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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

homem ao mar 12

d'oliveira, 25.04.21

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Liberdade condicional, 22

Um livro fascinante

mcr, 25 de Abril

 

 

Todos os anos, pela tardinha, o Rui Feijó telefonava neste dia apenas para dizer que, “apesar de tudo tinha valido a pena”. E eu respondia ao velho grande Senhor que sim, que valera a pena, que, se nem tudo corria como sonháramos, era de todo o modo, bem melhor, incomensuravelmente melhor do que os anos de chumbo que ambos (ele bem mais) vivêramos até 74. Agora o Rui já por cá não anda mas eu não consigo deixar de o lembrar (e ele e a muitos outros) e esperar o seu telefonema que, depois se estendia por uma boa meia hora de conversa.

Desta feita, lembrei-me ainda mais porque, ontem comecei a ler (e, mesmo com estes olhos maltratados, já vou na p. 110!) um livro fascinante onde o Rui é evocado uma boa dúzia de vezes.

Tem por título “A PIDE e os seus informadores – o caso de Inácio”. É seu autor Paulo Marques da Silva, um licenciado em História , autor de um outro livro sobre Fernando Namora, “Fernando Namora por entre os dedos da PIDE” e ainda de um opúsculo “Denis Jacinto entre suas paixões: o teatro e a liberdade”

E cito estas duas últimas obras por razões também pessoais: O Namora era amigo lá de casa e foi até o autor da caricatura do meu pai para o livro de curso. Quanto ao Denis Jacinto que conheci bem e de quem fui amigo, fez parte de um grupo informal de consultores da Delegação Regional da SEC onde trabalhei e de que fui responsável.

De resto, o livro que motiva o folhetim está recheado de amigos (mais velhos, quase contemporâneos dos meus pais) meus da época de Coimbra e a quem devo muito mais do que alguma vez poderei pagar, a menos que a admiração, a fidelidade e a ternura que me suscitam possam, de certo modo, ser uma pobre retribuição. Não vou citar todos porque ultrapassam a meia centena mas não posso deixar de mencionar Albano Cunha, advogado em cuja casa joguei muitas vezes bridge, Judite Mendes de Abreu, amiga e mãe de amigos fraternos, Cristina Torres, professora figueirense e corajoa democrata, Mário Braga Temido, médico abnegado, Carlos de Oliveira, João Cochofel escritores, Armando Bacelar, advogado, Alberto Vilaça, advogado e meu primeiro patrono e Carlos Cachulo meu professor na escola primária.

O livro, um tomo de 350 pp, editado pela Palimage (Terra Ocre) lê-se com imensa facilidade não só por estar bem escrito, estilo simples, directo, claro mas pela história que conta. De facto o informador Inácio relacionou-se com toda a gente que militava no “reviralho” (e era uma multidão!) e obteve durante trinta anos uma informação que, por si só, é uma História da Esquerda coimbrã.

Com a cereja no topo do bolo: referencias constantes aos democratas figueirenses que, obviamente, também conheci. É absolutamente admirável a exactidão das “informações” prestadas, a avaliação da periculosidade dos elementos (“avançados”, “comunistas, “perigosos”, segundo a sua exótica classificação) que são denunciados. Por outro lado, arriscando-me a enganar-me, pois só vou na primeira centena de páginas, não deixa de ser comovente a coragem de alguns dos retratados (o caso de Albano Cunha é extraordinário) a obstinação que manifestam em enfrentar os mais diversos perigos. Aqueles anos sombrios são iluminados por rostos jovens (entre eles Salgado Zenha, que presidiu à Associação Académica e que, como Mário Soares justamente disse, foi “a consciência moral do PS” e advogado de inúmeros presos políticos. Com grande pena minha nunca o conheci pessoalmente mas admirei-o sempre mesmo quando apoiei Mário Soares).

À medida que ia lendo, saltavam-me ao caminho pessoas com quem me cruzei, na “Brasileira”, noutros cafés, em clubes modestos, em reuniões mais ou menos clandestinas.

Não é de todo a história da minha geração nem entre os citados há nomes de colegas e companheiros meus. Provavelmente, na década de sessenta, Inácio já teria saído de cena mas isso só saberei mais adiante.

Em qualquer caso, esta personagem faz-me lembrar que, uma vez quando integrado num grupo  que Sachetti recebeu nas instalações da PIDE coimbrã, o polícia disse que não era na Direita que recrutava informadores mas entre nós. Aquilo, na altura, irritou-me, tomei a coisa por provocação mas mais tarde percebi que ,além de nos avisar ameaçando, Sachetti dizia uma verdade como um punho. Os informadores da polícia (20.000 pelo menos) estavam entre nós, tomavam café connosco, iam às nossas reuniões, frequentavam os mesmos círculos, ouviam tudo e relatavam tudo.

Tudo isto independentemente de outros informadores que, por convicção ideológic também davam para o mesmo peditório. Aqui, neste livro, o que sobressai é o bufo pago à peça ou mensalmente, o que trai conscientemente pessoas que nele confiam, para já não falar naqueles (e não foram poucos) militantes políticos que a polícia “virou” à porrada, com promessas, por dinheiro ou inclusive por sedução.

É por isso que se torna cada vez mais urgente, abrir os dossiers, os arquivos e permitir às vítimas (onde me incluo) saber quem as denunciou. Não se trata de vingança mas apenas de apurar a verdade, limitar suspeitas, ilibar pessoas injustamente acusadas (e recordo um amigo que tinha um nome rigorosamente idêntico a um informador  que nunca terá usado pseudónimo. Foi o cabo dos trabalhos perceber quem era o gandulo e salvar o bom nome do nosso amigo que, felizmente, nunca soube das des confinças que sobre ele pesaram durante algumas semanas logo a seguir à tomada da PIDE portuense onde se ilustraram alguns amigos meus (Zé Afonso, Manuel Simas etc... )

À cautela já encomendei o livro sobre Namora, póstuma homenagem a um amigo do meu pai, que na lista conta com mais alguns entre eles o do médico e colega na Figueira Gilberto Vasco Branco que conheci bem e que sempre me tratou com carinho.

Gilberto Vasco nunca esqueceu que meu pai, um conservador, recusou um convite para assistente caso deixasse de se dar com ele, um “notório comunista”. Conservador mas honrado e amigo do seu amigo. Assim me recorde alguém quando o meu momento chegar.

Até lá vou ler este autor Paulo silva, nascido quando já eu era adulto e ex-preso. Arre, que estou velho!   

*na vinheta: Francisco Sousa Tavares no largo do Carmo no dia 25 de Abril ainda antes da rendição de Caetano.  Nunca o conheci, nunca fui monárquico, mas sempre admirei a sua coragem e o seu amor pela liberdade.