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Incursões

Instância de Retemperação.

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homem ao mar 4

d'oliveira, 17.04.21

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Liberdade condicional 12

 52 anos! Já?...a nossa juventude

mcr, 17 de Abril

 

maio foi antes de abril mês de Portugal

mas isso foi antes

das guerras das dores

do saber e das lutas

de Coimbra...

 

Acabo de sair de uma esplanada onde estive com o António Lopes Dias já várias vezes aqui (blog) referido. Aliás fez parte, há muitos anos, da equipa deste blog sob o pseudónimo de Anto, um pseudónimo muito coimbrão e muito poético mas, de facto, o Didi, assim o chamamos carinhosamente, é poeta, esteve em todas e só falhou 69 porque... já estava formado e a estagiar. 

Mas tinha feito Caxias em 62, caso fazer caxias vos cheire a “estar dentro” pela malfeitoria de ser um homem livre e um lutador pela liberdade. Tropeçou na PIDE, ou esta nele, devido a ter participado na crise de 62 e ter ocupado a sede da AAC encerrada pela polícia e pelas autoridades académicas sempre, sempre, mancomunadas com o poder.

Somos amigos desde 61, desde o CITAC (onde ele fazia, no “Grande Teatro do Mundo “ de Calderon um rei inesquecível), tivemos escritório de advogados juntos, participámos na redenção das Caixas de Previdência em 75,  voltamos a reencontrarmo-nos profissionalmente sete anos depois na Segurança Social. Enfim, partilhamos tudo ou quase.

Desta feita fui pelo último livro dele  “Arquitectura  dos sonhos” (Chiado ed, 2021) sem saber que viria a encontrar a nossa comum juventude, num poema de 69, datado de Coimbra onde ele vinha amiúde porque a Lena ainda por la andava. Ainda por cima falámos da data de hoje! Eu nem sei se o Didi ao falar de Maio, estaria também a recordar a nossa primeira prisão, justamente em Maio de 62, a ida para Caxias em autocarros flanqueados de polícia de choque armada até aos dentes. E ele, poeta, franzino, e com sono adormeceu encostado ao ombro do polícia que o guardava e que permanecia mudo e quedo como um rochedo! A noite já ia longa e o malandrim com sono nem olhou para o lado: ferrou-se a dormir cabeça apoiada no braço matulão do policia de choque! É preciso coragem, inconsciência e muito sono. E eu perdido de riso sem me lembrar que não íamos para bom sítio, nem por quanto tempo...Outro inconsciente mas acordado.

A bem dizer, não esperava muito do dia 17 de Abril de 69. “Isto pode dar merda!”,  disse a um camarada que encontrei logo pela manhã muito antes da hora marcada para a concentração de estudantes diante do novíssimo edifício das Matemáticas que iria ser inaugurado pelo Presidente da República. E com esse companheiro fizemos um pequeno giro pela zona para determinarmos por onde fugir se as coisas dessem, como costumavam, para o torto. Consoante a polícia viesse de um ou de outros lados tínhamos a opção de nos escafedermos pela zona do Instituto Botânico, pelo Hospital Velho até às Químicas, por umas escadinhas em desuso junto das Monumentais numa corrida até à república de “Ay –ó-Linda”, ou em direcção à Porta Férrea onde poderíamos obliquar para a esquerda até ao Colégio da Trindade ou à direita, passando pela faculdade de Farmácia e atingir a Sé vlha por cima. E daí para o mundo.

Enquanto discutíamos esta grave questão, foram chegando colegas, amigos e malta desconhecida mas estudante. “”Chiça que há mais gente do que esperava!” disse o meu conspirativo parceiro. E era verdade. Um di sem aulas era pretexto para noitadas e para dormir aé ao fim da manhã. Mas não, ali iam chegando, fresquinhos ou com fartas olheiras de pouco dormir, mais e mais colegas. E a cena compôs-se, como se costuma dizer, “um bom quadro humanos” a aguardar autoridades políticas e académicas. Depois chegou uma companhia de soldados para prestar as honras militares. “Porra, mcr, isto está mau!” avisou o meu camarada de outras e mais clandestinas lutas. “Isto são maçaricos, retorqui, carne para canhangulo. Daqui a dois meses estão em África bem lixados” E expliquei que as espingardas nem balas deveriam ter. E acrescentei, “quem vier por mal, vem à civil. Se houver porrada é a polícia ou a GNR, não estes rapazolas a desmamar na tropa”.

Não sei se veio polícia que se visse e não me dei ao trabalho de me pôr a identificar a bufaria, os pides do costume. O dia estava bom e nem por sombras imaginava que as “autoridades”, um bando de cretinos envelhecidos, iriam dar-nos um pretexto para acender uma bernarda que durou meses.

Vê-se que, por muito “revolucionário” que me considerasse eu não contava com todas as alternativas (excepto a dos pontos de fuga!...). É que sempre tinha considerado que os nossos inimigos eram suficientemente cabrões e inteligentes para não darem passos em falso.  Éramos nos, rapazolas ingénuos, que deveríamos ser pouco prudentes, irreflectidos, não eles com dezenas de anos de treino contra o “reviralho”.

Enganei-me. Aquilo que sucedeu, a promessa e falta de cumprimento dela (permissão para o Presidente da AAC discursar) foi obra de Thomaz e dos restantes imbecis que o acompanhavam. Só deles.

As crises começam sempre, ou quase, por incidentes menores é, desde esse dia, uma verdade quase absoluta para mim.

Contar o que já foi contado dezenas de vezes não tem interesse. Deixo isso para quem se considerar “velho combatente”

Não fui um herói. Fiz o que tinha a fazer. Fi-lo com paixão, com determinação, com frieza e... (desculpem lá esta) com prazer. Ainda hoje me rio com algumas das coisas que sucederam. Depois...

Depois, o riso esmorece, apaga-se. E recordo os que já cá não estão, o António Mendes de Abreu, a Fernanda da Bernarda, o João Bilhau, os Alfredos (Fernandes Martins e Soveral Martins). E mais um batalhão de outros que os anos passam com o seu cortejo de lutos. E choro-os, hoje, como chorei quando morreram.

E agora, cinquenta e dois anos depois, recordo-os vivos, risonhos e carregados de futuro.

*as vinhetas: 17 de abril de 1969, de manhã.

A citação é obviamente de um poema de António Manuel Lopes Dias, tirada do livro que me ofereceu hoje. “Já vou a meio, Didi já tenho pena de acabar!..”

(não referi, nem referirei o nome do camarada cospirativo. Acabávamos de sair sem querer de ua célula pró-chinoca. O meu controleiro desandara para o exílio e a malta ficou sem ligações. E começaram a circular notícias da famosa granderevolução cultural proletária que eram de arrepiar desde a imbecilidade total do culto a Mao até à depuração gigantesca e mortal que se ia levando a cabo. "O Oriente é vermelho" era verdade mas de sangue não de liberdade.

 

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