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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 705

d'oliveira, 16.06.22

 

 

 

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10 ou 20?

 

mcr, 16-6-22

 

 

 

Imagine o leitor que um seu futuro empregador lhe propõe um ordenado de 10 e logo um outro da mesma especialidade lhe atira com um proposta de 20. E, além disso, garante-lhe menos trabalho, melhores instalações e mais meios. Qual é a sua escolha?

 

Esta pergunta meramente retórica retrata contudo uma realidade: o pagamento feito a médicos do SNS e do privado, esse horrível monstro que só existe para acabrunhar os portugueses.

Imagine o leitor que, subitamente, uma doença, um mal estar, qualquer coisa duvidosa do ponto de vista sanitário, o acomete.

Por um lado aparece-lhe um serviço que com boa fama e boas provas lhe diz que terá de esperar cinco , dez dias (ou meses ou...custa a dizer, anos) e outro, atacado pelo medonho crime de ser privado e com fins lucrativos – o que esconde a igualmente boa fama- que lhe garante uma assistência em escassos dias. Qual dos dois serviços escolheria no caso de, por razões várias, ter acesso a ambos?

Suponhamos que se está a discutir o Serviço Nacional de Saúde português que neste exacto momento (e ainda só estamos em Junho, mês que poucos escolhem para férias)  já rebenta pelas costuras no capítulo das urgências de obstetcrícia  e pediatria em vários hospitais.

E que, por isso mesmo, fecha urgências nocturnas por um, dois, três ou mais dias sob o sofisticado nome de “contingência” ou outro igualmente usado para ludibriar utentes.

Os noticiários da televisão e da rádio e os jornais enchem-se de notícias sestas que, obviamente, afectarão  todos os portugueses, aliás as portuguesas grávidas (que dado o índice de natalidade são escassas) que precisam de recorrer a um hospital.

É certo que um milhão e meio de portugueses tem ADSE e que 25% dos cidadãos se preveniu com seguros privados que custam dinheiro. Restam os que não tem acesso ao subsistema indicado acima  ou não conseguem pagar um seguro (Claro que se exclui a malédica camada de ricos (capitalistas e exploradores do povo, dos trabalhadores e demais vítimas da fome) pois essa gente (que o reputado político Otelo queria eliminar o que lhe mereceu a resposta do primeiro ministro sueco  que em contrapartida lhe assegurou que no seu país preferiam liminar a pobreza) safa-se sempre...

Eu sei que ao me meter mais uma vez nas alhadas da política de saúde, caio no visor dos amigos da sr.ª ministra. Ainda anteontem duas pessoas respeitáveis me afirmaram convictamente que essa criatura vencera a pandemia quando eu, com uma memória viciosa e distorcida tinha por certo que foi a extraordinária dedicação de médicos, enfermeiros e restantes elementos ligados à saúde quem, de facto colmatara o caos sanitário. E já agora um vice-almirante com um punhado de militares quem, ao substituir uma criatura incompetente mas “do sistema”, conseguiram criar um percurso novo, fácil, inteligente e capaz de resultados admiráveis, ao invés do que antes vinha sendo percorrido com erros de palmatória. Só a opinião pública, o receio de quem mandava, sustiveram essa errada perspectiva e salvaram a barca do Estado de um absurdo naufrágio.

Desta feita, sem pandemia, com uma longa história de urgências fechadas ou apenas semi-abertas, conhecendo-se que faltam médicos ou falta organização, ou as suas coisas, que há cada vez mais concursos desertos, que a paga de tarefeiros a mais do dobro da dos médicos escalados para as urgências (e já nem falo do recurso também subitamente encontrado de encaminhar pra o repelente sistema privado que lucra com o exercício da medicina (??!!!)).

 

Depois, atiram-se as culpas para as ordens profissionais (sobretudo médicos e enfermeiros que alegadamente  “não são da cor”. Seriam estas, sobretudo as os médicos que impedem a criação de novas faculdades de medicina, que impedem os hospitais de formarem mais especialistas, que induzem as universidades existentes e públicas a um númerus clausus mínimo e exigem uma nota de acesso máxima na ordem dos 19 valores ou mais ainda...

Eu ainda não vi explicação para o facto de quase   60% dos obstetras estar fora do serviço público, de faltarem centenas de anestesistas, intensivistas, pediatras e de estar a aparecer uma nova e perigosa falta de cirurgiões de todas as especialidades. Estas faltas, ao que parece, não são sentidas no hediondo sector privado. As demoras no tratamento de certas especialidades com a Oftalmologia à cabeça não parecem existir no mesmo detestável sistema .

Todavia, um,  o das faltas, das demoras, das crises e das contingências é aclamado e o outro o dos ricos, e dos preços de mercado é apontado a dedo e prometido à mais negra sorte.

 O problema, porém, é que os pobres, o que não tem seguro de saúde, nem são utentes da ADSE, estão reduzidos a recorrer ao primeiro, a esperar e desesperar.

Quem é detentor de um seguro de saúde ou utente da ADSE (que leva a cada um dos seus beneficiários uma soma redonda e apreciável dos seus salários) ou meramente rico (qualidade incomum na população portuguesa) consegue ser atendido a tempo, ser socorrido quase na hora. Ou por outras palavras a conquista do direito democrático à saúde está fora do alcance do Estado e sobretudo longe dos mais aflitos. 

À saída do jantar anual dos incursionistas um dos meus camaradas de redacção elogiou-me a assiduidade mas lamentou que eu tivesse o hábito de  “atacar a governação”. Era tarde para lhe responder adequadamente mas sempre lhe recordei que, desde os meus longínquos vinte anos, tomei a decisão de me indignar, de pedir responsabilidades a quem detém legítima ou ilegitimamente o poder. E essa atitude de que nunca abdiquei fez-me viver “exilado na minha própria pátria”  uma boa dúzia de anos. Uma vez mudado o regime entendi que não deveria mudar de exigência e, por isso, por fidelidade a algo que me auxiliou a viver os anos amargos, aqui estou, mais velho, mais desiludido mas sempre solidário com os que não tem a minha sorte.

Isto não é um modo de vida mas, apenas, um voto de vida.

 

 

 

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