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Incursões

Instância de Retemperação.

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Estes dias que passam 878

mcr, 26.01.24

Polícias: a "longa marcha"

mcr, 25-1-2024

 

 

Faço parte de uma geração que não tem especial simpatia pelas forças policiais, sejam elas quais forem. No Portugal em que a nossa juventude começava a mexer-se (falo do ano 1960 e seguintes) a polícia, a psp,  era o inimigo mais próximo e aquele que primeiro nos espancava, que nos prendia, que directa e visivelmente nos vigiava.

Só depois aparecia a PIDE e mais tarde (2m 1969) chegou a Judiciária (crise académica de Coimbra) que vinha aureolada por uma eficaz campanha de caça  e desbaratamento da LUAR. 

Não vale a pena fazer aqui a história dessa acção policial desencadeada pelo Ministério da Educação  e que teve algum êxito, mesmo se limitado, na identificação, encarceramento e processo de  algumas centenas de estudantes. todavia o movimento estava tão ramificado, era tal a quantidade de jovens que se tinham envolvido na crise que o resultado final (traduzido, ao que creio em mais de 25 volumes de processo) não teve nem especial significado, nem repercussão tento mais que em 1970, uma espécie de paz dos bravos eduziu o conflito coimbrão graças a meia dúzia de medidas governamentais entre as quais se destacam algumas pela sua imensa e impensável amplitude. Para começar, nenhum estudante foi alvo de sanções académicas ou outras. Permitiram-se exames em épocas especiais para substituir os que a greve tinha inutilizado; tnenhum os estudantes presos sofreu represálias; as dezenas de activistas e dirigentes quem entretanto, tinham sido incorporados nas forças armadas e chamados para Mafra, regressaram  e prosseguiram os seus estudos. Evidentemente m,ais tarde, dentro dos prazos, habituais, tiveram de voltar às "escolas práticas" da tropa, cumpriram o serviço militar  tendo a grande maioria sido mobilizada para África. A Associação Académica foi reaberta, as eleições académicas foram realizadas sem constrangimentos (mesmo se alguns, bastantes, dos eleitos não foram "homologados" pelo ME (no que a mim toca ,tive a honra de ser notificado da não homologação logo que passados foram três dias da eleição para a Direcção Geral da Associação Académica (é uma pequena medalha de que não prescindo dada a "carinhosa" atenção governamental. Os restantes eleitos foram muito depois avisados do mesmo destino).  Também é verdade que terei sido o estudante que mais tempo este entregue aos maternais cuidados da "judite" que me manteve nos calabouços do Tribunal de Coimbra cerca de três meses. Suponho que devo a minha libertação apenas ao facto de estarem cumpridos e possivelmente  ultrapassados os prazos legais, e até nisto se verifica como esta polícia era diferente da outra, da política. Estou à vontade para o afirmar porquanto também fui alvo, e repetidamente, das atenções da pide, primeiro, da dgs, depois.  

Finalmente (e depois do parágrafo mais pessoal) caíram todas as autoridades académicas de Coimbra, foi escolhido um Reitor claramente simpatizante dos estudantes grevistas, mudaram os directores de faculdade e, milagre digno de recordar!..., até o Ministro foi mandado embora. 

A terceira força policial que também conheci ainda que apenas por um par de horas de retenção no quartel  de Coimbra foi a GNR. Depois desse episódio, tive o que costumo chamar a minha estreia na turma dos mais crescidos, tendo sido enviado para Caxias com mais 43 colegas e amigos. Lá penei (penámos) algumas semanas sem consequências de maior mesmo se a repressão à cris académica de 62 tivesse sido proporcionalmente muito mais violenta na academia coimbrã. Disso já, neste blog, dei conta, há largos anos, pelo que não vale a pena voltar ao tema. 

Tudo isto, para explicar, a minha escassa empatia com as forças policias ainda existentes e que nos casos da GNR, PSP e guardas prisionais (que obviamente fui obrigado a conhecer) estão agora em luta. 

E no caso em concreto sou obrigado a reconhecer que não lhes faltam razões. Em primeiro lugar, suponho que ninguém duvidará que são eles quem, em primeira mão, garantem a tranquilidade das ruas. É a eles que nos dirigimos por mil e um motivos, são eles que sobem à primeira linha no combate à criminalidade. E são eles  os primeiros a sofrer as consequências desse combate como qualquer leitor que leia jornais sabe. 

Este conflito que estava latente desde há muito tempo, basta pensar nas condições de muitas esquadras, na falta mais elementar de pessoal e viaturas, nos baixos salários auferidos, no facto pungente de serem continuamente deslocados para longe das famílias  para não citar mais um rosário de falhas que parece ser pensado à medida o conforto de quem infringe a lei. 

Como se sabe, a questão que destapou 

 a panela que já fervia foi a dos subsídios de risco concedidos aos agentes da Judiciária. Em termos simples é pelo menos cinco ou seis vezes superior a quem diariamente anda na rua, faz patrulhas, acode a toda a espécie de sarilhos ou de situações onde se reclama a presença da psp ou da gnr. 

Pelo que vou lendo e ouvindo, a medida aplicada à PJ e que tem efeitos rectoactivos a Janeiro do ano passado, foi apresentada pela Ministra da Justiça que nunca terá pensado (se a senhora porventura se arrisca a tão incomodo exercício) que  a medida, sem prever as restantes forças de segurança,  era uma imprudência ou pior uma tola provocação. 

E se refiro o termo provocação é porque o polícia solitário que iniciou o protesto a sentiu como tal . 

Devo acrescentar, mesmo sem a tal empatia que um passado longínquo mas relembrado provoca em quem   passou mais de uma dúzia de anos a fugir com pouco êxito  da guarda avançada do regime..

No país que sonha com tgv e aeroportos e mais um par de coisas provavelmente necessárias conviria lembrar que todos esses sinais de progresso são incompatíveis com forças de segurança desiludidas, desmotivadas, mal pagas e com uma aberrante falta de meios para levar a cabo a sua tarefa.

Parece que foram muitos os milhares de polícias que ontem, com calma e  civismo desfilaram até ao Parlamento. 

Fala-se numa greve marcada para o mesmo dia em que uma manifestação da Direita irá protestar contra a presença muçulmana em Portugal!!! 

Vai ser instrutivo... 

O Governo tem-se refugiado no facto de entender que uma mudança  nos suplementos policiais ó será possível depois das eleições.  Esperemos que os próximos dias não obriguem a modificar tais projectos. 

E que a calma (e o civismo) demonstrada até ao momento  não comece a ser desbaratada pela surdez  um tanto ou quanto hipócrita de que o Governo tem dado mostras.

De todo o modo, há a possibilidade de os directórios dos partido políticos se encontrarem muito brevemente com a plataforma de sindicatos que surgiu. Todavia, o tempo escasseia  ao mesmo tempo que a crescente adesão de profissionais ao movimento o torna mais vulnerável a posições radicais.