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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Homem ao mar 14

d'oliveira, 27.04.21

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Liberdade condicional 23

Inauguração a todo o custo

mcr  27 de Abril

 

Em termos puramente ferroviários, eu sou do tempo dos afonsinos. Ou seja, sou do tempo em que todas as capitais de distrito estavam servidas pelo caminho de ferro, em que a Figueira era testa de duas linhas (a da Beira Alta e a do Oeste) em que os meninos na escola primária decoravam não só todas as estações mas também todos os apeadeiros, coisa que se não lhes faziabem tambwm não lhes tirava saúde alguma. Aliás, nisso de decorar havia os sistemas montanhosas, os rios e seus afluentes ,a tabuada e mais um sem número de coisas umas úteis, outras menos, mas que faziam parte do que se aprendia na escola primária, onde também o corpo humano e a lista dos reis de Portugal eram matéria obrigatória.

Agora, um professor queixa-se-me de que os seus alunos (na secundária) hesitam em dividir um número por dois ou não conseguem mesmo fazê-lo!

O que aqui parece curioso é a defesa da criancinha que não deve ser obrigada a decorar uma lista de 10 rios mas aprende por sua conta e risco vinte, trinta letras de canções do momento, todas em inglês, pois claro.

Deixemos porém o inglório terreno das discussões sobre a educação onde pontifica o eduquês mais frenético e voltemos aos domínios mais materiais da ferrovia.

Diz toda a gente, Governo incluído, que os caminhos de ferro foram abandonados há décadas. Desde Cavaco Silva, acrescentou perfidamente Costa, desculpando-o no entanto por “na época não se ter uma ideia clara da futura política de transportes”. Eu, sempre virulento, diria que na década anterior, e na anterior dessa, também ninguém se importou com o sistema ferroviário. Ninguém! Vivia-se na sofreguidão do carro recentemente disponibilizado a alguns, depois a outros, finalmente a todo o bicho careta. O que era preciso era estradas que, por acaso, também não havia.

Absolvido Cavaco, absolvidos todos os governos post 25 A, eis que o fantasma do comboio (ou o comboio fantasma começou a assolar a pátria carente, os trabalhadores suburbanos, os defensores do ar puro e os profetas do fim dos combustíveis fósseis, agora reconvertidos à verdade verdadeira do pópó eléctrico que, segundo os jornais de hoje, nunca custa menos de 40.000 euros, uma soma ridícula ao alcance de qualquer bolso nacional.

Já no domínio deste Governo, versão Geringonça 1, um pobre diabo, feito ministro sem saber o que isso queria dizer, veio anunciar uma nova era de vinho e rosas para os caminhos de ferro. Aquilo ia ser um vendaval de realizações, uma nova descoberta da Índia rápida, indolor e festiva. Não foi.

Essa criatura ministerial foi mandada rapidamente para o recato do parlamento europeu, sem sequer se poder vangloriar de ter oferecido a uma criancinha pobre mas merecedora um comboio de brincar. Nada! Zero!, Zero elevado a zero!

E veio o cavalheiro que adora pôr as perninhas dos banqueiros alemães a tremer. Veio salvar a TAP (lá iremos, brevemente, logo que consigamos recompormo-nos de mil despedimentos e 1200 milhões de prejuízo só este ano que passou. Quando tivermos feito as contas desse pequeno sacrifício a acrescentar ao triplo já perdido, viremos aqui. Até lá o que nos treme é a algibeira, a nossa que é sempre o mexilhão do  mar a bater na rocha) e a ferrovia.

Convenhamos que nesta segunda linha de acção, as coisas começaram a correr. É verdade que já havia projectos e propostas de reactivar Guifões, de ir aos comboios parados e a apodrecer e dar-lhes uma boa refrescadela para os pôr a circular, que havia a ideia de ir buscar umas centenas de trabalhadores especializados e de os mobilizar para as tarefas de restauro de locomotivas e carruagens. Tudo isso é verdade, mas foi este ministro que, depois do Alcácer Quibir do ar, tem na ferrovia uma oportunidade de ganhar uma Aljubarrota.

Claro que nem tudo são rosas, que à Rainha Santa já basta ser padroeira de Coimbra. Todavia, e finalmente, foi electrificada a linha de comboio Porto Valença. Ou foram electrificados os quilómetros que faltavam. Seja como for, o Primeiro Ministro lá foi eufórico até à fronteira norte inaugurar como é habito algo que, por acaso, por mero acaso, estava previsto ser inaugurado há uns tempinhos (dois anos, pelo menos). Em boa verdade a inauguração é apenas meia inauguração. Faltam passagens desniveladas e falta boa parte da sinalização electrónica. Mas já há comboio eléctrico com a novidade de partir de Coimbra.

Eu que sonho com um comboio eficaz até Vigo para evitar 150 bons quilómetros de auto-estrada começo a ter esperança de não morrer sem o estrear. Mas apressem-se, que diabo, que já não estou assim tão fresquinho para poder esperar largos anos!

Segundo o “Público” a comitiva era numerosa, viajou em duas carruagens de primeira que não fazem parte do menu Porto Viana Valença, mas também não são nada do outro mundo. Já a comitiva contava com o Ministro da Educação e com uma Secretária de Estado da Habitação!!! Fica bem ligar estes dois pelouros aos Transportes tal a proximidade entre os respectivos escopos!

Todavia, mesmo sabendo em que país vivo, há algo que me consegue surpreender. Porquê a festarola inaugurativa quando a obra ainda não está concluída? Eu sei que, neste jardim da Celeste, as inaugurações são sempre em catadupa e aos bocadinhos porque assim “rendem” mais. Daqui a uns meses, o Primeiro Ministro inaugura a electrónica e depois, com mais vagar, há de chegar o tempo das passagens de nível desniveladas. À falta de romarias este ano, arranjam-se estes bocadinhos de festa mesmo se pontuados de manifestações de criaturas anti-patrióticas que querem melhores salários (o último aumento data de 2009), fronteira aberta (só quem não conhece a fronteira de Valença-Tui é que não sabe que a cidade portuguesa passa a ponte enquanto a espanhola faz o mesmo em sentido contrário.

Referi acima que gostaria de ir do Porto a Vigo de comboio. Todavia, do Porto a Valença são duas boas horas o que me parece demais sobretudo com a linha electrificada. Se os espanhóis segurem o nosso exemplo, Vigo fica a três horas. Convenhamos que, assim, não serão demasiados os passageiros que não se importam de perder uma manhã num trajecto tão curto.

É que um dos cálculos portugueses pressupõe que o aeroporto Sá Carneiro (Porto) se possa converter num acesso privilegiado à Galiza, ou à sua parte sul. Para isso, três horas é muito tempo. Demasiado!

(em tempo: no ano passado, fiz férias em turismo rural – excelente!- perto de Barcelos. Pelo caminho, apanhei duas passagens de nível. Em ambas tive de esperar que o comboio passasse! Numa estrada que já não é razoável, duas passagens de nível exasperam.)

Na vinheta; em Vigo já perto da ria, há uma rua cheia de vendedoras de marisco, ostras quase sempre. Ao lado uma multidão de bares fornecem mesas e bebida. Ai, meu Deus!...que saudades!