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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 703

d'oliveira, 07.06.22

 

 

 

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Quase como um filho

mcr, 7-6-22

 

sou o mais velho de catorze primos direitos, todos do lada da minha Mãe, e perdi a conta aos filhos e netos(que jãos há) destes.

Por razões diversas há, como sempre (suponho) alguns a que me ligam laços mais fortes. Por exemplo a Maria Manuel que conheci com dois anos e com quem mantive sempre laços de grande proximidade. Ou o Vasco, filho de um outro tio e de quem venho acompanhando a carreira literária (ele e a Manuel são os autores da família e lá vão tendo algum tranquilo êxito que, naturalmente, me enche de prazer e orgulho). O segundo filho da Manuel, Manuel também ele é primo segundo com quem tive mais contacto. Por muitas e boas razões mas também porque, durante anos e anos a fio, nos fomos encontrando num almoço mensal. Às quarta, dia em que arribava a Lisboa mesmo antes de seguir para casa da minha Mãe.

Vi-o crescer, entrar na faculdade onde foi um brilhante aluno, começar a advocacia,  era fiscalista e, segundo os seus patrões,  um excelente profissional. Entusiasta, bom leitor, bom olho para o cinema, viajante imoderado, tudo lhe saía bem. Tudo, excepto a comida: fazia uma dieta rigorosíssima porque em garoto fora obeso e isso criara-lhe um pavor por mais cem gramas de peso. Dizia, com graça, que andava sempre esfomeado mas seguia o seu regime com uma disciplina notável.

Digamos que, mesmo sem nunca ter sido um cavalheiro dado à paternidade, cujos prazeres tarde descobri, graças a um filha mais filha do que se fosse do meu sangue, ele o Manuel seria o filho ideal: partilhávamos um monte de coisas, amor pelos gatos incluído. Só não jogava bridge mas isso com o tempo havia de se compor...

Nestes dois últimos anos apenas nos telefonámos um par de vezes; a pandemia, sempre ela, os naturais cuidados, a raridade das minhas idas a Lisboa, não nos afastaram mas puseram um parêntesis aos nossos encontros.

Ali ao canto, está um volume do JL, já encadernado destinado ao António, seu pai a quem ofereci toda a colecção do jornal e prometi, continuar a entregar-lhe anualmente e prontos a digerir e guardar na estante, os números entretanto saídos. Era para os levar esta semana.

O volume irá mas já não será entregue: ontem, na rua Braancamp, graças (ou desgraças) a um automóvel que passou com osinal vermelho, dois ou mais carros entraram em colisão e no meio apanharam um motociclista de seu nome Manuel que foi projectado e não resistiu os ferimentos.

Nunca foi adepto de motas quanto mais não seja porque o para-choques é sempre o condutor. Com ou (como é o caso) sem culpa. Notem bem: rua rua central com velocidade apesar de tudo reduzida ainda se morre de acidente rodoviário.

Quando ontem, à noitinha, o meu irmão me telefonou, fiquei sem fala. E absorto, incapaz de uma reacção. A noite foi sinistra, varada sem dirmir ou com breves momentos de sono angustiado. `s sis da manhã já estava a pé, ensimesmado, a tentar fazer qualquer coisa só para não pensar naquilo

A morte, para quem tem a minha idade não é novidade, uma pessoa habitua-se a ver o mundo, o “seu” mundo, desaparecer lentamente à sua volta . Não tem conta os conhecidos e os amigos sem contar os familiares que em certos dias povoam a nossa mesa, a nossa sala, frios e calados como quem espera por nós.

Todavia, morrer alguém com menos de metade da nossa idade, com toda a vida ainda à sua frente, com todo o entusiasmo –e se ele o tinha!- com toda a curiosidade e alegria, alguém que apontávamos como exemplo de sucesso, é algo que está para além da minha compreensão. Não é natural! Eu ainda me lembro de, íamos nós a bordo do “Pátria” para Moçambique, recebermos em Luanda um telegrama dos tios Marcos e Nené a comunicar o nascimento de uma menina baptizada com o nome do meu avô materno. O nome que gostaria de ter, o nome com que assinei um livrinho escrito teria este menino que nunca será velho, poucos ou nenhuns anos.

E lembro-me de a levar pela mão, na Figueira, até à beira-mar, de lhe falar de livros, de política, do mundo...

E, mais tarde, nesses almoços  de quarta-feira desfiar recordações do Tio Marcos que ele nunca conheceu, da sua voz pausada e tranquila de professor, dos seus entusiasmos literários, do surrealismo, da gastronomia da nossa terra mais mar que areia, enfim de tantas coisas. E os dois, mãe e filho, calados e (julgo) deliciados a ouvir histórias sobre um homem bom que hoje tem um pequeno busto numa praceta, com o seu nome, frente ao mar...

Agora, não já, mas mais tarde, hei de relembrar o Manuel todo nervo, todo sorriso contagioso, a discutir comigo livros e política, provavelmente suspeitando em mim, alguma condescendência ou um menor apego  a uma política que já me não faz vibrar.

Mas, por enquanto, e finalmente, é tempo de chorar. Chorar para lavar os olhos e a alma, chorar para desafiar a vida, afastar a morte, a injustiça desta morte, numa rua frequentada, normalmente tranquila de Lisboa, a uma hora normal do meio da tarde, uma tarde de sol e verão adiantado, com cheiro a feriados e santos populares...

Ah, como nada disto faz sentido...  

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