Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 859

mcr, 27.11.23

25 de novembro há muitos

mcr.27-111-23

 

O meu 1º 25 de Novembro foi amável e em 1960 em Coimbra. De facto, nessa época, o dia chamava-se "tomada da Bastilha" e comemorava a conquista, em 1920, da primeira sede da Associação Académica de Coimbra, num dos antigos colégios universitários que povoavam a "alta"  de Coimbra, o colégio de S Paulo Eremita. Mais tarde com a demolição deste edifício, houve o assalto ao clube dos lentes e finalmente a sede da AAC  foi para o palácio dos grilos. Hoje está instalada em edifício próprio na Praça da República. 

A jornada era festiva e terminava sempre com um cortejo nocturno à luz de archotes  que, em certos momentos tinha um cariz altamente protestatário. 

 

Mal eu sabia que, muitos anos depois, assistiria ao 2º 25 N num clima que, mesmo para quem morava   no Porto, era altamente duvidoso (para empregar uma expressão neutra). 

Pelos vistos, o 2º 25 de Novembro a que assisti  foi diferente de um que alguns comentares televisivos e não só, conotados com o que chamarei facção vencida mas não convencida, e que em substância desvalorizava todas as acções populares e militares que antecederam a resposta dos moderados a 25 de Novembro.

Assim a ocupação de várias bases aéreas pelos paraquedistas revoltosos, o cerco da Assembleia da República  (12 13 de Nobembro) por dezenas de milhares de trabalhadores da construção civil, a auto-suspensão do Governo Pinheiro de Azevedo, a retirada de mais de cem oficiais para a base aérea de Ovar,  a clara insurreição do RALIS, que inclusive terá resultado numa distribuição de armas a populares,  ocupação dos estúdios da televisão e dadas emissoras de rádio por militares da EPAN,0 avanço de tropas de Santarém comandadas por Salgueiro Maia que pararam a poucos quilómetros de Lisboa, a mobilização de tropas da RM do Porto  que tiveram as suas guardas avançadas até Mafra, a mobilização de vários quartéis do Norte e do Centro para debelar quaisquer tentativas dos revoltosos (e o mesmo sucedeu no Alentejo com tropas a sair de Estremoz ) , a recusa dos fuzileiros em avançar bem como o facto de este regimento ter mandado dispersar os populares que pediam armas, dão clara noção de que a guerra civil esteve por um fio. Manifestações populares em todo o Norte  contra sedes de partidos de Esquerda, tomadas e devastadas mostram igualmente que de Rio Maior para cima o ambiente era absolutamente desfavorável à alegada "comuna vermelha de Lisboa" 

Mário Soares entretanto chegado ao Porto com a missão de organizar a reacção civil contra o previsível golpe, o Partido Socialista a receber e distribuir armas a militantes seus e aos partidos ditos "democráticos" são elementos mais que suficientes para demonstrar que aquele 25 de Novembro e os dias que lhe sucederam tiveram todas as características de contra-golpe violento que, de resto, terá convencido o PC a desmobilizar alguns dos seus militantes mais impetuosos e as organizações que controlava. Por outras palavras, as multidões que juravam ser a "muralha de aço" do "companheiro Vasco" (entretanto passado à história  e  substituído por Pinheiro de Azevedo) esfumaram-se num abrir e fechar de olhos. O mesmo sucedeu a ouras entidades mais ou menos delirantes ou fantasmáticas como os SUV (soldados unidos vencerão)  ou a nado morta FUR (frente de unidade revolucionária) que na verdade era um convite à valsa ao PCP que numa tarde de febre a aceitou mas depois de uma noite bem dormida desligou-se do que, em boa verdade, lhe parecia um pobre aventureirismo cuja força só existiria com ele. 

Portanto e, em boa ordem: entre Agosto e novembro o rumor crescia, os boatos multiplicavam-se, o desafio ao Governo, de resto frágil, agigantava-se. 

quem na alegada "comuna vermelha" sonhava com a tomada de um palácio de inverno não conseguia ver, muito menos perceber que o país real torcia o nariz , mobilizava-se, rosnava e no terreno que lhe era mais favorável ia eliminando sedes de partidos de Esquerda e afugentando a partir do interior profundo os escassos militantes progressistas e esquerdistas conhecidos. conheci (e compadeci-me, vários desses exilados temporários que afluíam ao Porto onde apesar de tudo o "vice rei do Norte" (Pires Veloso) exercia cada vez mais uma autoridade que pelos vistos já ninguém recorda. 

O 25 de Novembro , por estas bandas, foi tranquilo excepto para alguns militantes de Esquerda que longe dos acontecimentos temiam uma vingança tremenda da Direita (que na época tinha o PS em peso). Descobri que um amigo meu de refugiara no meu birro lugar seguro dada a classe média alta que o habitava. Outro, afobado, telefonou-me e eu convidei-o para almoçar. E fomos a um restaurante da moda, perto da Ribeira e tive o prazer de ver o ar aparvalhado de quem lá estava e me reconhecia tomando-me por perigoso bolchevista. 

O meu convidado nem saboreou como se devia o excelente almoço. Para onde olhava só descortinava a "reacção" que, em boa verdade, em vez da faca nos dentes manejava os talheres voluptuosamente que ali comia-se bem, muito bem. 

 Dias depois ainda houve um par de romarias de familiares e simpatizantes de militares presos em Custoias (?) porventura recordados de outras e antigas idas a Caxias. Claro que os acompanhei não exactamente por simpatia mas apenas por me lembrar quanto isso confortava os presos cujas celas davam para a parada da cadeia. (nessa altura obscura e decerto esquecida, os visitantes dos presos desobedeciam aos guardas que os intimavam a seguir rente à parede. Todavia, aquilo, aquela marcha desobediente e desafiadora tinha sentido e por vezes consequências. No caso vertente, não havia guarda cá fora e os presos podiam aquilatar da importância da manifestação que corria fora da cadeia. 

E depois, restabelecida a ordem, a Assembleia Constituinte terminou a sua tarefa, as eleições mostraram uma gigantesca maioria  (mais de 75% dos votos, deixando ao PC e à UDP outros 15%. Curiosamente, esta eleição teve uma percentagem superior à anterior (ligeiramente inferior a 74%) de onde saia a representação para a constituinte. 

Sei que para alguns "democratas" radicais e exaltados, as eleições e os seus resultados dizem pouco ou nada. O que não implica que não concorram!... Estes dois anos de brasa (abril 74-abril de 76 ) provam no entanto que os portugueses sentiam a democracia liberal como algo seu, inestimável e confortável. E redundavam na derrota clara dos agitados meses do segundo semestre de 75. 

Que, hoje em dia, haja quem, apesar da evidência dos números, da derrota visível das movimentações de Novembro não queira ver isto e não queira por isso associar nem que seja levemente  s duas datas relevantes da Democracia é um problema de somenos e que pouco me preocupa. Se anda há criaturas que acreditam em Adão e Eva, na terra plana ou na verdade literal da Bíblia, não espantará que nestas questões também se obnubilem. Aliás, os defensores do 25 N, também não se mobilizam especialmente para a celebração da data. quase 50 anos depois, a questão só comove os mais enérgicos e...os mais ignorantes  e mais radicais, (o que é quase o mesmo)

Porém, o 25 N que corre por televisões e jornais é exactamente o que mais esquece a História e, por isso, o que mais absolve o grupo aventureiro  que em Novembro de 75 tentou alvoroçar a sociedade portuguesa ou, pelo menos, a lisboeta.

Perdeu mas ainda não se convenceu. É com eles...