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Incursões

Instância de Retemperação.

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estes dias que passam 914

d'oliveira, 16.06.24

Brincar aos pobrezinhos

mcr, 16-6-24  

 

Hã muitos anos, ainda no tempo do “dono disto tudo”, correu uma frase de uma das suas mais próximas familiares a respeito das “casinhas” que o clã possuía na imensa Comporta. A senhora terá dito a alguém que naquelas terras alentejanas e nas casas onde veraneavam se brincava às casinhas de pobre.

Eu nunca passei na Comporta, ignoro a qualidade das ditas “casinhas” onde a família se aquartelava durante um par de dias de Verão mas tenho sérias dúvidas que esses alojamentos fossem sequer longinquamente, semelhantes às casas dos camponeses que lavravam aquelas terra. 

Claro que também desconheço o que é que a referida dama entendia por pobre ou casa de pobre.  

De todo o modo, não é disso que venho falar mas apenas de um suelto de jornal onde se informa o ex.mo público da tristíssima situação do sr Espírito Santo a quem o sadismo judicial provou de todos os bens. A pobre criatura vive agora da ajuda de uma filha generosa que lhe envia do estrangeiro uns tostões para conseguir sobreviver. 

Quando se diz tostões talvez, sem qualquer ironia, se devesse traduzir pela soma certa: quarenta mil euros mensais para ajudar os idosos pais a atravessar o deserto da velhice.

Abençoada filha que, com sacrifício, envia aquela modesta soma a quem anda atribulado pelos tribunais e pela voracidade dos jornalistas. Pelo menos poderão comer diariamente  o seu pão com manteiga, a sua sopinha e mais qualquer coisinha... 

A vida está difícil para todos, diz-se. Mais para uns que para outros, acrescente-se  que na pátria imortal não serão muitos os que, para aguentar o barco, dispõem desses antigos oito mil contos de reis.

É bem verdade que aquilo não dá para muitas estravagâncias mas o casal Espírito Santo também já não é novo  e seguramente já bão terá uma intensa vida social e respectiva despesa.

Não vou cair no populismo de afirmar que provavelmente 99,% dos portugueses  tem bastante menos para enfrentar o dia a dia.

Eu bem sei que, quando se foi rico, a ideia de não ter à mão uns dinheirinhos é pavorosa, Todavia, que diabo, quarenta milhardas, numa sociedade em que uma família se pode dar por feliz se tiver mensalmente um décimo dessa quantia, não são a negra miséria nem induzem o comentador ao dó.

Nem sequer me fazem tentar perceber de onde vem essa mesada mesmo se me dizem que a filha gentil está casada, bem casada, com alguém de largas posses. De todo o modo, a coisa anda por meio milhão ao ano e ninguém sabe quanto tempo o ex-banqueiro vai “andar por aí”

Porém, o tom, vagamente pesaroso, com que a notícia passou, como se para além da "violência" dos magistrados, da tragédia do Alzheimer (se verdadeiro...) e da curiosidade malsã da populaça, da bisbilhotice de uma certa imprensa  que, como no caso do leão moribundo, se ceva no cheiro a carniça, deixa-me absolutamente indiferente e a pensar na velha máxima, sic transit...

E nem sequer sei se a popular expressão “ cá se fazem e cá se pagam” é, no caso, verdadeiramente pertinente. Sobretudo porque a queda do banqueiro ainda não está acompanhada (alguma vez estará?) da reparação dos danos causados a uma multidão de depositantes que viram evaporadas as suas economias.

E ainda me resta saber, se neste feixe de processos judiciais, cabem todos quantos colaboraram conscientemente na imensa falcatrua.  Onde estão os funcionários de "balcão" que induziam os clientes a apostar em títulos instáveis e de grande perigosodade? Por onde andou a famosa (e cara...) inspecção bancária ? Ninguém viu nada? ninguém, ao menos, suspeitou? O Banco de Portugal nunca sentiu o cheiro a fumo, mesmo se o fogo ainda estivesse oculto?