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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 46

d'oliveira, 27.05.21

Liberdade vigiada 24

“Este parte, aquele parte...”

mcr, 27 de Maio

 

Seja-me permitido roubar o título a um poema de Rosalia de Castro, galega insigne que, curiosamente, teve direito a um pequeno jardim e estátua aqui no Porto. 

Algum direito tenho porquanto, num longínquo ano ainda da década dourada, trabalhei como uma espécie de assistente de Ricardo Salvat na preparação de uma peça que se chamaria “Castelao e a sua época”. O espectáculo seria montado com poemas, canções e textos do grande galego e, ao mesmo tempo, juntar-se-iam canções catalãs de um anterior trabalho de Salvat sobre catalães do fim do sec. XIX. Era nessa parte que eu entrava como tradutor, imagine-se!, do catalão. Confesso que só a loucura do Ricardo e a minha imprudente ousadia permitiam isto mas, verdade seja dita, lá levei o encargo a bom termo. Valia-me o facto de já ter na minha incipiente biblioteca alguns livros de poetas catalães, tudo edições bilingues que lera com atenção, entusiasmo e algum fervor.

Com a ajuda do Zé Nisa e do Adriano Correia de Oliveira, musicaram-se os poemas galegos e era a Maria João Delgado, minha ex-mulher e querida amiga, quem cantava o poema que dá título ao folhetim.

Obviamente, a peça esquerdava tanto quanto possível, coisa que a Censura percebeu e proibiu. Ficaram as canções que durante a crise de 69 animaram vários saraus de greve e, finalmente, levaram o Adriano a começar a cantá-las em público. Acho que há por aí algures um disco mas a preguiça, companheira de todas as horas, aconselha-me a ficar sentado sem o procurar. 

 Todavia, desta feita, não é das minhas modestas aventuras teatrais que quero falar mas de algo, infelizmente, mais triste: A morte de amigos.

Já vai longo o rosário de companheiros desaparecidos (ainda ontem recordei o Manuel Sousa Pereira, um escultor culto, maluco por música e cinema e que jamais perdia os westerns do Sergio Leone. E ontem, dava, outra vez, “O bom o mau e o vilão”, uma fita que outro amigo nosso, arquitecto de renome, nunca conseguiu ver até ao fim. O iconoclasta cinematográfico adormecia1... O MSP insultava-o longa e viciosamente mas o outro ficava impávido. “Tu já viste este anormaaaal?”, perguntava o escultor. E eu acenava alegremente só de ouvir o qualificativo. 

Agora o MSP já só é uma saudade que nunca perdoarei ao covid, filho da puta, três vezes filho da grandessíssima puta.

E hoje, aliás ontem, outra notícia maldita. Morreu o Acácio Barata Lima, outro da leva de 40. Oitenta e um anos e uma vida aventurosa, dura, combativa.

Eu conheci o ABL no “Mandarim” em Coimbra, café de conspiradores e de agentes da polícia que ali vinham à pesca. Ora, já depois de o conhecer razoavelmente, isto é um par de anos passados, ouvi-o anunciar que uma nova organização revolucionária dava os seus primeiros passos, prometendo novidades sensacionais.

Tratava-se da FAP (frente de acção popular) u grupo dissidente do PCP, criada por Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d’Espiney. 

Suponho que desses três apenas conheceria de raspão o Rui, velho militante das pro-associações estudantis lisboetas. 

De todo o modo, fiquei em pulgas, o que é sempre um péssimo sinal pois a curiosidade oblitera a razão. Não tardou muito em começar a militar naquela organização frentista que parecia renovar a luta contra o Estado Novo. 

Anos passaram, e oAcácio foi preso quando se dirigia para um encontro clandestino com o Francisco Martins Rodrigues, mostrando que as boas intenções e a diferença propagandeada não eram acompanhadas por medidas de prudência conspirativa exemplares. A FAP entretanto eliminara um infiltrado da pide e isso desencadeara uma caça ao homem sem precedentes. 

Mesmo sem sangue nas mãos, o Acácio foi identificado, discretamente vigiado e seguido. E apanhado. 

Julgamento no Plenário e prisão já não sei se em Caxias se em Peniche. 

Entretanto, um corajoso bastonário da Ordem dos Engenheiros conseguiu mobilizar a classe e lançar uma campanha pela libertação dos engenheiros presos políticos. A campanha teve êxito e ABL foi libertado juntamente com um elemento do PCP (Bianchi Teixeira?)

Depois do 25 A, o Acácio, sempre generoso entendeu ir ajudar Moçambique como cooperante. E por lá andou uns anos até se convencer que a FRELIMO tinha os cooperantes em muito pouca conta, sobretudo se eles se mostravam eficazes, competentes e... críticos, o costume.

Regressou a Portugal, sempre activo e entusiástico se bem que curado e ressacado pelos infortúnios revolucionários. Como era de uma competência a toda a prova, empregos nunca lhe faltaram. Alguns bem enganadores como aqueles em que, para além de um ordenado sem nada de especial se juntam prebendas que, uma vez terminado o contrato se esfumam sem deixar rasto. Ms o Acácio ria-se disso. Habituara-se a viver com pouco e com pouco se contentava. Dizia que a burrice de não perceber esses contratos era só dele e prova provada que nunca entenderia o capitalismo. Eu objectava-lhe que outros da mesma geração e passados semelhantes ao dele, estavam bem da vida ao que ele retorquia “e da consciência?”. E ria-se alto e bom som aquele amigo da vida, das pândegas com amigos, das longas conversas e da política inteligente. 

E fomo-nos encontrando frequentemente, comentando cada vez mais acidamente as “estrepolias” do processo revolucionário português que, mesmo depois da pungente derrota do PREC, teimava em remar contra acorrente e contra o bom senso, a razoabilidade, a Europa. 

Há uns anos, já reformado, foi adoecendo paulatinamente. Corpo gasto, mente sã mas desiludida. Morreu há uns meses,sigilosamente, como morreram tantos outros mesmo sem covid. Em tempos de pandemia a morte passou à clandestinidade, tornou-se um segredo que nem amigos conseguiam romper. 

Agora, um sobrinho, a quem pedi notícias, deu-me mais esta triste novidade. A que se juntou, ontem mesmo, outra morte, mais inesperada. Desta vez foi o Sérgio, conhecido relativamente recente, apreciador de bons vinhos e melhores petiscos. Não nos encontrávamos muito nem se pode dizer que fôssemos íntimos. Mas era um tipo amável, bom companheiro, sempre pronto a ajudar. Há meses que sofria uma fortíssima depressão a que, um mal nunca vem só, se juntaram de má fé, uma pneumonia violentíssima e uma bactéria dessas fulminantes. Tínhamos aprazado um almocinho à base de lampreia. Adiado no ano passado, novamente postergado este ano, nem por isso a ideia morrera inteiramente. Atrás de maus dias melhores virão. Não vieram. Isto de estar vivo é, de facto, uma lotaria ou, pior, um gracejo de mau gosto. 

Pelo menos disso o Sérgio e o Acácio já estão livres.