Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 877

mcr, 23.01.24

resposta a um leitor (in)transigente

mcr, 22-1-24

...de jornais, isto e de calúnias

de jornais, ou seja de lixo

em cada coluna a insídia

em cada parágrafo, uma suspeita... 

Marina Tsevietaieva  (15-11-1935)

Cai a palavra de pedra

sobre um peito ainda vivo

não é grave , estava preparada

aprenderei a viver de novo

Ana  akmatova  (A sentença in Requiem 22-6-1939)

Melhor dizendo isto nem sequer é uma resposta mas apenas aquilo a que se poderia chamar uma declaração de interesses.

E começo por declarar que as posições "russistas" cabem na minha compreensão mesmo se as considere intelectualmente intoleráveis. Passei muitos anos a ver textos meus cortados (desde a Vértice até ao "Comércio do funchal" para aplaudir uma qualquer censura a pessoas que até podem estar de boa fé. 

Compreender, porém, não significa, de modo algum, aceitar.  

V., leitor, quase me diz que eu sou um horrendo inimigo da Rússia  porque persisto em afirmar que uma invasão é uma invasão e não um gesto de cortesia ou uma bondosa tentativa de livrar um povo escravizado por Zelensky e capangas à r sujeito à mais brutal nazificação que o mundo conheceu; 

percebo que, eventualmente, V ainda veja a Rússia de Putin como um eco da URSS, país que para muitos era o sol da terra, a terra do leite e do mel, a fraternidade operária no seu mais alto grau , o último e milagroso grau da libertação do proletariado. 

Lamento dizer-lhe que nada disso foi, sequer  por breves momentos, verdade, mesmo se o suicidado Maiakovsky o por outro breve instante o sonhou. 

A URSS logo depois da revolução de Outiubro tornou-se uma espécie de capital da "revolução mundial" coisa que durou largos anos mesmo se o principal teórico desse evento maior (Trotsky) tivesse sido obrigado a exilar-se., perseguido sem descanso pelos homens de mão de Stalin

De resto não foi preciso sequer chegar ao quinto aniversário da revolução para se verificar que havia .que arrepiar caminho no que toca à economia (e inventar uma, também curta, NEP)  ao mesmo tempo que a chamada "ditadura do proletariado" acabava com toda e qualquer veleidade de independência dos sindicatos e dos societs  que, de resto, também já estavam moribundos depois da proibição de todos os restantes partidos mesmo aqueles cujo progressismo ninguém, no exterior da URSS, punha em causa.

Não foi por acaso que, logo em 1918, Lenin sofreu o atentado que finalmente, anos mais tarde o ajudou a morrer, não foi por acaso que um certo Djugatchivilli, conhecido por Stalin, se foi tornando o mais forte e poderoso membro do politburo, nem foi por acaso que os partidos comunistas nascidos sob a égide da 3ª internacional se tornaram e desde a nascença meras correias de transmissão do Komintern, tendo até, ao lado das direcções legais e públicas, outras instancias secretas que as controlavam e penas respondiam perante a Internacional

Essa URSS que ia crescendo, viu-se obrigada a abandonar a ideia de revolução internacional ainda em tempos de Lenin e se é verdade que concitou desde a origem a hostilidae dos governos "burgueses" também é verdade que alguns destes ainda tentaram auxiliar a desordenada contra-revolução que durante dois ásperos anos fez perigar a nova república. De resto, esta sobreviveu não só graças ao esforço dos seus militantes mas também porque a divisão dos adversários impediu que a ""Rússia branca" triunfasse.

Curiosamente, é com o consulado (a ditadura) de Stalin que ao trucidar milhares de responsáveis comunistas em processos delirantes terá como que garantido aos capitalistas que a URSS se tornara um Estado quase normal  mesmo se nesse percurso tivesse sacrificado alguns milhões de cidadãos (isto sem falar no "holospodeor" ucraniano que sangrou esta república entre três e cinco milhões de habitantes que nem sequer puderam fugir da fom imposta por se lhe terem fechado todas as fronteiras internas). 

Antes da eclosão da 2ª Guerra, a URSS celebrou com o IIIº Reich um pacto infame que permitiu a Hitler ficar com as mãos livres para travar a guerra na frente ocidental ao mesmo tempo que permitiu à URSS ocupar os países bálticos e metade da Polónia. 

quando a Alemanha invadiu a URSS , esta só aguentou o primeiro embate graças a uma ajuda gigantesca dos EUA (no estes dias 685 de Maio de 2022 forneço uma reduzida mas significativa lista dessa ajuda)

Terminada a guerra, a URSS conseguiu que na ONU tomassem lugar duas repúblicas socialistas e soviéticas (a Bielorússia e a Ucrânia) o que, a luz do Direito Internacional poderia significar que estas eram países independentes. 

A partir do fim das hostilidades o Exercito Vermelho ocupou os países que tinha libertado desde a Polónia à Checoslováquia, da Bulgária à Roménia, mantendo  entretanto os países bálticos sob o anterior controlo. Apenas escapou a Jugoslávia, apesar de ter um país socialista (transviado) que graças a Tito conseguiu libertar-se a si próprio com forte ajuda britânica.

Entre o 17 de junho berlinense (1953) e o esmagamento da primavera de Praga, a URSS interveio na Hungria e manteve todos os restantes membros do pacto de Varsóvia sob estricto controle com poderosas guarnições estacionadas em cada país. Não vale a pena relembrar o bloqueio de Berlin ou o muro que matou mais de 800 cidadãos que só queriam fugir.

A URSS implodiu como se sabe sem precisar de qualquer ajuda ocidental ou da NATO.

Os países ex-socialistas saíram sem qualquer  contrariedade  daquele colete de forças e ao que se vai vendo mesmo sem a NATO, que dormia o sono dos justos, e logo mostraram um a forte animosidade ao antigo protector/libertador/ocupante

Por dentro a Rússia viu evaporar-se o partido comunista que agora é apenas uma espécie de pequeno auxiliar de Putin. para as tarefas menos reluzentes. Existe apenas porque é tolerado. Os seus antigos quadros mais capazes ou mais ousados devotaram-se à tarefa de criarem colossais fortunas tomando de assalto as antigas empresas estatais da URSS.

No meio disto tudo, desta dolorosa transformação, que vai de Leningrado a S Petersburgo,  uma vítima há: o povo russo que vive pior que os seus antigos súbditos ora encarniçados "ocidentais" e possíveis "agressores" enquanto membros da NATO

Faço parte de uma geração que ou se deslumbrou com a URSS ou pelo menos, no meu caso, sempre admirou a grande cultura russa, o seu cinema, a sua música, a sua poesia e alguns dos mais extraordinários romances dos dois últimos séculos.  Até gosto, e muito, da música religiosa ortodoxa que,  meu ver, só tem comparação, com o milagroso e belíssimo canto gregoriano. Ateu sim, mas nunca no capítulo da música.

Percebo que para os saudosos de um regime que se suicidou ou se deixou morrer por falta de força anímica, de energia, de aceitação popular, a ideia de regressar à glória da autocracia czarista ou da ditadura soviética  passe, para já, pela conquista da Ucrânia (e depois, logo seguirão os bálticos)

A famosa operação militar especial era para durar suas, três ou até quatro semanas de um quase passeio triunfal  por um país que amava estremecidamente a "mãe russa" (para citar o inesquecível Stalin e os seus ainda vivos admiradores). 

Infelizmente, maldosamente, o raio da Ucrânia ou o seu povo não estiveram de acordo apesar da gigantesca desproporção de meios, de armas, de soldados. 

Vir dizer que é a NATO ou os ocidentais que estão na origem deste "diferendo" é absurdo, é, perdoará, má fé. A Ucrânia resistiu  não pelas armas que tardaram e tardam sempre em chegar, não pelos belos olhos de Biden ou Macron ou da senhora von der leyen. Resistiu sozinha o tempo suficiente para se começar a perceber que queria, quer, ser independente. Independente como os solenes tratados entre ela e Rússia reconheciam sem limites. 

Para "soberania limitada" bastou  a história do bloco socialista e do Pacto de Varsóvia  que cunhou essa expressão. É delirante e cabe na categoria de teoria da conspiração permanente a ideia que foram os americanos e os seus aliados que se deslocaram para a praça Maidan para fazer cair um regime que, aliás, estava a armado, matou e só caiu por verificar que não tinha qualquer apoio popular. 

A ideia de que um par de agentes mal intencionados pode provocar tais levantamentos é, para quem queira ler as actas dos processos de Moscovo, uma repetição da História e conviria lembrar que esta pode repetir-se mas com resultados sempre trágicos. 

A Rússia tem problemas bem mais importantes para resolver. Basta recordar a quebra da natalidade russa ao contrário da dos povos não russos no seu interior, a fraca produtividade da sua economia,  a falta de apoio internacional (ainda que a Eritreia, a Venezuela ou a coreia do Norte  a apoiem!,,d) A referência à Coreia do Norte, e já agora, ao Irão como fornecedores de armas diz muito  de como as coisas estão. A outra ideia (do finado Prigogin) de ir buscar soldados às prisões também merece ser citada apenas para se perceber como um erro de cálculo e de perspectiva pode gerar uma catástrofe.

Putin era apenas um coronel da Polícia política e secreta. Continua a ser isso mas em mais velho e mais poderoso graças ao encarceramento dos seus oponentes e à fuga de um número impressionante de cidadãos jovens, qualificados que desertaram em número gigantesco de uma situação sem futuro. 

E, por último:

estou a escrever isto diante de uma estante carregada de livros de História russa, soviética e de tempos mais remotos. Não citei nunca, nem citarei, wikipédias duvidosas. e redes sociais que não frequento. Desde os anos sessenta venho assistindo, debatendo, lentando informar-me do que se passa no mundo. Sem antolhos ideológicos. Conheci demasiado bem (aliás mal ou mal para mim)  a vaga caricatura de regime autoritário que me levou trinta e cinco anos de vida, para agora embandeirar  em loas seja a que regime for. Os factos e só eles e a verificação da sua autenticidade são os pilares de que me socorro para escrever e estão neste blog mil e muitos texto (eventualmente até quase dois mil) a provar o que afirmo. Mas se for preciso uma só frase bastará esta: há neste caso um agredido e um agressor. com um pequeno apêndice: a história dos agressores está sempre pejada de justificações mas  para o agredido basta uma: Está a ser atacado. Tudo o resto é conversa.

Leitor, V pode ser  intransigente com a Ucrânia mas leva a sua infinita transigência com a Rússia a limites admiráveis- É obra!

os dois excertos de da autoria de Marina Tsevietaieva e de ana Akmatova permitem "ver" o universo concentracionário em que viveram. Marina, suicidou-se  nos anos 40 depois da ter estado presa e da execução do marido. Ana foi tardiamente reabilitada mas passou muitos anos sem poder publicar.

1 comentário

Comentar post