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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 713

d'oliveira, 09.07.22

 

 

 

 

 

 

 

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Na morte física de um ditador do nosso tempo

mcr, 9-7-22

 

Quando refiro morte física, apenas pretendo sublinhar que ZéDu (José Eduardo dos Santos)  estava politicamente morto há um par de anos.

De pouco lhe valeu o que parecia ser uma transição pacífica do poder presidencial para João Lourenço, um homem de confiança vindo do mesmo círculo partidário dentro do MPLA. Cedo JES percebeu que os cargos honoríficos que reservara não serviam para nada, que por exigências de política interna e necessidade de afirmação pessoal, para além da situação catastrófica herdada, da pobreza lancinante de quatro quintos dos angolanos, João Lourenço teria de o fazer entrar numa definitiva sombra, ao mesmo tempo que lhe perseguia os filhos vorazes e enriquecidos para além de todo e qualquer limite plausível (mesmo em África, mesmo em Angola).

Disso mesmo se apercebeu aquele que foi o mais longevo dos presidentes africanos. Ao fim de 38 anos de poder indisputado (ou vitorioso sobre quantos se atreveram a disputá-lo)  JES retirou-se para Barcelona a pretexto de (reais) problemas de saúde. Estava consumada a sua morte política. Nisto a filha Tchizé tem farta  razão mesmo se insista numa necedade: já não era preciso matar o 2º ºresidente de Angola. Era só dar tempo ao tempo, aproveitar a sua ausência, dizimar-lhe os partidários interiores, pôr a nu as negociatas dos familiares, e fazer eleger no próximo congresso os substitutos desta feita apoiantes fervorosos do novo líder. Paralelamente, com vagares prudentes, ir libertando as pessoas do medo ou de prisões mais imediatas, (re)estabelecer uma certa e calma liberdade de imprensa e deixar vir a lume as críticas (muitas, imensas) caladas durante décadas.

E tentar cortar os laços económicos entre a filha mais velha (a mulher mais rica de África) e uma série de empresas estatais angolanas que mungiu violenta mas criteriosamente em seu único benefício.

Como de costume, Portugal deu uma ajuda. Os bens de Isabel dos Santos, pelo menos os mais visíveis e conhecidos, foram arrestados por cá. Terminaram, com farto desgosto de umas dezenas de lojistas de luxo lisboetas as jornadas épicas de compras à porta fechada que a respectiva senhora lhes fazia.

Pouco se falou da gigantesca fortuna amealhada por José Eduardo dos Santos himself. Provavelmente estará mais protegida e escondida mas é de crer que a existência dela seja em Angola apenas um sinal de reconhecimento dos serviços prestados pelo sucessor de Agostinho Neto. De resto, há umas centenas de figuras gradas do MPLA também com largas fortunas feitas à sombra do poder e do petróleo. Não terão a dimensão dos espólios dos oligarcas russos mas também Angola não é a Rússia, que diabo!

O melhor que li sobre JES nos jornais de hoje foi o adjectivo  “controverso”. Palavra simpática, própria da hora da morte (física) e da tentação do elogio fúnebre. Ou, pelo menos , mais suave e mais imprecisa do que “ditador”, “autocrata” também usadas indiferentemente por gente de Esquerda ou de Direita.

Convém, porém lembrar que JED herdou um país devastado, a lembrança medonha de uma guerra civil interna no MPLA (30.000 mortos, outro tanto de perseguidos e aprisionados – até o actual ministro da Economia deste actual Governo-  um silêncio sepulcral sobre a locslização dos corpos dos desaparecidos mesmo se. Timidamente, o Poder vá deixando cair umaque outra desculpa pelo que, os “outros” os “do antigamente “fizeram.

JED leva no balanço de uma inteira vida metade da qual no mais alto e poderoso cargo angolano, a vitória definitiva  sobre a UNITA, a morte de Savimbi, o posterior arrebanhar de alguns adversários políticos comprados para engalanar alguns recuados postos da administração pública angolana. Chamou-se a esta operação um “acto inteligente de apaziguação política” o que não deixa de ser verdadeiro mas é insuficiente. “È preciso que algo mude para que tudo permaneça na mesma” (cito de cor) afirmava o príncipe de Lampedusa ou alguém pertencente a esse extraordinário “Il gattopardo”

Todavia, o estado geral de Angola mesmo com o petróleo a jorrar por todos os lados não é brilhante. Os níveis de pobreza são alarmantes, entre 75 e 80%

dos angolanos vive com um máximo de um dólar por dia, a corrupção campeia, o aparelho de Estado está nas mãos de uma clique cleptocrática, a informação livre é uma piada de mau gosto. É verdade que algumas dezenas de milhares de portugueses andam por lá a trabalhar não porque o regime seja generoso mas apenas porque necessita desesperadamente de técnicos que não tem ou que , vindos como vêm da elite, se desviam para lugares rentáveis e que exigem menos esforço.

JES pertence a uma geração, por sinal a minha, que em Portugal e nas vésperas da descolonização sonhou tudo e mais alguma coisa a fazer nos países libertados. Apesar de, na época imediatamente anterior, final de 60/inicio de 70 ter colaborado com opositores da guerra e mesmo com alguns nacionalistas africanos, nunca tive essa visão beatífica  de "amanhãs que cantam” em que embarcou boa parte dos meus amigos. Vi-os partirem de olhos fechados para as ex-colónias como cooperantes, vi-os regressarm confusos, admirados, arrependidos, indignados. Claro que alguns ficaram lá, “estabeleceram-se” não viram ou fingiram não ver como é que as coisas corriam nos “tristes trópicos”. Houve depois mais vagas de cooperantes armados de uma deslavada sebenta maxista-leninista ou simplesmente marchista-africanista que também não obtiveram grandes resultados. As guerras civis violentas e a depauperada preparação política dos dirigentes principais dos partidos únicos tem agora, à vista, e cruelmente, os seus resultados.

Não se trata aqui de fazer a apologia de um poder incapaz, miserável, infame de colonial que não merece uma única palavra de conforto. Portugal nunca teve meios nem gente capaz em número suficiente para organizar e gerir as colónias em benefício dos colonos e dos colonizados. Ali´s só por muito boa vontadesepode falar de um império de 500 anos. Até meados do século XIX a presença portuguesa assentava numas dezenas de portos costeiros, noutro tanto de pombeiros e exploradores do interior, sem verdadeira colonização. As “pacificações” coloniais militares, a fundação de cidades n interior, a abertura de vias de comunicação  foi tudo obra entre 1850 e 1950. Nunca se tentou criar elites africanas, nem transferir para os raros africanos que tinham uma educação europeia as mínimas responsabilidades politico-administrativas. Aliás, raras vezes as colónias foram mais atraentes do que o Brasil (aqui apesar sa colonização partida do Brasil para Moçâmedes e mais tarde Lubango/Sá da Bandeira), as Américas e finalmente a Europa .

Uma última nota: há quem reconheça em JES uma especial habilidade política que lhe terá permitido governar durante tanto tempo e pacificar na medida do possível a guerra entre fracções do partido único e as relações com as restantes forças políticas emergentes.

JES sucedeu a Agostinho Neto, um poeta medíocre mas um homem ambicioso , inteligente e frequentador próximo dos círculos políticos da estrema esquerda da sua época(PC). Porém, Neto, além da inicial guerra civil contra a UNITA e a UPA ,ganha com a formidável ajuda cubana, com a cumplicidade das últimas autoridades portuguesas, teve mais tarde de aniquilar os nitistas e defender-se da África do Sul. Não foi uma vida fácil. Depois arrostou com o labéu do expurgo interno do partido. Provavelmente, a sua sucessão era tão complicada que se preferiu um engenheiro  formado na URSS mas sem ideologia concreta e reconhecível a um par de candidatos marcados pelo “terror” e pela idade.

Inteligente, também ambicioso, com as mãos livres, sem compromissos especiais dentro do MPLA, Zé du construi uma reputaçãoo, firmou um poder, restabeleceu uma paz baseada no medo, na polícia e na censura férrea e aproveitou a onda dos grandes ganhos petrolíferos. E comprou quantos adversários pode. Assim se construiu um perfil de estadista e um carisma de homem livre de compromissos ideológicos. E o mundo à sua volta também já não era o mesmo, o da guerra fria, que inda marcou a época de Agostinho.  JES mesmo licenciado em Baku nada tinha a dever à Rússia . Nem a Portugal, é bom lembrar.

 

 

(não faço a mínima ideia – nem isso me tira o sono- sobre quando e onde será o enterro de JES. Provavelmente, o bom senso prevalecerá e o corpo irá para Angola para as exéquias de Estado. Mais difícil é saber se as filhas que estão fora de Angola irão comparecer. Sobretudo a azougada Tchizé que jura a pés juntos que o pai foi assassinado pelo Poder angolano e exige uma autópsia . A irmã mais velha tem o passaporte angolano caducado e sabe, de ciência certa, que ali há muita gente interessada em lhe perguntar um par de coisas sobre a sua fortuna e os meios de a adquirir )