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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 693

d'oliveira, 20.05.22

Reescrever o passado ou andar distraída

mcr, 21-5-22

 

 

A revista do Expresso, relativa à ultima semana, traz mais uma vez um artigo sobre a crise de 1962 que, como vai sendo habitual, incorre nos mesmos erros de sempre.

Não negando o facto da crise ter tido o seu epicentro em Lisboa, conviria recordar que houve desde o primeiro dia uma presença significativa de estudantes de Coimbra. É verdade que a policia conseguiu travar uma série de autocarros e reenviar muitos dos que viajavam de  de comboio pelo expediente de mandar parar as composições e retirar todos os estudantes genericamente identificados pela capa e batina.

Entretanto, no primeiro comboio para Lisboa, iam cerca de cem estudantes que, eventualmente desconfiados do que lhes poderia suceder, mudaram já perto de Lisboa para um comboio suburbano que os conduziu até perto de Entrcampos, desembarcando aí e prosseguindo sem impedimento até à Cidade Universitária. Fiz parte desse grupo pelo que recordo perfeitamente o facto. Depois, foi o que se sabe, cargas policiais, esoancamentos, o costume.

A partir da semana que se seguiu, duas Assembleias Magnas proclamaram greves em Coimbra. Foram, é verdade, greves curtas mas provaram inquestionavelmente a solidariedade coimbrã. Aliás, a queima das Fitas foi suspensa e não se realizou, as equipas da Académica jogaram sempre com o sinal de luto académico (no caso um “fumo “ branco sobre o equipamento negro) e a Direcção Geral da AAC foi suspensa pelo Governo e encerrada a Associação.

Contra isso, houve duas ocupações das instalações associativas com forte participação de estudantes. Da segunda vez, a polícia deteve cerca de 250 ocupantes e transferiu para Caxias 44. (mais uma vez fiz parte desse escolhido grupo). A prisão durou para a grande maioria cerca de um mês. Em consequência da agitação estudantil foram expulsos de Coimbra por período variáveis, cerca de 35 estudantes o que representa dado o número diferente de matriculados nas diferentes universidades, um recorde absoluto e relativo.

Durante todo o tempo da crise em Lisboa, mantiveram-se contactos entre as duas Academias. Fiz, com Carlos Bravo, estudante de Geográficas, parte dos “enviados” de Coimbra para recolha e troca de informações e guardo desses dias tumultuosos a melhor das recordações.

Nada tenho contra o trabalho da jornalista mas surpreende-me as falhas de conhecimento de quem a informou. Há mesmo nesse grupo pelo menos uma pessoa, Helena Pato, que depois foi para Coimbra e que seguramente a poderia eludicar.

Tudo isto é História antiga , a maioria dos participantes na greve de 62 rondarão os oitenta anos, no caso de estarem ainda vivos mas isso não é motivo, muito menos razão para elidir da narrativa ma parte que foi, de todo o modo, substancial. Eas expulsões por períodos de um a dois anos das universidades ou apenas da universidade de Coimbra, acrescidas da lista dos presos (quase sempre por tempo claramente superior ao da imensa maioria dos detidos na Cantina Universitária) conferem aos estudantes de Coimbra um papel relevante na agitação académica que começada em 62 se prolongou intermitente ou vigorosa até 69.

Na vinheta: fotografias das minhas primeira e quinta prisões. Onze anos de diferença e mesmo de estatuto. Em 1973 já advogava e, por sinal, defendia uma razoável quantidade de estudantes, desta feita no Porto.

fotografias prisão.jpg