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Incursões

Instância de Retemperação.

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homem ao mar 11

liberdade condicional 21

d'oliveira, 24.04.21

 

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Liberdade condicional 21

À atenção dos donos do 25 A

mcr, 24 de Abril

 

 

Há 47 anos, estávamos em pulgas. Quando digo estávamos, refiro um grupo de amigos, vindos todos de Coimbra, passados todos pelas lutas estudantis e pela revê académica de 69. Estávamos todos no Porto, muitos de nós a advogar e, por razões várias, grupais mas não só, com conhecimento do que se passaria nessa noite. Alguns dos nossos estavam na tropa e, honra lhes seja, na conspiração. No meu caso, um dos jovens oficiais milicianos, pedira ajuda. Que eu me encarregasse de, em caso de necessidade, falhado o golpe, tivesse tudo preparado para levar para a fronteira, tantos conspiradores quanto possível. Para o efeito mobilizei os meu sogros, Jorge e Alcinda como motoristas dos respectivos carros, o Rui Feijó, idem e a Teresa Feijó que já se tinha distinguido como (a exemplo do pai)  hospedeira de fugitivos à polícia. Com isso eu conseguia 5 carros prontos para ir numa corrida para a fronteira, velha conhecida minha dado que, há já uns anos, passava por ali dissidentes a caminho do exílio. Noutra casa, a Fernanda da Bernarda e o Zé Ferraz (e a Joana) avisados tambºem, dispunham-se a albergar quem necessitasse. O mesmo acontecia com  a Isabel Ferraz, o casal Leonida e Manuel Strecht Monteiro,  o António Lopes de Dias e a Lena, o Zé Bandeira, a Mi e mais alguns que neste momento não consigo recordar. No Marco de Canavezes estavao casal Isabel Pinto- orge Baldaia, há dias falecido.  Na Figueira, o Quim Sousa e o Zé Baldaia preparavam-se para ir para o quartel auxiliar os revoltosos que, em coluna, marchariam para Lisboa.  Nos quartéis conspirando tanto quanto podiam e mais, muito mais do que a prudência talvez aconselhasse, estavam outros amigos de Coimbra, o Zé Afonso, o Manue Simas, o Sottomaior – que estava destinado a ser o oficial de dia (ou de noite) no quartel General- enfim, estávamos todos e isso é bom lembrar aos agora candidatos a donos do 25 A. Nós arriscávamos tanto quanto eles.

O Zé Afonso, dera-nos as senhas e portanto, em minha casa, eu e a João  (e a Teresa que achou melhor ir para lá dormir para estar ainda mais em cima do acontecimento) a noite ia ser longa. Os meus sogros e as raparigas deitaram-semas eu fiquei alerta. Como sou um pouco distraído, para não dizer pior, esqueci-me ou não sabia, que os Emissores Reunidos de Lisboa (onde sairia a 1ª senha) eram inaudíveis no Porto. Imaginem a minha frustração. De todo o modo, meio vestido fui passando pelas brasas mas aí pelas três/quatro da manhã algo me acordou. Na rádio passava um comunicado do “movimento das forças armadas”. Dei um uivo, acordei o mulherio, corria ao andar de baixo a alertar os meus sogros. O Jorge Delgado, ex-preso político avisou que só o voltassem a acordar caso fosse preciso. A Alcinda, optou pelo mesmo diapasão. Resolvi telefonar ao Rui Feijó que imediatamente sugeriu uma volta pela cidade para ver o que se passava. As duas raparigas já estavam prontas, prontíssimas, excitadíssimas e lá fomos os quatro, madrugada fora, espreitar os quartéis  (tranquilos mas com luzes acesas), o movimento (inexistente). Aí pelas seis caímos num café que abria onde me deparei com a mulher de um dirigente sindical da “ferrugem” que me murmurou “ai se ao menos soltassem os presos políticos!...” “claro que sim, retorqui, com uma segurança só baseada no meu incorrigível optimismo, na minha absoluta esperança, lembrado do irmão fugido em Paris e passado na fronteira por mim e pelo Manel Simas.

A manhã com sol apanhou-nos em Miramar onde uns soldados estavam perto de uns emissores (RCP?) , Fora isso mais nenhum sinal. Regressámos triunfantes e sedentos de notícias para o pequeno almoço. Depois começou a catarata de telefonemas, De todos os lados ouvíamos gritos, risos, alguma lágrima de comoção “porra mcr, esta já cá canta!”. Aí pelo meio dia rumou toda a gente à casa da Fernando da Bernarda e do Zé Ferraz e aquilo mais parecia uma Assembleia Magna das boas, das coimbrãs. Os nossos amigos de Coimbra também estavam em polvorosa. Uma festa!

Esta pequena crónica serve apenas para avisar alguns alegados donos do 25 A  de que, por muitos lados, havia gente pronta a sair para a rua ainda as colunas não tinham chegado ao Carmo, onde outra multidão desarmada já cercava o quartel. E no meio delas, o Francisco Sousa Tavares, monárquico e oposicionista preparava-se para arengar aos sitiantes. E ainda ninguém sabia se as coisas corriam de facto bem ou não.

Dito isto, fecha-se a referencia à triste, ridícula e patética controvérsia sobre o desfile da Avenida que se saldou numa espécie de saída de sendeiro que não honra ninguém e apouca todos os membros da numerosa comissão organizadora. Agora, todos poderão desfilar desde que aceitem uma espécie de caderno de encargos inventado à ultima hora num apelo qualquer.

Estou longe dessa confusão de gentinha que se põe em bicos de pé para aparecer numa fotografia auto-celebrativa. Lembraria apenas, caso valesse a pena, que a liberdade deve ser o ar que se respira pelo único pulmão possível o da democracia.

Mas isto, esta simples verdade, há de ser demasiada areia para a camioneta deles.

Em memória de Jorge e Alcinda Delgado, Rui Feijó, Zé Bandeira, Fernanda Bernarda, Zé Tavares Pinto, Jorge  Baldaia,  Joana , a “aleijadinha” e mais alguns que se a memória me falha não estão por isso ausentes. Do que foi e poderia ainda ser o espírito do 25A.

Se a comissão permitir, claro...

 

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