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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

homem ao mar 58

d'oliveira, 09.06.21

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Liberdade vigiada, 37

Nomeações

mcr, 9 de Junho

 

o país não vive sem polémicas de segunda (ou terceira) classe. Desta feita é a nomeação do dr. Pedro Adão e Silva para a comissão executiva das comemorações do cinquentenário do 25 de Abril.

Eu desconheço as competências específicas do indigitado para o cargo mesmo se, já por várias vezes, me tenha cruzado com ele via televisão. Nesse capítulo sempre o vi defender a sua dama (o PS) com vigor. Daí não vem mal ao mundo. Ele está naquele painel para isso mesmo, ao lado de uma senhora vagamente da extrema esquerda e de um ex-dirigente do PSD. Também fiquei a saber que PAS foi alto dirigente do PS, de que será militante, e que vai ganhar 4500 euros durante os anos da festividade (4 anos).

Nada disto me apoquenta especialmente pois seria extraordinário ver nomear alguém politicamente neutral ou, mais ainda, um militante da oposição de direita e do centro direita. Creio até que PSA está ali para mostrar ao resto da Geringonça alguém diferente de Eanes que, de todo em todo, não colhe simpatias do PC do BE e costumeiros aliados. Eanes (que fez Abril) é o homem do 25 de Novembro e isso, há quem não esqueça. Por mim, está lá muito bem, acho-o uma pessoa estimável, por quem votei uma única vez (o 2º mandato) pois percebi que tinha feito uma boa Presidência da República. (e que eu dera o meu voto a um candidato que o não merecia)

Não apoiei aquela “coisa em forma de assim” (Olá Alexandre O’ Neil) que foi o partido reformador democrático que não passava de algo vagamente sul americano e anti partidos. Morreu de morte macaca poucos anos depois de ter nascido com estrondo e quase ter defenestrado o PS. No seu pouco notável currículo está uma moção de desconfiança contra um governo minoritário de Cavaco Silva. O PS embandeirou em arco e apoiou essa tola aventura. Cavaco Silva agradeceu e ganhou assim duas maiorias absolutas seguidas.

O PRD foi desaparecendo com singular rapidez e no fim da sua canhestra aventura foi apropriado por um grupúsculo de Direita.

De todo o modo, Eanes, saiu ileso dessa tourada à antiga portuguesa, mesmo se a esposa amantíssima tivesse percorrido o país a angariar votos para o PRD. Deviam estar politicamente casados com separação absoluta de bens...

Eanes, aos olhos da rapaziada vencida (mas não convencida) em Novembro focou sempre  com fama de Direita, mesmo se a Direita lhe jurasse pela pele e o criticasse a torto e a direito. Um caricaturista fez até um livro chamado Eanito e fartou-se de publicar a sua austera figura com um traço horrendo mas reconhecível. Também já está do outro lado do rio e não serei eu que dê as moedas para o cão que guarda a passagem.

Com o passar dos anos, Eanes adquiriu uma certa monumentalidade que usou com discrição e bom senso. Fala pouco, aparece pouco com excepção da AR no dia 25 de Abril onde é indefectível. Sem cravo mas solene. A lembrar aos seus antigos oponentes que ainda está vivo.

Agora vai cumprir a sua última missão mesmo se as tarefas realmente importantes das comemorações lhe escapem.

O dr. Rui Rio, uma espécie de contabilista ao serviço da política, indignou-se com o ordenado atribuído ao sr Adão e Silva (quatro milhardas e meia ao mês!) e depois lembrou os “fretes” que este, pelos vistos socialista de longa data, terá feito ao Governo. Eu, que de contabilidade não pesco uma linha, apenas invejo benignamente o cacau que vai para a criatura e espero para ver o que dali sairá.

Para mim, o aniversário redondo da revolução comemorar-se-ia sem grande banzé. Com obra boa e duradoura sem desfiles nem gritaria. Bastar-me-ia que no tempo que falta Portugal subisse um pouco na tabela europeia onde anda pelos últimos lugares. Nem sequer me atrevo, muito futebolisticamente, a sonhar com ganhar o campeonato. Basta-me, metaforicamente, chegar aos quartos de final. Ou até só aos oitavos.

Indignar-me com um ordenado só se o beneficiado não valer para a tarefa e nada ou pouco produzir. Populismo deste tipo será bom para a pequenez de Rio mas não me seduz. Atirar com o emblema partidário à cara é, ao fim e ao cabo, vir dizer que qualquer criatura com alguma actividade política não deve ser escolhida para quase tudo. Vir gritar que, neste caso, o escolhido deve ser como a água destilada, sem cheiro, cor ou sabor, é uma palermice    inconsequente. Deixemos, pois, esta guerra do alecrim e da manjerona.

Hoje, (lembro que, como diabético, tenho uma pequena dieta a respeitar que me proíbe alguns mimos de boca) comi um croissant ao pequeno almoço. Eu adoro croissants. Dos verdadeiros, à francesa, folhados como Deus manda e não aquelas coisa maçudas que em alguns lugares servem com o mesmo nome. O croissant há de ser leve, estaladiço, bem acabadinho com manteiga. À francesa, pois claro.

Antes que algum sábio me venha com a estafada história dos croissants serem coisa de turcos, abandonados no fim do cerco de Viena (esta história desse cerco é muito mal contada. Também se diz que os mesmíssimos temíveis otomanos abandonaram grãos de café e por isso a europa civilizada passou a bebê-lo. Com sorte ainda se dirá que os turcos na debandada deixaram mais três ou quatro amoráveis comidas), eu direi que, para mim, os croissants são franceses. Foram estes os que impuseram a moda e o resto são cantigas. Ainda me lembro da descoberta do croissant na minha primeira vez parisiense (quero dizer a minha primeira viagem a Paris, nada mais, que outras e mais concupiscentes coisas eram, na terra de Madame Claude, a preço insuportável para o lusíada sem cheta que tinha o dinheiro certo para a cantina universitária ali para o “Boul Mich”, e bonda!)

Durante anos a fio, suspirava por croissants mas ainda não os faziam cá. Logo que apareceram, dos franceses, bem entendido, o meu pequeno almoço ganhou em dignidade e quantidade: um croissant com manteiga e fiambre, um pãozinho com queijo, um sumo de laranja e um copo grande de leite frio. O café, pelo menos o da manhã, o primeiro, o melhor de todos, o que convidava ao primeiro cigarro, era no café, uma bica bem tirada, em chávena fria que eu sou muito escaldadiço. Eu tenho por mim, que o hábito de me levantar cedo é por causa do tabaco. Só fumava o primeiro e maravilhoso cigarro, depois do primeiro e não menos maravilhoso café. E com o jornal já comprado...

Agora o tabaco é apenas uma recordação mas o resto do ritual mantém-se.  

A França tem uma cozinha opulenta. Talvez não chegue à Itália mas há coisas que só eles, os franciús, sabem fazer. O pão por exemplo. A baguete para ser mais concreto. Por aí vendem umas coisas a que chamam baguete mas que são detestáveis sem génio, sem chama, sem o estaladiço. Um desastre!

E os patés! Ai os patés, Deus do céu, santos protectores da gulodice que, por força há de haver! E tudo o que é da família dos mesmos, rilletes incluídas. Durante alguns anos, quando ia a Lisboa, convidava amigos e amigas para num restaurantinho francês modesto, aviar um almoço de paté, salada e a acabar numa tábua de queijos. E vinho a preceito que a água é só para tirar a sede.  O raio do restaurante (La Parisienne) fechou ou emigrou para parte incerta. Agora, chucho no dedo como se dizia no tempo em que eu era novo e comilão e a escola risonha e franca. Nem eu nem a escola melhorámos com o tempo, bem pelo contrário.

Aqui para nós, muito à puridade, nem me aborreço muito. Vivi algumas aventuras, numa época obscura, pesada mas exaltante, assisti (e dei um pequeníssimo contributo para ela) a uma revolução, felizmente incruenta, vi-me mais perto da Europa e tive as desilusões que se esperavam que isto de revoluções, mesmo sem sangue, comem os seus filhos.

Agora assisto ao espectáculo pouco edificante dos sentados à mesa do Orçamento e indigno-me mansamente. A funçanata tem umas dezenas de anos, uma pessoa habitua-se. Passo de largo, sempre passei por fora, nada de tangentes muito menos de secantes. Com cautela, que desse pão prefiro não comer.

Para quem tenha a paixão e o gosto pela História, isto, a turba multa a afiar a dentuça, não é novidade. Mais, essas criaturas que se agitam, que uivam para a lua, que ameaçam, que dogmatizam passam depressa e desaparecem em pouco tempo. A História enterra-as sob uma espessa camada de lodo e esquecimento. E se, porventura, lhes dedicam ruas, praças ou avenidas, daqui a uns anos o curioso olha para a placa e pergunta-se sem qualquer angústia “quem será este ínclito varão?” E continua o seu caminho talvez a assobiar e dar pontapés nas pedrinhas do chão. 

*a vinheta esta é uma pequena e muito antiga rua no IVeme arrondissement e o nome dever-se-ia à bandidagem que assolava a zona. Provavelmente o nome vem dos talhantes (garçons bouchers) pois havia muitos na zona. De todo o modo é um nome que escpou à censura toponímica que assolou Paris. Não muito longe daqui, no mesmo bairro, fica a antiga rua Pute et Muse que agora é du petit musc!!!  Arre!

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