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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 15

d'oliveira, 28.04.21

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Liberdade condicional 23

Vai ser desta?

mcr, 28 de Abril

 

Há quinze dias, um mês, um pouco mais ou um pouco menos, li, vi, ouvi uns sisudíssimos cavalheiros avisarem gravemente sobre uma ressurgência dos maus dias. Era os efeitos da Páscoa, da reabertura das escolas, do ar da Primavera, do desporto ao ar livre ou da falta dele, era sei lá que mais. Até apareceu um matemático que afirmava quase o dia e a hora de um cataclismo vírico.

Como sou, de meu natural optimista, como já tenho o rabo mais pelado do que um macaco centenário, e como já conheci outras e piores Cassandras, não me comovi excessivamente, mesmo se, entredentes, desse livre curso a um pequeno rosário de palavrões de Buarcos, dos bons, dos antigos, dos que surtem  efeito.

E deixei-me andar, por aqui, sem grandes folias mas também sem especiais receios. Tomei, entretanto, a primeira dose da vacina que para alguma coisa vale a penas ser velho. De hoje a oito dias lá irei à segunda pica. E depois, respirarei um pouco melhor, convenhamos.

No entanto, o que hoje me traz à vossa amável companhia é justamente esta espécie de cacofonia em que um cacharolete de “especialistas” entende remar contra a corrente mesmo se são poucos  os argumentos e frágil o arsenal de razões evidentes.

É verdade que, noutras alturas, o Governo pecou gravemente (eu diria mortalmente mas nada abate Costa & comandita) e foi de uma ingenuidade pasmosa e de um optimismo idiota. Depois, claro, apertou o cinto às criaturas, proibiu a torto e a direito, fechou o país de tal forma que isto mais parecia uma mastaba colectiva habitada por múmias paralíticas. Foi dose de cavalo mas parece que funcionou. Por essa Europa fora as coisas desandam para o torto mas, “nós por cá, todos bem” (ainda alguém se lembrará do meu amigo Fernando Lopes, realizador honrado, trabalhador diligente, habitado pelo amor ao cinema?)passando do pior do mundo para um dos melhores. Foi obra. Só não digo mais porque, para piores do mundo contribuímos todos de forma alarve, governo à cabeça e malta atrás “cantando e rindo” como dizia o hino da Mocidade Portuguesa, uma palhaçada inominável que aguentei durante os primeiros cinco anos do liceu.

Voltemos, porém, aos “especialistas”. Eu tenho um imenso respeito pelos homens de ciência, mais ainda pelas mulheres (e mais uma vez rendo homenagem a Elvira Fortunato e, por ela, a todas as mulheres que estão a transformar o saber neste país, nas universidades, nos institutos de investigação.). Este país, na questão conhecimento científico está em bom caminho mesmo os resultados só se vierem a sentir no tempo do Nuno Maria, menino de três anos e pelo na venta, irrequieto que agora hesita entre um capitão América e um outro herói que é detective. Nos intervalos veste-se de bombeiro e anda de trotineta.

Todavia, quando acontece qualquer coisa que sai do normal, as televisões deitam pés ao caminho e arrebanham uma multidão de “especialistas”, de conhecedores que, muitas vezes não conhecem nem especializam seja o que for. Durante este longo ano tivemos direito a uma boa centena de criaturas que regra geral ou falavamcautelosamente e confessavam os seus limites ou se atiravam de chapa para a água e diziam tudo o que lhes vinha à cabecinha pensadora. Juntem-se-lhes comentadores à dúzia e jornalistas           ao quarteirão e o caldo está definitivamente entornado. Pior do que Babel mesmo se à partida a língua era a mesma.

De quando em quando, aparecia alguém mais avisado, mais discreto que lembrava que se estava perante algo de absolutamente novo e de que pouco ou nada se sabia. Trabalho baldado! Os infatigáveis palradores paravam por um momento e depois voltavam à carga com mais energia do que as estirpes do vírus que se vão revelando. Consta que a indiana já por aí apareceu, Seria bom saber como e de que maneira fez estes milhares de quilómetros todos, tanto mais que as fronteiras estão fechadas, a TAP tapada (só destapa para anunciar mais prejuízos e mais despedimentos), o turismo parado. Terá vindo pela internet?

Nisto tudo, neste panorama aparentemente muito menos sombrio do que há meses, há heróis. Desta feita, já não refiro os do costume, a malta da saúde que continua a dar o litro e de que maneira, mas os cavalheiros da logística e, dentre eles, o vice almirante de poucas mas claras palavras, que felizmente ficou com a herança de um boy do regime que meteu as mãos pelos pés e vice versa enquanto debitava burrices políticas à toa.

O marinheiro pôs a farda nº3, a de todos os dias de trabalho, e tem mostrado que merece inteiramente a alta patente que tem. Se as vacinas chegarem a tempo e horas, a população portuguesa será inoculada em número suficiente e poderá começar a lamber as feridas que são muitas e vão ser ainda mais. Não é só o desemprego. São as moratórias que acabam, os milhares de pequenos negócios que faliram, as sequelas de meses e meses de confinamento, as consultas perdidas, as cirurgias adiadas, o ensino em petição de miséria.

Isto, a reconstrucção, vai demorar e não basta uma bazuca nem duas. Se é que chegam a tempo...   

 

Parafraseando, de memória, Churchill: “isto não é o princípio do fim mas talvez possa ser o fim do princípio”. Ainda temos muito caminho das pedras pela frente.

Mas, pelo menos, temos um caminho!