Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Homem ao mar 2

d'oliveira, 15.04.21

Relação_da_muy_notavel_perda_do_Galeão_Grande_S

Liberdade condicional 10

It’s allright Ma (I’m only dying)

mcr, 16 de Abril

 

 

Se há um prémio Nobel justo, e há muitos, felizmente, esse seria o de Bob Dylan, autor de uma obra imensa, de centenas de poemas, verdadeira testemunha do nosso tempo.

O título leva-nos ao álbum “bringing it all back home” onde consta a canção que dá título ao folhetim. Em boa verdade na parte entre parêntesis é “I’m only bleeding” que no filme “Easy Rider” se converte em “...dying

Eu faço parte, até por questões de geração, dos fãs deste filme. Aliás, recordo-me bem da sua estreai  (em Coimbra)  já em 1970 se não me engano. Atrever-me-ia a dizer que o vi pouco depois, escassos dias, de sair da prisão onde permaneci algum (demasiado) tempo ainda na sequência da crise académica de 69.  Talvez, também isso, tivesse influenciado a percepção do filme que, aliás, é bastante estimado e considerado até, na América, o “retrato de uma geração”

Todavia, não é para falar de Dylan, da minha “oisive jeunesse”, das pequenas aventuras que foram ocorrendo, que fui buscar o verso de Dylan. Acontece que, os ásperos tempos que estamos a viver, e não me refiro, desta vez, à pandemia, cheiram a decomposiçãoo lenta mas crescente de um regime que permitiu, e permitirá provavelmente, o triste estado da justiça a que assistimos.

Não esqueço, obviamente, que uma instrucção é só isso. Que não só há existe a possibilidade de recurso (w já foram anunciados pelo menos dois) mas ainda haverá uma fase de julgamento, dos poucos crimes que o meritíssimo entendeu existirem e ainda vivos. Também não esqueço que mesmo entre os “enterrados” violentamente pelo mesmíssimo juiz, poderá sempre haver a ressurreição de alguns  mormente de natureza fiscal onde parece ue S.ª Ex.ª meteu água.

Também não vou discutir a questão da corrupção e, sobretudo, os extraordinários, bizarros, limites temporais do citado crime.  Por pouco não temos um crime inexistente e quase legal, mas isso tem outros pais, outros padrinhos que não o juiz. O legislador terá feito ouvidos de mercador à indignação pública que há um ror de anos se faz ouvir. Nem sequer vou pronunciar-me sobre as razões que levam tantos deputados, tantos especialistas, tantos “garantistas” a rodear os pressupostos da corrupção de tais exigências que, em boa verdade, começa-se a desconfiar de tanta defesa dos direitos... No caso concreto da corrupção, esta é uma das causas da pobreza em Portugal. O Estado vê-se incapacitado de agir,  paga mais do que seria normal, quem concorre a uma obra só a ganhará se untar a não, o antebraço, o cotovelo inclusive o ombro de quem devia mediar, garantir as regras da justiça e da equidade.

A “cunha” é uma instituição nacional que só quatro gatos pingados acham anormal. Dirigi uma instituição onde, o meu antecessor, homem do antigo regime mas duma honestidade exemplar, mandou elaborar um “livro das cunhas”. Aí se dava entrada dos pedidos, recomendações, ordens veladas e quejandos, que iam aparecendo subscritas por todo o ripo de personalidades civis, militares ou religiosas, por personalidades do mundo civil, por colegas de faculdade pelo dono do café ao lado, bilhetes, cartas, cartões de visita.

Tudo anotado com data de entrada e... com uma nota conclusiva a dar conta do êxito do requerimento. Tratava-se fundamentalmente de pedidos de emprego apadrinhados. Os próprios funcionários pediam para filhos e familiares e as suas pretensões transitavam da mesma maneira, livro, registo e conclusão!

Quando cheguei a essa instituição, modelar de resto, com pessoal competente, tinha a sorte de vir representando o novo poder democrático e de, oh insondável mistério!, não pertencer a nenhum partido com influência suficiente para impor fosse quem fosse. Mais tarde, alguém apresentou uma tentativa de explicação: num universo de mais de cinquenta lugares a preencher neste tipo de instituições, houvera o cuidado de agarrar em 10, 15%  dos lugares e atribuí-los a uns desconhecidos, o resto, obviamente foi para “os do costume” que ainda não eram os do costume, claro. O PC não precisou de lugares destes nem os obteve porque, através e outra via, a sindical, conseguiu impor um forte e aguerrido grupo de simpatizantes. Mesmo um partido conservador, o CDS teve direito a uma fatia porquanto as comissões administrativas em causa tinham um eleito pelos trabalhadores da casa. “Tout est bien qui finit bien”.

Quando fui confrontado com a existência do famoso livro, mandei conservá-lo e durante o meu mandato acrescentei-lhe uma dúzia de pedidos que, infelizmente para os peticionários não tiveram conclusão satisfatória. Ou melhor, um teve, o pedido chegou quando um concurso já terminara e o ganhador, mesmo assim, e à cautela, muniu-se de um padrinho inútil. Juntei a acta do júri à nota conclusiva com uma menção das datas do pedido e do concurso, para memória futura.

Mais tarde, noutras funções, fui com uma conservadora de museus ver uma peça enorme de prata e esmalte, que figurava a torre de Belém e tinha dentro um pequeno escrínio com terá portuguesa (ou de Goa, já nem sei). A referida peça estava numa loja de antiguidades e o dono e o intermediário pretendiam impingi-la ao Estado. Por alguns momentos, afastei-me da senhora com quem vinha e fui discretamente abordado pelo antiquário que me informou , muito à puridade que  se o Estado comprasse a peça (tenho a ideia que o preço rondava os dois mil contos, antigos e sólidos, dez por cento contemplariam o feliz funcionário proponente da compra.  Fiquei sem voz e sem saber o que dizer. Desandei para junto da colega mais corado que um tomate coração, pretextei afazeres urgentes e fomos embora, não sem a senhora dizer alto e bom som que a peça era horrenda e sem valor histórico.

Contei isto ao meu superior hierárquico que se divertiu como um cabinda com a minha situação e confusão. Ao meu pedido de inquérito perguntou-me “tens alguma testemunha?” e continuou É que se não tens é tua palavra contra a do sevandija!”

Claro que não tinha! E andei amargurado meia dúzia de dias por ter sido confundido, ainda que por breves instantes, com alguém capaz de meter ao bolso uma gorjeta.  

Hoje mesmo, corre nos jornais e televisões uma (mais uma!....) acção da PJ que envolve uma câmara municipal, um candidato a outra mais não sei quantas criaturas, três das quais presas preventivamente....

Durante uns dias, semanas, um mês quiçá, as notícias incidirão neste caso de venda de terrenos municipais. Depois, pouco s pouco, o ruído abrandará se é que se não transforma em música de fundo.  E a vida continurá...

Ora, o verso de Dylan, o fim violento do filme “Easy Rider” servem para ilustrar um certo estado de espírito que grassa por aí.

O descrédito das instituições, os ziguezagues rocambolescos do caso fétido de Sócrates, uma voz clamando no deserto da conspiração e da injustiça, uns largos milhões de euros que circulam sem se ver para onde e por quê, a demora que um mega-processo acarreta, as fragilidades a que isso está sujeuto (quanto maior a nau maior a tormenta), o ego de alguns interventores no processo, a transformção de um pobre diabo em mauzão da fita, tudo isto, graças ao comentariado (e eu incluo-me aí, mesmo se a partir de um modesto blog e a título gratuito) , o esbracejar de um dos actores principais, enquanto outros mais inteligentes, mais argutos se calam e se escafedem silenciosamente para trás do cenário, tudo isto com a estridência que se impõe, faz o retrato de um mal profundo, de um mal português de um país à deriva.

Está tudo bem ,malta estamos só a afundarmo-nos na merda!

 

(Já que citei Dylan, aqui vai um par de sugestões. De discos nem vale a pena falar. Eles são tantos que o difícil é escolher (Blonde on blonde, Highway 61, Blood on the tracks,a que junto um disco delicioso com The Band, um dos meus grupos favoritos)). Gostaria de citar o primeiro livro aparecido com poemas  e editado pela “Centelha” uma editora de que fui, com mais cem malucos, proprietário. O livro tem o título de Poemas 1. De todo o modo agora corre por aí uma edição monumental da Relógio de Água, uma senhora editora de altíssima qualidade: Dylan “Poemas e Canções”, 2 volumes.

Para acompanhar: Leonard Cohen (50 canções de amor e ódio, da Fenda, saudosa e corajosa) e, claro “Poemas e Canções”. (a inevitável Relógio de Água) A estes, por escolha de que só eu me responsabilizo, dois livros da Assírio e Alvim: “Estradas de fogo” de Bruce Springsteen e “Nocturnos”  de Tom Waits. Estou à espera de edições maiores e mais completas mas isso é com os editores... e com o público.

(de Bowie aos Stones, dos Beatles a Zappa, há versões em português a maior parte das quais já só em alfarrabistas. Mas vale a pena procurar pois aqui, há sempre pepitas em quantidade. Mais do que uma arma, a poesia das canções é um enorme prazer.

*na vinheta: uma ilustração do naufrágio de Sepúlveda (História Trágico Maítima, um dos maiors e mais notáveis livros, a par da Peregrinação. sobre a expansão portuguesa. Imprescindíveis em qualquer biblioteca portuguesa, pública ou particular)

6 comentários

Comentar post