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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam 828

d'oliveira, 19.08.23

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jornada lisboeta

mcr, 18-8-23

 

Já perdi a conta aos anos em que, por razões familiares, melhor dizendo maternais, passo a segunda quinzena de Agosto  em Lisboa. O meu irmão desanda para férias na praia e combinamos que houvesse sempre um filho perto da old lady que nos seus garbosos 101 anos (feitos e perfeitos) ainda não acha necessário ter sempre uma pessoa em casa. Não que queira fazer economias mas apenas por achar que ainda não chegou o momento. De facto,  há uma empregada contratada  para o efeito há uma boa meia dúzia de anos mas, para já a  referida senhora tem um horário mas invejável: aparece às dez, faz o almoço e desanda às três. Isto por um ordenado que corresponde   ao quádruplo das horas dadas!

Lisboa em pleno Agosto não é exactamente a receita que eu  recomendaria a qualquer pessoa mas também não é um sacrifício horrível. 

Aproveito para dar umas bicadas na Gulbenkian, nas livrarias em mais alguma exposição que valha a pena  ou encontrar amigos que nunca tenho oportunidade de ver  nas restantes vindas mensais por curto período.

Tinha projectado ver uma exposição  de estampas japonesas (melhor dizendo de uma exposição dedicada ao Ukiyo-E, ou "mundo flutuante"  uma das artes mais democráticas de sempre pois assenta em xilogravuras que desde finais do sec XVIII até aos inícios do XX   foram produzidas por uma pléiade de extraordinários artistas nas principais cidades do Japão.

Eu comecei a ouvir falar (e a gostar) das estampas japonesas exactamente em 1970 quando, pela primeira vez estive em Berlin (ocidental), para uma estadia no Goethe Institut onde fui, de facto, aprender alemão a sério. Em boa verdade tal aprendizagem nem foi difícil  porque ou aprendia a língua ou morria à fome e de pasmo.

O  GI era a dois passos da Kurfursterdam  e logo num dos primeiros dias vi um cartaz com a enigmática expressão "Ukiyo-E" à porta de uma galeria. Como sou mais curioso do que uma inteira ninhada de gatos, nem hesitei. E descobri esse mundo mágico, delicado, poético e admirável das estampas japonesas. Hoje tenho dois metros de catálogos e livros sobre  tema e atrevi-me mesmo a comprar, a preço forte, um par de gravuras

Portanto, logo que soube que o senhor Gulbenkian fizera uma copiosa colecção e que a fundação preparara uma exposição, entendi que uma das prioridades desta temporada era ir ver a exposição.

Não previa a ida para hoje porquanto e dadas as  minhas actuais condições oculares também marcara uma visita a uma loja chamada Ataraxia  que é um verdadeiro repositório de toda a espécie de artefactos  para quem está pitosga. É um verdadeiro milagre poder encontrar toda a sorte de aparelhos que facilitem a vida de quem já vê mal, ou muito mal.

Entre os aparelhos que lá se encontram há uma  série de lupas electrónicas de pelo menos quatro tamanhos  que voltaram a dar-me o prazer de ler sem esforço quer um calhamaço volumoso e grande, até ao jornal ou a um pequeno papelucho para saber como usar um medicamento. 

Nesta fase do campeonato já (felizmente!!!) não me preocupa o preço das coisas desde que me sirvam para manter uma vida tão agradável quanto possível. E ainda bem porque se trata de aparelhos que, sem serem uma absoluta novidade, ainda são demasiado recentes para  estar ao alcance de todas (quase todas...) as bolsas. Desta feita fui à procura de outros artigos mais baratos  (é um modo de dizer....) e quando, feitas as compras, o táxi chamado já estava a estacionar, uma das empregadas apresentou-me mais uma novidade (?): uma coisa pequena que finalmente tem por função ler um texto escrito (mas não manuscrito) e depois reproduzir tal leitura em voz alta. 

Vim desesperado por não querer fazer esperar o raio do táxi mas tenho a vaga impressão, ou quase a certeza, que segunda feira encomendo o raio do objecto. Trata-se de algo chamado "Orcam read" e anuncia-se como "um leitor portátil de inteligência artificial revolucionária" Terá dez, doze centímetros  por dois ou três de espessura. Isto é, leva-se perfeitamente num bolso e lê em duas línguas português e inglês!

Consegue apanhar uma página A 4  ou quase. Agora vou tentar saber se não haverá uma versão português/francês 

 

Como a minha visita à loja foi rápida, rumei à Gulbenkian para aviar a exposição. que era boa, não há dúvida alguma mas os meus olhos já não percebem bem tudo sobretudo porque toda a mostra estava num local demasiado escuro.

Ainda não há catálogo mesmo se quanto a outros objectos de merchandising haja farta escolha. Mas eu, desde sempre, estimei muito os catálogos, que são insubstituíveis quer na informação quer na qualidade da reprodução. E não percebo como é que uma instituição como a FCG  teve esta falha. De todo o modo a exposição é imperdível  e a  Gulbenkian parece tão recente e harmoniosa como há sessenta anos quando lá requentei um ciclo do curso de Direito Comparado

Depois são raras as manadas de turistas que assolam outros pontos da cidade. Só isso vale uma ida aquele espaço onde qualquer um se pode demorar um largo período de tempo desde a cafetaria até aos jardins ou aos museus. |a biblioteca e |a livraria. 

Ainda hoje, a fundação mão tem quem lhe peça meças. Em tempos chamaram-lhe "o verdadeiro ministério da cultura" mas hoje existe uma coisa com esse nome. 

Só que sem a projecção, a qualidade e um programa claro como o da Gulbenkian. 

Mas isso é uma outra (e triste) história...