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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 720

d'oliveira, 07.08.22

Há lucros e lucros

mcr, 7-8-22

 

 

Como efeito da crise e do aumento de preços de vários produtos, temos que quer o Governo (através do IVA) quer um determinado número de empresas  sobretudo as ligadas à energia viram os seus lucros aumentados. Ebem aumentados, convirá esclarecer. 

Perante isso, começou um “venticello” que pouco a pouco foi aumentando e que acabará, se nada se fizer, soando como “un colpo di canonne” (se é que os leitores me permitem usar a aria de Rossini como metáfoa)

Não sei quem (eventualmente o engenheiro Guterres mas não faço finca-pé desta informação ) terá dito que isto, este lucro súbito e  (em circunstâncias normais) inesperado, era imoral. Ora aqui está uma péssima maneira de começar um debate. 

O lucro em si mesmo nada tem de imoral. Apenas o modo como será utilizado é que pode adquirir características pouco simpáticas.

A ideia é taxar esta súbita  bolada da sorte. Vejamos: nada de mau sucede a quem ganhou de repente ( sem dar um passo para isso, esta espécie de totoloto. Totoloto gordo, diga-se para já.) se sobre esse ganho inesperado recair como, exactamente, no totoloto, uma taxa a reverter para algum fundo que possa compensar as perdas naturais de todas as vítimas do aumento de preços. 

No capítulo do IVA poder-se-ia, eventualmente baixar este o que redundaria em benefício de todos quantos consomem produtos (desde um quilo de batatas até um kw de eletricidade) que a crise tornou mais caros. 

É que é tão “imoral” o ganho do Estado quanto o das empresas energéticas! 

Sei que uma mexida nos impostos é algo de difícil mas é na hora das dificuldades que se avaliam os políticos e os economistas. 

Se um cidadão apostou e ganhou umas milhardas no euro-milhões é certo e sabido que o Estado lhe vai ao bolso em exactamente 20%-

Não conheço ninguém (e falo, aliás por experiência -sorte- própria) que desista de apostar neste tipo de lotaria só porque o Estado lhe vem depois cobrar 20% dos sumptuosos ganhos que lhe choverem em cima. Por mim que, como disse, já ganhei uns tostõezinhos neste género de apostas, estaria,  estou disposto a entrar mesmo com 30% que no caso desta semana significaria 9 milhões a pagar mas 21 a receber.

Portanto, deixemo-nos de questionar moralidades que para aqui não chamadas, e tentemos com uma pequena medida, que não afecta rigorosamente ninguém, minorar uma situação que não é brilhante.

Também ouvi  - ou li – alguém afirmar que taxar estes lucros acidentais e súbitos – poderia “descapitalizar” os bancos. 

Ora eu, que nada tenho contra a banca ainda não percebi como é que uma punção num dinheiro inesperado descapitaliza o banco que o recebe. 

Bem sei que o que aprendi há quase sessenta anos na faculdade já deve estar mais que ultrapassado m, que diabo!, estamos a falar de uma surpresa, de algo inesperado e, no caso, de um bambúrrio!  Estes ganhos não estavam previstos pelas entidades bancárias pelo que se em vez de 100 lhes derem apenas 90 ou 80, são sempre noventinhas ou oitentinhas que lhes escorrem, por mero efeito da lei da gravidade, para os bolsos sem fundo. 

Aliás, quando as coisas apertam, é para o Estado, nós todos por interposta pessoa , que os bancos se viram. E de mão mais que estendida.  

O mesmo se passa com a maioria esmagadora das empresas, energéticas ou outras. É sempre o Zé que cedo ou tarde terá de vir ajudar a tapar o buraço. 

A Europa, quer queira quer não, está em situação de guerra não declarada. Um agressor entra por outro país dentro e destrói tudo o que lhe apetece. As medidas que se pretendem dissuasoras tem custos. Custos bem menores do que seriam de  deixássemos tudo à custa da Ucrânia. Que, de todo o modo, já está a pagar em destruição, perda de emprego, ocupação, mortos e feridos, uma factura medonha. O mínimo que podemos fazer é tentar travar o agressor, fechando-lhe a torneira do gás e do petróleo. A menos que pretendamos que, depois da Ucrânia, vá a Moldova (que não se limita à infame comédia da Transnístria) e logo a seguir aos países bálticos. E ao acesso à Prússia Oriental que agora se chama Kaliningrado. E depois, logo se verá. Taxem esses dinheiros aparecidos do nada ou tão só fruto de uma política de agressão que depois torna certos produtos caros e raros.