homem ao mar 53

Liberdade vigiada 32
Ora dizes tu, ora digo eu
mcr, 4 de Junho
O Tribunal de Contas veio há algumas semanas pôr preto no branco aquilo que, de há muito, se sabia: que nas PPP da saúde observadas e, até há pouco, existentes (Braga, amadora, Cascais e V ila Franca de Xira) o Estado poupara um pouco mais de 200 milhões de euros. A comparação era feita com hospitais públicos de gestão pública.
Nada que se não soubesse porquanto, antes, as contas já haviam sido publicitadas.
Pelos vistos, a gestão privada, porque era disso que se tratava, era mais eficaz.
Eu, felizmente, frequento pouco hospitais. Vi como funcionavam dois públicos a que, em tempos, recorri: foi há já muito tempo mas guardo uma impressão indelével e grata quer da urgência do Hospital de Santo António (Porto), quer do santa Cruz (Carnaxide). No primeiro vi a desenfreada correria de médicos, enfermeiros e outros quando, perto da meia noite, o meu pai atingido por um AVC vastíssimo lá chegou. O meu pai não sobreviveu mas a devoção, a presteza e os esforços daquela gente toda comoveram-me e provaram-me o que eu já sabia, ou seja de que o SNS, com todos os problemas que um sistema desta dimensão forçosamente tem, funciona razoavelmente.
No segundo, descobri que apesar de ser um hospital muito mais pequeno, as coisas funcionavam perfeitamente. Fui lá porque fiz um corte profundo numa mão e devo dizer que esta foi tratada e cozida em dois tempos e muito bem.
De resto, as minhas escassas aventuras hospitalares tem tido como palco a CUF Porto. Por um lado porque para fazer uma pequena operação ao pé, demoraria muitos meses no público. Depois, também tive de fazer um exame. Dado que era muita a ansiedade pelo resultado, impunha-se o privado porquanto no público a coisa demoraria, com sorte, eventualmente algumas semanas. Também é na CUF que tenho duas consultas anuais de diabetes e, neste ano iniciei um tratamento aos olhos que, por via da pandemia poderia ainda nem sequer começado. De Ora já vou no sexto mês de tratamento (mensal). A verdade é que com a ADSE, tenho a grande possibilidade de escolher quer o estabelecimento, quer o médico e, neste caso, degenerescência macular, todos os cuidados e precauções são poucos. Aliás, mesmo que tardiamente, só agora é que comecei a apreciar devidamente a ADSE. É um seguro eventualmente caro mas permite ao utente uma gama de possibilidades excelente.
Ora a que vem este longo arrazoado? Pois a um texto do sr dr. Louçã que, provavelmente, pensa que os leitores são ignorantes ou estúpidos. O dr. Louçã, levado por uma pouco saudável toleima ideológica que ele, aliás, manifesta exuberantemente em praticamente tudo o que escreve, resolveu sair à estacada nesta questão suscitada agora pelas conclusões do TC para misturar alhos com bugalhos. Não podendo questionar um facto indesmentível, a poupança de duzentos milhões de euros, recorre a um par de argumentos que, de resto, se resumem à chamada em caixa do artigo: ao selecionarem doentes ou afastarem aqueles cujo tratamento é mais caro, as empresas privadas melhoram os lucros. Só que não respeitam a igualdade de tratamento no SNS
Tudo isso para provar a fraude na eficiência das ppp (título já de si indiciador di que vai na alma deste eterno velho “jovem revolucionário”,
No texto ainda é afirmado que os privados querem glutonamente tomar conta da saúde, do sns, de tudo. Ora, como é sabido, as empresas privadas negam-se terminantemente a prosseguir com as ppp já indicadas. E isso desde que a primeira (Braga) se aproximou do seu termo. Não foi o Estado que quis o fim das ppp mesmo se alguns dos seus principais responsáveis sempre tenham mantido uma posição contrária. Foram os privados que vieram dizer claramente que, nas condições existentes, já não estavam interessados em prosseguir a experiência.
Os leitores notarão que isto significa que depois de cumprirem escrupulosamente um contrato, os privados entenderam que as condições para o renovar não estavam à altura das suas ambições. E digo isto, porque, no parecer do TC é claro e evidente o bom resultado daqueles acordos e a poupança (coisa que para Louçã, criatura desprendida dos valores materiais e do vil metal deve ser de somenos.) obtida.
São portanto os privados que se aliam objectivamente ao intimo desejo de Louça, no sentido de deixarem o Estado sozinho a debater-se com as finanças do SNS. Eles, os privados, pelos vistos querem prosseguir sozinhos a sua cruzada contra os doentes portugueses, pelo que só neste ano e meio de pandemia abriram dois novos hospitais e lançaram à construção de outros dois segundo confissão do réprobo dr. Óscar Gaspar, presidente da detestável Associação de Hospitais Privados, esse polvo sanguinário que mina a saúde dos portugueses e lhes suga o pouco dinheiro que ganham. Pelos vistos, segundo o evangelho de Louçã, profeta de um admirável mundo novo que tem ruído por todo o lado, ele, privados, comem a carne, deixando os ossos (tratamentos caros e doentes mais achacados) para o SNS
Mas nem só de “profetas desarmados” com tabuleta posta no Expresso, se alimenta o debate público português- Hoje meso, e noutro órgão do jornalismo de referência sobressaem dois textos. O primeiro deve-se a Francisco Teixeira da Mota (a carta de Pandora, Público p6) e o segundo, uma entrevista, tem por entrevistado o deputado (também eterno, desde 1983!!!) José Magalhães que, afirma dramaticamente ”devemos resistir ferozmente à tentativa de nos vestirem a pele do lobo” (Público pp 8 e 9)
Este vero dinossáurio da AR (deputado nas 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, 7ª, 8ª, 10ª, 11ª, e 12ª legislaturas, depois de ter sido de 1977 até 1983 assessor do grupo parlamentar do PCP.) cuja inteira vida de adulto se resume ao Parlamento e a uma pouco feliz passagem pelo Governo, é pelos vistos o autor da extraordinária “Carta dos Direitos Fundamentais na Era Digital”, título pomposo, à medida da personagem, cujo nº 2 do artº 6º estabelece que passa a ser considerada desinformação “toda a narrativa comprovadamente falsa ou enganadora criada, apresentada e divulgada para obter vantagens económicas ou para enganar deliberadamente o público, que seja susceptível de causar um prejuízo publico, nomeadamente ameaça aos processos políticos democráticos, aos processos de elaboração de políticas públicas e a bens públicos”
Eu não sei se a Polónia ou a Hungria dois faróis da adolescência dos actual deputado socialista, tem artigos deste género na sua lista de leis pret a porter e que tem tido o suave efeito de esmagar no ovo toda e qualquer tentativa de democratizar aqueles regimes que lembram , em caricatura mansa outros nõ demasiadamente longínquos em que estes dois países viveram.
Este enunciado dá para tudo e permite à ERC, órgão, mais do que partidarizado e governamentalizado, apreciar queixas e e sancionar órgãos de comunicação social que se metam por estes ínvios caminhos da desinformação ou, pelos vistos, da simples opinião.
O Estado Novo de saudosa memória nunca se lembrou disto, provavelmente porque não havia internet, redes sociais e o analfabetismo campeava. Mas que isto, assim escarrapachado, lhe serviria ai não restam dúvidas. Os eventuais saudosistas desse tempo opaco que toda a gente presume ver no senhor Ventura e associados, se porventura chegassem a mandar não precisariam de mais nada para encaixotar os perversos escribas que de algum modo se lhes opusessem.
Esta ideia de tutelar a opinião pública, os meios de comunicação e as consciências pecadoras do “bom povo português” tem um ressaibo orweliano ou “huxleyano” 8quem se lembra do admirável Aldous Huxley?) que só não ocorre a quem se sente pastor de almas e detentor da verdade eterna. E única. O deputado Magalhães já se tinha retirado da AR e reformado. Não resistiu ao remanso dos dias e voltou. Como dizia alguém a história repete-se “primeiro como tragédia, depois como farsa”
Magalhães não é exactamente o “grande educador do povo”, titulo arrebanhado por outro contemporâneo mais velho e mais possuído pela ideologia, mas os seus anos de aprendizagem política deixaram-lhe uma indelével marca de “engenheiro de almas”, de mestre escola zeloso quiçá zelota. Esta lei de que é presumido pai ameaça-nos a todos os que não queremos vestir a pele do lobo mas tão pouco a de cordeiro.
