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Incursões

Instância de Retemperação.

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homem ao mar 64

d'oliveira, 17.06.21

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Liberdade vigiada 43

Dias cinzentos...

mcr, 17 de Junho

 

Falta uma semana para o S. João mas as orvalhadas já se anunciaram. Aliás, o que se apareceu foi a chuva. Uma chuva burra, leve que parece desafiar o Verão que ainda há dois dias parecia ter entrado de vez. Pelos vistos ainda não foi desta.

Este ano, de qualquer forma, o S João foi de férias para parte incerta pelo que a chuva mesmo cumprindo a sua tarefa de chatear o transeunte não causa especial transtorno.

Todavia, com ela vieram dias cinzentos, pesados que também não animam ninguém.

Encontro um vago conhecimento feiro na Alemanha, em Murnau, durante um par de meses sabáticos que dediquei ao estudo do alemão no Goethe Institut local.

Murnau é uma bonita cidadezinha do tamanho de meio bairro portuense ou lisboeta. Ou ainda mais pequena. De todo o modo tem uma situação extraordinária. Na margem de um lago, o Stafelsee, junto de montanhas onde se esquia (Murnau não será Garmish-Partenkirchen ou Oberamergau mas é uma agradável zona de veraneio e também de turismo invernal). Terá cerca de 10.000 habitantes, metade na zona urbana e a rapaziada do Goethe era (será ainda?) bem recebida e dava cor e movimento no centro da cidade.

Ora, esse conhecido, aportou a Murnau já eu lá estava e coincidimos com a famosa vitória do Porto sobre o Bayern de Munique numa final da Champions disputada em Viena. O desmiolado português a que me refiro, resolveu apostar em nome dele (e meu!) que o Porto ganharia. Claro que toda a gente apostou pois era impensável derrotar o Bayern em terras germânicas. Bem sei que o Anschluss hitleriano era já passado masque diabo. Viena fica perto, toda a gente fala alemão e o clube tinha simpatias dos dois lados da fronteira.

Quando soube da extraordinária gabarolice do meu compatriota que, ainda por cima era benfiquista refugiei-me em casa e nem sequer abri a televisão. Foi outro dos estudantes do Goethe, desta feita, um islandês quem me veio avisar da vitória inesperada. Com ele vinham dois amáveis japoneses que sempre que me viam se desbarretavam e faziam um sem número de vénias enquanto me chamavam Marcero San (O segundo r substituí o l que eles não conseguiam pronunciar e o san indicava que, já nessa altura, quase há quarenta anos, eu era “o mais velho”.

Lá saímos para umas cervejas propiciatórias e celebrativas. Ainda não tínhamos chegado ao bar preferido dos estudantes de alemão quando vejo uma turba multa de gente nova e goeetheana enlouquecida pelo álcool. Comandava-os o portuga descarado apropriadamente vestido camisa esverdungada e calças dum velho a cair para o cor de rosa sujo, de bandeira em punho e a dar os slogans. Nunca ouvi tanto palavrão português junto. E olhem que sou de Buarcos! A restante comandita berrava os c... os f... os m... os pqp...,  num germano-português com influencias linguísticas várias. O que lhes faltava em pronúncia sobrava-lhes em entusiasmo. No meio daquela tropa fandanga estavam dois árabes e um turco que terão nesse dia sido baptizados goela abaixo com schnaps de má qualidade e cerveja local, essa sim boa, há que dizê-lo.

Um eepectáculo inolvidável. A alemoagem acordada pela gritaria vinha Às janelas e, espanto!, aplaudia. Eu envergonhadíssimo.

Vergonha que aliás continuou no dia seguinte quando o director do Goethe veio à nossa aula congratular-me pelo vitória do F C. Porto (tal e qual!). A mim que, por junto e atacado, sou um adepto não praticante da Naval 1º de Maio da Figueira da Foz!

Tudo isto, este rosário de descoroçoadas recordações veio ao de cima porquanto, no encontro com o agora já semi-idoso benfiquista atrevido, recordámos duas inteiras semanas de fins de Maio e princípios Junho em que o sol não compareceu. Duas semanas! Duas!, diabos me levem. A malta do sul, espanhóis, italianos franceses e um israelita andava mais macambúzia que uma fiada de ostras prontas a servir.

Cá, por dois dias sem sol, a CG geme, diz mal da vida, ameaça emigrar, culpa o Governo, a Câmara e até a Junta de freguesia (fora o que sobra para mim!...) e critica as gatas por dormirem todo  o dia.

E eu, confesso-o, também sinto o peso do dia feio sobretudo porque a falta de luz acarreta um esforço suplementar para ler o jornal na esplanada.

E sem vontade de pegar no computador e aviar o folhetim diário tarefa que me impus no primeiro dia da pandemia como disciplina para passar o tempo.

Claro que o que sai é isto, esta crónica mal parida que gostaria de dedicar à leitora Mónica S que me pediu as coordenadas do blog e prometeu ler.  Não estou no meu melhor (que já de si é fraquinho) mas a culpa é do tempo. E obrigado por me aturar os constantes pedidos de explicação sobre as funções do computador. Cliente mais chato e ignorante V. não tem. Que seja para reparação dos seus pecados que o que faz é obra de grande misericórdia!  

 

* na vinheta: Murnau am Stafelsee, claro!