para uma cidade controlada pelas tropas russas e outros para outra cidade de onde eventualmente serão transferidos para território em posse do exército ucraniano.

(quem me lê terá reparado noemprego de uma forma verbal que não passa de um futuro indeciso mas a confirmação tê-la-ei lá mais para a noite nos vários noticiários que sigo).

Esta eventual negociação diz respeito a uma troca desigual 300 prisioneiros russos por duzentos ucranianos um quarto dos quais em mau estado. Todavia, se a Ucrânis concordou com isso, só a aplaudo.  Demonstra que se preocupa pelos seus soldados e isso, mesmo em guerra, é um precioso elemento de avaliação do modo de estar no mundo.

No entanto, esta negociação, muito precisa e isolada, fortemente pressionada pela ONU, pela Cruz Vermelha, pela Turquia e pela opinião pública internacional, não parou a guerra apenas suspendeu algum combate na rota de saída dos ucranianos.

Uma negociação como o se soares desejaria, se é que, de facto a deseja, implica uma suspensão mesmo temporária de combates e para prosseguir a promessa de abandono de territórios esbulhados pela violência ao agredido.

Eu já nem falo da parcela “auto-libertada” do leste ou da península da Crimeia. Isso, que já vem de 2014 poderia ficar para segundas núpcias. Porém o resto que já não é assim tão pouco e que na generalidade bordeja o mar negro desde Mariupol até ao distrito de Kersten,  teria de ser evacuado, tanto mais que se sabe que mesmo ocupados esses territórios se verificam manifestações contra o ocupante.

Exigir a paz e negociações sem suspender as hostilidades, sem um qualquer gesto que apazigúe o invadido será muito lógico para o senhor soares mas não entra na cabeça de ninguém de bom senso.  Note-se que eu não disse parar ou acabar as hostilidades mas apenas suspendê-las claramente. Fazer algo que tenda para um armistício mesmo incompleto.

Tudo o resto é música celestial e apenas pretende validar um acto imoral, contrário ao direito internacional. Ora esta pequena parte ficou no tinteiro das boas intenções de Bernardino soares e contradiz o seu surpreendente fato e gravata algo tão burguês que até parece uma fantasia de carnaval.

Dirão que BS foi pelo menos mais longe, já que admite negociações que os ucranianos estão fartos de solicitar e que só o patético sr Lavrov jura que que nunca foram solicitadas ou, pelo menos propostas.

Agora, tratar o tema das zonas ocupadas como um facto consumado e partir daí para conversas ao som das bombas é que parece um exagero. Como exagero será não dizer com clareza que  há um estado de guerra, uma invasão, uma tentativa de destruição de todo o tipo de estruturas de um território que, aliás, tem o apoio de uma coisa fantasmática chamada partido comunista de federação russa que consegue ser mais papista que o papa Putin.

Com fatinho à “pipi da tabela”, gravata (de gosto duvidoso, mas gravata, quando-même!) e mais gordo , brm mais gordo, BS ainda deixou uma nota sobre a NATO que teria logo à nascença o pecado de branquear a ditadura portuguesa. Tem razão mas conviria, já agora, lembrar o mesmo cavalheiro que o pacto germano soviético permitiu a agressão alemã à Europa Ocidental, que a partilha da Poónia foi uma infâmia, que o massacre de Katyn, um crime medonho e que as dversas intervenções do Pacto de Varsóvia, nomeadamente na Hungria e na Checoslováquia,  um claro exemplo de como essa organização ultrapassou sempre a actuação da NATO

(e nem falo da guerra feita à Finlândia  com ocupação definitiva de território ou da ocupação dos pequenos estados bálticos graças a um entendimento (sempre) com  a Alemanha nazi. )

É curioso como os mais jovens membros da “nomenclatura”

 comunista portuguesa se esquecem de uma História que nem cem anos tem. Coitados ainda não tinham nascido, pelo que o holospodor ucraniano, os processos de Moscovo, as medonhas purgas de Stalin, o terrorismo intelectual de Jdanov, os crimes de Beria, o gulag nunca existiram para estas ingénuas e inocentes alminhas!   Nem a guerra do Afeganistão onde aliás se verificou que o Exército Vermelho erajá um gigante com pés de barro. Mas isso também não lembra aos que mantem a teoria que estamos perante uma operação armada especial e, de modo algum, de uma guerra de invasão. É obra!

* na vinheta: Nikilas Bukarin, “o filho querido do partido” (Lenin) uma das vítimas dos processos de Moscovo.