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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 72

d'oliveira, 26.06.21

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Liberdade vigiada 52

“ferro, ferro, ferro, tudo é lata”

mcr, 26 de Julho

 

Os leitores presumivelmente desconhecerão esta mnemónica usada, em tempos que já lá vão, pelos estudantes que se defrontavam com o latim. Não era a única mas é a que vai servir para o folhetim de hoje.

De facto isto servia para relembrar um verbo irregular fero, fers ferre tuli latum que significa trazer. Os verbos latinos  identificavam-se assim, com o presente do indicativo, 1ª e 2ª pessoa, infinito, pretérito perfeito e particípio passado se é que ainda me lembro dos nomes das formas verbais.

Não pretendendo ensinar latim a ninguém, nem sequer a um putativo padre confessor que me leia, apenas recordo a mnemónica para despedir uma frechada ao dr. Ferro Rodrigues que, de facto, disse um disparate de bradar aos céus. Disparate é, aliás, uma formula benévola para referir um burrice de todo o tamanho e uma idiotice manifesta dados os tempos que correm.

Desconheço as apetências futebolísticas do Sr. Presidente da Assembleia da República, as suas veleidades desportivas que, e eu conheci-o bem mais novo e bem mais inteligente do que agora parece, na sua provecta idade mereciam uma acalmia e uma discrição que ele, estrondosa e petulantemente, resolveu ignorar.

O Sr Ferro Rodrigues parece ignorar que se há região em Espanha pior do que Portugal é justamente a Andaluzia, cuja capital, desde já o informo, é Sevilha. Sevilha uma cidade magnífica, nas margens do Guadalquivir, cidade de ciganos, mil vezes cantada e louvada, que no século XVI tentou roubar protagonismo a Lisboa.

Ora, hoje, Sevilha mesmo mergulhada num vermelho vivo de pandemia será palco de um jogo de futebol etre Portugal e a Bélgica. O bom senso obrigaria a que o jogo nem espectadores tivesse não vá do ajuntamento resultar outro acréscimo temível de infecções. Também, não parece aconselhável que uma multidão de portugueses patriótico-futebolistas se organize numa mesnada vindicativa para bater os flamengos, gente do norte que, in illo tempore (mai latinório!),  deu água pela barba os soberanos espanhóis.

Esta cavalgada de lemings suicidas pedida por Ferro sobre ser uma bravata e demonstrar muita lata, é uma afronta ao estado de excepção em que se encontram, pelo menos,  três milhões de portugueses, confinados à região metropolitana de Lisboa.

Duvido, de resto, que haja bilhetes para o jogo em número suficiente para responder ao anseio heroico, à enxurrada patrioteira  pedida pela 2ª Figura do Estado.

Aliás, eu nem referiria esta picardia ferro-rodruiguiana não fora o facto insólito de, depois da primeira invectiva patriotinha, o mesmo cavalheiro, do alto da sua cadeira na AR ter voltado ao assunto. Decididamente, a criatura está pandemicamente tocada pelo desporto rei, pela “equipa de todos nós”, pelos manes de Cristiano Ronaldo, pelo Espírito Santo tribal que desperta em cada ronda de futebol internacional.

Pelos vistos, enquanto os portugueses se veem ameaçados pelo vírus, pela subida do R t ,pela ameaça do aumento de casos que, em Lisboa, onde vive o ferrenho “Ferro, ferro, ferro, é preciso ter lata”, caminham velozmente para o vermelho vivo, há ainda lusitanos do antigamente de antes quebrar que dobrar a cerviz que prometem uma invasão das antigas terras dos emirados de El Andaluz. Ou do castelhano traiçoeiro, tanto faz!

Pelos vistos, na cadeira presidencial da AR temos não um político assisado e prudente, um pai da pátria cauteloso mas um desportista impaciente, um ferrabrás  fugido de Alcácer Quibir, um devoto tardio de D Sebastião que à falta de um Marrocos à mão quer entrar nas terras à esquerda do Guadiana!

É obra!

À vista deste desenfreado patriotismo, que como todos os fanatismos, nega as mais elementares evidências, é ocasião de perguntar se vivemos numa república bananeira (onde por mero acaso, e há uns bons 50/60 anos se travou uma guerra por via do futebol), se a famosa frase presidencial que mandava tudo e todos focarem-se no futebol, ganhou novo ímpeto ou se meramente estamos perante um caso loucura mansa, de acentuada queda na velhice mais patética, na quintessência do famoso princípio de Peter.         

 

 

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