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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 55

d'oliveira, 06.06.21

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Liberdade vigiada 34

Crise? Onde? Qual?

mcr, 6 de Junho

 

 

Um promotor imobiliário esta a construir um prédio com quase 90 habitações. A localização é francamente interessante, mesmo se não é em frente ao mar. Este promotor goza da fama de fazer bem as coisas. Bem mas caro. Caro mas bem.

O prédio estará pronto dentro de três anos. Faltam apenas 15 apartamentos para venda!

 

Ou, por outras palavras mais de setenta investidores (ou futuros moradores) entregaram sinais (ou pagaram por inteiro) dezenas de milhares de euros (no caso dos “sinais”) mais do que razoáveis para garantir algo que só estará pronto lá para 2024. É obra! É confiança!

Ou falta de confiança em outro género de aplicações de capital. Pelos vistos, estes setenta interessados não são excepção, é o que afirma o vendedor. Ainda lhe retorqui que tinha mais de uma dezena de apartamentos para venda. A resposta foi contundente. Provavelmente já os não terei no fim da próxima semana. Alguém quer todas as habitações disponíveis (em ptojecto, no papel...) todas!  Coisa para uns milhões de euros. O vendedor esfrega as mãos mas afirma que, de há meses a esta parte, tem sido assim. Para ele e para outros colegas com carteiras de obras a começar. A procura é geral. Ou melhor, a procura é de quem tem dinheiro e não o quer em bancos.

Em épocas de crise, diz-me o simpático vendedor “as pessoas querem pedra, ouro, eventualmente prata. Mas preferem a pedra.

De facto, até eu que nada percebo, nem quero!, de investimentos, verifico que no banco não ganho nada.

Felizmente, não tenho dinheiro disponível em quantidade para me afligir. Nem creio que o venha a ter a menos que o totoloto entenda dar um ar da sua graça.

E ponho-me a pensar no que faria se, subitamente, me entrasse na algibeira um pancadão de euros. O sábio e atilado vendedor também me sussurrou (isto de falar em cacaus de grande impacto, impõe algum cuidado) “nada de sinais exteriores de riqueza!”. Assenti com veemência sem murmurar sequer um ai mas pensei que sinais me interessariam e, ahimé!, nada me veio à cabecinha. Ou melhor, veio a ideia de uma casa com um grande espaço para uma biblioteca que isto de andar de sala eme sala, de corredor em corredor, de quarto em quarto a meter livros onde já não cabem sequer fascículos, é terrível. E esgotante.

Tirando isso, ou seja, um casarão pronto a habitar com espaço para umas centenas de metros lineares de estantes, nada me veio à cabeça. Nem carros de alta cilindrada, nem iate, nem cavalos de corrida muito menos joias. Mesmo que quisesse poucas coisas há que eventualmente quereria, exceptuando livros. Já não quero uma casa de campo ou de praia, prefiro um hotel decente para não ter que andar com o coração aos saltos por via de roubos e outras chatices, entre elas o fisco ou pior a trabalheira de preencher não sei quantos papéis para que o Ministério das finanças não me atormente.

Ainda tenho o que chegue para dar uma volta, ou duas, por terras da estranha sempre as mesmas e na Europa. Nisso de conhecer mundo já desisti da Nova Zelandia, da Austrália e provavelmente da América do Norte que apesar de tudo está mais à mão. Em cinco horas está uma criatura em Nova Iorque e assentando aí arraiais também pode ir até onde a fantasia o exija. Eu gostaria de ir a Nova Orleans pelo jazz a São Francisco pela beat generation e algum perdido lugar do oeste mais mítico pelas minhas leituras de infância e pelos westerns de que fui grande e esforçado consumidor. Nada disto exige uma grande fortuna mas apenas tempo e paciência e o cacau necessário, como é bom de ver...

Mas, deixemo-nos de viagens sonhadas, e voltemos a esta portuguesíssima realidade. A crise existe, obviamente. O desemprego está onde está. O emprego, o pequeno emprego não garante uma vida decente a centenas de milhares de pessoas. O turismo é uma lotaria e o resto, investimento produtivo, empresas competitivas e saudáveis, uma utopia que, ainda por cima, tem contra ela toda essa pobre multidão eivada de ideologia, carregada de Estado omnipresente, de doutoramentos em sociologia, antropologia e anexos, que pede em alta grita o dinheiro que aí vem para a funçanata pública, para mais funçanata, mais Estado como se fosse isso que eliminaria duradouramente o atraso crescente da pátria lusa face aos seus colegas da UE. Alguém reparou que em 15/20 anos passamos do meio da tabela para os últimos lugares?

É por essas e por outras que o meu feliz amigo vende casas como quem vende pãezinhos de leite. E quando faltarem os clientes nacionais há sempre a hipóteses de interessar estrangeiros. O dinheiro deles não tem cheiro ou então somos nós que não temos olfacto.

E o meu amigo, piedosamente, remata : está a ver aquela casa ali em frente ao mar. Por seis milhões é uma pechincha! E dá para pôr lá todos os livros que tem e os que comprar nos próximos anos...

Esmagado, só penso “se lá chegar, se lá chegar” E com esse piedoso desprendimento nem me lembro que para os seis milhões me faltam cinco, vírgula novecentos e noventa mil, uma miséria...     

* a vinheta: não faço ideia onde ´é mas carreguei na internet para prédios de luxo e o primeiro que saiu foi este. Dá para pôr uma marquise...

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