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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Homem ao mar 59

d'oliveira, 10.06.21

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Liberdade vigiada 38

Dia de quem?

mcr, 10 de Junho

 

A “Velha Senhora”, nome que eu e a Maria Manuel dávamos à avó Aldina, faria 123 anos se fosse viva. Por ela até faria mais mas aos noventa e sete o corpo cedeu. A avó pedia sempre mais uns anos para conhecer os bisnetos e no fim, acho que ainda soube do primeiro trineto mas já não foi a tempo. Era uma mulher risonha, bem disposta que durante umas dezenas de anos foi gorda. E lambareira. Correu mundo, melhor dizendo correu África com o avô Manuel oficial do Exército colonial. Os filhos nasceram-lhe nos quatro cantos do Império, ou melhor entre Angola e os seus  vários cantos e a ilha do Príncipe, penúltimo destacamento do avô.

Era uma mulher corajosa, vinha de gente aventureira, o avô dela fez parte das vagas de portugueses do Brasil que, não querendo fazer lá uma guerra que não lhes dizia respeito começaram a ser maltratados pelas autoridades e pelos locais. Não por nacionalismo no caso destes últimos mas apenas porque boa parte da colónia portuguesa estava bem na vida pois era gente que fugira da miséria em Portugal e por isso em vendo uma oportunidade agarravam-se a ela com tenacidade. E venciam na vida, claro. Ora, esta gente, por razões não especialmente óbvias, nunca quis perder a nacionalidade portuguesa e, quando se sentiram maltratados recorreram ao Marquês de Sá da Bandeira, ministro da Marinha e do Ultramar e conseguiram navios que os trouxessem e às famílias, escravos e bens, para um sítio onde não os incomodassem. Foi assim que o sul de Angola começou a ser povoado por colonos a que depois se juntariam os madeirenses (os “xicoronhos” (?)) e mais tarde algumas dezenas de boers que também não estavam para aturar a crescente autoridade inglesa na África do Sul.

A avó contava a este respeito que, uma coluna de boers alcançou a região onde o meu trisavô tinha uma belíssima fazenda. O velho senhor, recebeu-os afavelmente, alojou-os, alimentou-os depois da duríssima viagem, e, foi perguntando se, por acaso, haveria homens solteiros na pequena caravana. Havia, de facto pelo que o trisavô lá terá explicado que tinha umas parentes “encalhadas” que precisavam de marido. Foi assim que a família se enriqueceu com uns parentes van der Keller (ou Koeller). Um deles casou com a tia Hirondina a quem sempre chamou Hirrondina. Aquele meio holandês não conseguia dizer os R suaves...

Neste dia eu apressava-me a mandar-lhe uma carta que a Velha Senhora, reparava muito nessas atenções. E eu, por azar, era o neto mais velho. Na volta do correio respondia numa longa carta em letra miúda. Era uma viciada em correspondência, dia em que não escrevesse uma dúzia de cartas nem era dia digno de ser considerado. Tinha uma lista de correspondentes maior do que a légua da Póvoae conseguia que boa parte deles lá mandasse de quando em quando meia dúzia de linhas o que lhe provocava nova carta rapidamente.

Este era o meu dia de Camões. Agora o dia é de uma série de coisas incluindo de Portugal e das comunidades portuguesas. Eu nunca perceberei esta diferença. Das duas uma: ou s tais celebradas comunidades se sentem Portugal ou não. Se sim, basta o dia de Portugal tout court. Se não que passem muito bem e não se fala mais nisso.

Esta ideia do dia ser múltiplo faz parte das burrices que a democracia mal aprendida e ainda menos sentida, inventou para retirar a carga ideológica. Pelos vistos, a sombra de Camões foi tida como pertencendo ao dr. Salazar. Estes cavalheiros muito cheios da sua ideia de progressismo esqueceram-se (ou nunca souberam) que já no tempo da Monarquia, os republicanos se apropriaram da imagem de Camões para esgatanhar na tromba pouco sofrida do regime de então.

O enorme poeta (e nem sequer chamo “Os Lusíadas” à colação) deveria ser celebrado pelo que é: um magnifico escritor cujas canções e sonetos ainda hoje suscitam estudos críticos, apreciações, reparos inteligentes e muitas edições.

Camões sozinho já dava para dois dias quanto mais para um. Não precisa que o seu dia seja repartido por outros graves princípios. Camões é uma das melhores e mais duradouras imagens deste povo, do país. Claro que, no tempo da outra senhora, falava-se a propósito no dia da raça. Eu para raças não dou nem nunca dei. A minha gente dividiu-se pelo mundo, como já deixei dito, o meu pai nasceu no Rio de Janeiro, tenho um triavô alemão que depois foi para o Brasil. A parentela ainda anda por aí, incluindo várias ex-colónias, uma sobrinha está na Inglaterra para ficar e nada disso me impressiona especialmente. Somos do mundo e somos portugas até ao sabugo.  Por mim, sou de Buarcos como aquela companha de pescadores que em alto mar chegou à fala com D Carlos. Este ter-lhes-á perguntado se eram portugueses. A resposta foi simples “Nós cá somos da Póvoa!” A mim se me perguntarem também direi que sou de Buarcos e depois português e do mundo. Buarcos é a minha pátria “chica”  como dizem os espanhóis.

Portanto, dia de Camões, dia de poesia, dia de aventura, dia de fraca sorte, de amor ardente. Deixem as comunidades em paz. Com a forte tendência dos portugas se disseminarem por qualquer canto que os receba sem animosidade, os filhos ou os netos dessa brava gente serão franceses, americanos, alemães ou ingleses Ou suíços e luxemburgueses.

No Luxemburgo a colónia portuguesa já passou a barreira dos 10% acaso a dos 20. Pelos vistos sentem-se bem e os luxemburgueses não se sentem invadidos.

É por isso que recebo bem qualquer imigrante que venha para aqui trabalhar a sério, ganhar a vida a sério e obedecer às leis e costumes de cá. E já são umas centenas de milhares ao que sei. Recebo-os como quero que a sobrinha Margarida seja recebida em Sheffield onde se sente bem, ou os primos que andam pela Holanda, pela Alemanha, pelos Estados Unidos e por Angola.

O resto, essa panóplia de fins adstritos ao dia do poeta, as discursatas, o sr. Presidente em visita, deixam-me indiferente. Com o tempo bom, é altura de ir à praia, dar o primeiro mergulho nas águas frias e depois ir comer as primeiras sardinhas, peixe português por excelência, do povo, do povo que este ano vê os arraiais por um canudo. E com razão que aquilo lá por Lisboa ou por Braga “a idolátrica”, não parece estar bem.

Que os santos populares vos tragam, em vez de amores, saúde é que vos desejo e a todos os leitores que me aturam. Com sorte, o S. Martinho já dará para ir ao vinho novo e às castanhas e o Natal será outra vez ”o Natal”     

Até lá cautelas muitas e caldos de galinha!

* na vinheta: a praia de Buarcos, claro!