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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 66

d'oliveira, 19.06.21

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Liberdade vigiada 46

É a responsabilidade política, estúpido!

mcr, 19 de Junho

 

confesso que durante muito tempo olhei com simpatia o sr. dr. Medina, actual Presidente da Câmara de Lisboa. Parecia-me um razoável candidato a sucessor de dr. Costa, criatura que celebrou 10.000 dias de vida política!

(Dez mil dias são mais de vinte e cinco anos ininterruptos!Arre!)

Claro que havia uma coisa que me parecia bizarra: um político no activo, mais um, nas televisões a fingir de comentador. Todavia, isso, já é pecha velha na política nacional pelo que já nem estranheza me causava.

Ontem, o dr. Medina entendeu gastar hora e meia do seu mais que precioso tempo para explicar algo que, por muito que se queira não tem explicação: a contínua, reiterada e indecente violação da lei de protecção de dados, com a consequente entrega de nomes de pessoas a embaixadas eventualmente ameaçadoras para com os cidadãos nacionais que contra o regime que elas representam se manifestavam.

A primeira conclusão a retirar de pelo menos 72 violações da lei comprovadas é que mesmo o extinto Governo civil de Lisboa, na pessoa de um tal António Galamba também fez uma perninha na denúncia. O referido Galamba negou mas Medina (e os documentos) desmentem-no sem apelo nem agravo)

Depois, Medina entregou-se a um exercício de há muito conhecido: a desculpabilização!

Ou seja, referiu um despacho de António Costa, seu antecessor no cargo que claramente proibia a entrega de nomes. Entretanto, essa reiterada delação continuou desenfreada, por mero efeito do aparelho burocrático camarário!

O inocente presidente da Câmara, os angélicos vereadores, a ranchada de assessores políticos todos ignoravam o que se passava.

É obra!

Ninguém, mas mesmo ninguém, se deu ao trabalho de verificar se o despacho de Costa era cumprido. Ninguém se lembrou da hipótese, mera hipótese, de haver algum grão de areia na engrenagem! Arre que estamos no reino da inocência catatónica, da desculpa pelintra, da fuga grotesca à responsabilidade.

Pelos vistos, uma direcção política da Câmara ignora(va) o que nas caves dos Paços do Concelho se cozinhava!

Provavelmente, ignoram-se ainda muito mais coisas, algumas eventualmente daninhas, outra mera e má burocracia.

Todavia, o dr. Medina que me desculpe: a ignorância do que se passava debaixo do seu delicado nariz, afectado, pelos vistos, pela incapacidade de percepção dos maus, fétidos, odores que nas obscuras salas de obscuras repartições, se cozinhava.

A CML funcionaria assim, pelo menos em alguns sectores, e não os menos importantes, em roda livre, à rédea solta, sem que os funcionários fossem controlados por chefias de secção, de divisão, de repartição de serviço seja do que for!!!

Dirigi durante quase vinte anos entidades públicas, com autonomia administrativa e/ou financeira. Boa parte do meu trabalho era justamente saber se a máquina funcionava, se não havia, mau serviço, se os utentes não eram prejudicados.

Numa única inspecção feita a um antecessor, cujos resultados, só apareceram já durante o meu mandato, verificou-se que de mais de cinquenta mil (50.000) documentos de despesa havia dois não justificados. Faltavam, saiba-se dois bilhetes de eléctico relativos à década de sessenta! Eram bilhetes de 70 centavos e um escudo! Tanto bastou para que o meu antecessor, pessoa politicamente próxima do antigo regime (anterior a Abril de 1974) visse o seu mandato de longos anos manchado por uma nota abaixo de muito bom!

Reclamei, mesmo sendo  adversário político do pobre senhor. Esses bilhetes de eléctico eram em papel fininho, pequenos, facilmente perdíveis no meio da confusão de folhas, folhinhas, papéis, agrafados ou soltos. Durou bastante tempo o processo mas finalmente alguém reconheceu que aquela perda de dois ridículos, mesquinhos, documentos de despesa que já na época pouco ou nada ignificavam: por junto, ambos valia o preço de um café!

O inspector que concluiu  o relatório sobre o recurso por mim apresentado espantava-se por ser eu, um declarado adversário político do dirigente criticado,a tomar as dores dele. Expliquei-lhe que tomava as dores da instituição, e por isso dos meus antecessores se, porventura, eles tivessem razão. E que um extravio de dois bilhetes de eléctrico deveriam, no pior dos casos, ser imputados ao sistema de arquivamento, às condições em que os documentos eram guardados, à eventual negligência de um pequeno funcionário, enfim a tudo menos ao homem que comandava um exército de seiscentas e trinta pessoas e movimentava uma instituição com um orçamento que ultrapassava (na época) algumas centenas de milhares de contos!

Mais: que combatia os meus adversários políticos mas recusava a chicana miserável que aquela inspecção por muito criteriosa que fosse, por muito fundamentada que se demonstrasse, poderia evidenciar.

Ganhei o respeito dos meus subordinados, a gratidão de um pobre homem que demorou anos a ser readmitido como assessor do mesmo ministério, e o respeito da Inspecção Geral e dos Directores Gerais com quem, depois, trabalhei anos a fio.

Eu não sabia na altura mas era a responsabilidade política que me conduzia numa luta sem relevância para mim mas pela dignidade de outros, anteriores ou posteriores dirigentes de instituições análogas.

E era isso, a responsabilidade política, que eu esperava do dr. Medina!

Quero crer que ele seria incapaz de permitir a delação, que seria violentamente contra a entrega de dados pessoais, fossem eles de quem fossem, e dirigidos a quem quer que seja, Incluindo ao MAI e à PSP!

Mas foi a Câmara dele, dirigida por ele, a Câmara a se vai recandidatar a meter o pé na argola. É ele o máximo responsável, soubesse ou não o que se passava nos recantos mais sombrios daquele casarão. Vir dizer que vai exonerar um qualquer obscuro funcionário é grave, é indefensável. Por junto poderá mandar abrir um inquérito com vista a um processo disciplinar. A menos que o “alegado infractor” seja um funcionário político por ele livremente nomeado. Se é esse o caso, poderá sempre perguntar-se qual o critério que levou a escolher essa criatura para algo tão delicado, tão relevante quanto a gestão e defesa de dados pessoais.

Eu sei que um pedido de demissão a quatro meses das eleições é algo de incongruente como o dr. Medina afirma. É, claro que é. Mas é o único gesto digno a tomar, tudo o resto é baixa política, fuga às responsabilidades, desculpas de mau pagador. A Câmara errou? O Presidente paga. É para isso que o elegeram. É isso que se espera. O gesto é inútil? Não de todo: é honrado e digno. E, aqui para nós, seria uma arma poderosíssima no sentido de garantir a reeleição.

As pessoas andam tão desconsoladas com os políticos que uma qualquer manifestação de inteireza moral, ética e política seria saudada.

Medina não percebeu isto. É pena! Muita pena! Não voto em Lisboa mas se votasse já não teria o meu voto.

 

A tempo mas por outro assunto: A região de Lisboa, dois inteiros distritos, está com um cerco sanitário. Pode ser inconstitucional mesmo se há o art.º 20 da lei da protecção civil que expressamente refere esta hipótese.

Não fazer nada, como eventualmente pedirão alguns mais indignados é seguramente desproteger, ainda mais, os restantes portugueses que, pelos vistos, sabem proteger-se melhor, cumprir mais as regras de distanciamento. É que Lisboa e respectiva região asseguram quase 70% dos casos novos de infecção.

Ou será que se prefere a velha tese  “Morra Sansão e quantos aqui estão!?

Acharão os opositores da medida que é preferível deixar correr o vírus pelo resto do país? Exacerbar uma hipotética 4ª vaga?

Ainda por cima o cerco sanitário tem uma duração de um fim de semana. Com chuva prevista! Que diabo, nisto, estou com o dr. Costa!

E aproveito para tentar mandar um recado ao Sr. Presidente: neste momento deveríamos estar todos focados na saúde pública e nos meios de a defender. É que  há gente a morrer, há gente internada, há gente a sofrer e não é o futebol que vai ressuscitar uns ou melhorar a saúde dos outros.

O futebol é absolutamente secundário, Sr. Presidente. Como o populismo de que muitos, e V.ª Ex.ª também, se socorrem.        

  

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