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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 17

d'oliveira, 30.04.21

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Liberdade condicional 24

“Il fair frisquet”

mcr, 30 de Abril

 

Foi há muitos anos, em Saint Paul de Vance, tinha eu ido à fundação Maeght levado por umas amigas recentes encontradas em Antibes. Não sou um habitué da côte d’azur, mas vinha de Itália num mini audacioso com o fito de nunca me distanciar do mar. Do “mar cor de vinho”, como diziam os gregos porventura depois de libações mais que copiosas.

Portanto, vinha numa navegação à bolina, dormindo onde encontrasse albergue decente mas adequado à minha modesta bolsa. Nas praias parva para um mergulho lamentando que não fossem de boa e fina areia portuguesa mas gabando a calidez do mar, mar sem ondas, sensaborão mas carregado de jeunes filles en fleur.

Saímos cedo, o dia anunciava-se caloroso mas em Saint Paul, talvez por efeito da (pequena) altitude senti saudades de uma roupinha mais confortável. E foi aí que das francesas enunciou “il fait frisquet”, saudosa, também ela de qualquer coisa mais quente do que a blusa vaporosa que trazia. E fomos rua fora à procura de roupinha quente e barata, enfim de umas camisolas ou algo do mesmo género. E, milagre dos milagres, encontrámos uma pequena feira e lá mercámos com que nos proteger do friozinho insidioso que desmentia um céu azul e um sol resplandecente.

Ora bem, hoje, por aqui, passa-se o mesmo. Ou quase pois francesas nicles, zero vírgula zero. E que houvesse, provavelmente nem me olhariam de soslaio quanto mais de frente. Ai os anos passam, passaram muitos, muitíssimos e nem para “viejo verde” sirvo já.

Tudo isto para dizer da minha aflição numa loja de lingerie & assimilados aonde a CG me mandou em demanda de umas soquetes e de camisas de dormir leves, fáceis de lavar e secar. Assim! Camisas de dormir, boas, leves e fáceis de lavar!

Felizmente  a loja fica mesmo em frente de um dos lados da esplanada onde diariamente me sento a beber os cafés da manhã, a ler o jornal e, no antigamente, a escrever o folhetim. Ou seja, a proprietária conhece-me bem, também ela não passa sem a bica matutina, pelo que ao ver a minha confusão, propôs-me vir cá a casa com uma série de camisas e discutir essa grave questão indumentária com a CG.

Agradeci longamente e quando mais tarde, depois de uma passagem pela livraria, cheguei ao lar, doce lar, eis que estavam as duas em amena conversa diante de meia dúzia, pelo menos, de camisas, discutindo prós e contras, cores, feitios e tamanhos, tudo muito científico (ou foi isso que me pareceu). A vendedora ainda me disse ”afinal cheguei antes do sr. doutor”. Desculpei-me com umas vagas compras, laranjas, salsa, etc. E para me fazer perdoar afirmei magnânimo que oferecia uma das camisas. A CG aceitou imediatamente e, para os meus botões murmurei “vou pagar a mais cara!” mas, como se me tivessem ouvido, afirmaram-me que eram todas do mesmo preço tanto mais que assim sempre ficariam três cá em casa.

“Antes para isso que para a farmácia”, voltei a murmurar para os meus interiores e fui por uma camisola porque também eu, tinha reparado que a temperatura exterior não era exactamente primaveril, tanto mais que soprava um ventinho malicioso do género frisquet.

Eu ia falar do depoimento de testemunha de defesa do dr. Louça que, pelos vistos, também foi arregimentado ou arregimentou-se pelo pirata informático. Pelos vistos o ilustre conselheiro de Estado afirmou que o “Luanda leaks” só ocorreu depois da invasão  dos computadores da srª Isabel dos Santos “abrindo-se assim uma luz num quarto escuro”. Claro que Louçã, sempre previdente, lá deixou cair uma pérola antiga a saber que “os fins não justificam os meios” mas pelos vistos perdoa o pecado pelo bem que sabe apanhar uma empresária capitalista (melhor dizendo africanista pois fortunas daquelas só surdem em locais onde o poder –sempre revolucionário- reside num papá omnipotente e num partido corrupto até à medula. Nestas coisas só há um problema. Dequando em quando os que recebem menos querem uma fatia maior do bolo, coisa que obviamente lhes é recusada. Então só há um meio, substituir todos os comensais por outros comensais à vista do povo faminto. Louçã (tl como eu) não estimaria as manobras do clã Santos em Portugal. Vai daí aparece a defender um rapazola que agora se arma no Robin dos Bosques dos hackers. É um ladrãozeco mas é dos nossos!

Frisquet, muto, demasiado frisquet...

Na vinheta: meninos numa zona pública onde se pretendia construir à socapa expulsando previamente os moradores.