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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 75

d'oliveira, 01.07.21

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Liberdade vigiada 56

O cerco aperta-se

mcr 1 de Julho

 

Apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo, eis um provérbio provavelmente caído em desuso tal a profusão de criaturas que não gastam tempo com a verdade. Há uma cultura de mentira, acompanhada por outra de omissão que pesa violentamente nos círculos do poder político e económico.

Sempre que surge um problema mais bicudo, a primeira reacção é fugir a ele, evitá-lo, ocultá-lo ou, pura e simplesmente, negá-lo.

Ou arranjar uma verdade paralela saída do nada como o coelho que sai da cartola do ilusionista.

O caso do atropelamento de um trabalhador na auto-estrada é um exemplo flagrante de como de uma ocorrência infeliz, de um provável descuido de uma eventual velocidade perigosa se transforma num “caso”.

Todos os dias, diria a todas as horas, surdem notícias, testemunhos, evidências que cavam em volta do Ministro Cabrita uma vala cada vez mais funda onde ele inexoravelmente irá cair graças não às cavadelas de inimigos jurados, de jornalistas curiosos mas por culpa dele mesmo.

Comecemos: o carro atropela um cidadão na auto-estrada. É visível que o choque foi no lado esquerdo. É igualmente visível que foi extremamente violento dados os estragos na frente lateral esquerda da viatura.

Sabendo-se que o morto trabalhava no  separador central pode presumir-se sem grande dificuldade que a viatura circularia pela faixa esquerda, a que se usa para ultrapassar a viatura da frente. Neste caso, ninguém fala em ultrapassagem de qualquer outro carro.

Se assim é, das duas uma ou a vítima já tinha atingido a faixa de rodagem mais à direita ou foi colhida na faixa esquerda ainda perto do separador central. No primeiro caso (a vítima já teria passado do meio da  via) ela seria visível a longa distância e, por isso, seria fácil evitá-la. Isto, mesmo se a zona do impacto estivesse próxima de uma curva anterior!

Se a vítima foi colhida entre o separador e a faixa esquerda então o caso muda de figura. Condução imprudente, perigosa se for a alta velocidade.

A segunda questão que é suscitada pela imprensa é a da impassibilidade do Ministro que nem sequer se terá dignado sair do automóvel. Claro que pode ter ficado paralisado de terror, de angústia, de pasmo ou de estultícia. Mas não saiu, afirmam todos.

A terceira questão prende-se com a sinalização de obras. Eu faço todos os meses uma ida e volta Porto Lisboa e utilizo várias auto-estradas (A 29, A 25, A 17, A 8 e A 5). Sempre, mas sempre, me deparei com extensos, repetidos numerosos avisos de obras que começam bem antes delas. Não me lembro de alguma vez ter passado por algum estaleiro sem ter visto anúncios repetidos e avisos claros. A Brisa garante que tais avisos existiam no local.

Ora, quarta questão, o gabinete do Ministro fez sair um comunicado onde afirma que não havia qualquer aviso de obras. Alguém mente!

Quinta questão: há notícias cada vez mais consistentes de que a viatura ministerial circulava a uma velocidade de (ou perto de) 200 km à hora.

Também eu, com um automóvel bem menos potente do que o ministerial já fui apanhado por excesso de velocidade sem que  me desse bem conta da importância do excesso. Em carros modernos é mesmo assim, não se nota a velocidade.

Num carro conduzido por um profissional as coisas são diferentes: os motoristas são, por norma, cuidadosos . Se, porventura, excedem as velocidades consideradas normais (digamos entre os 120 e os 140) é porque lhes deram instrucções para o fazer.

Entretnto, ninguém consegue chegar à fala com o motorista.

Também ninguém consegue obter informações relevantes da GNR. E neste caso, afirma-se mesmo, que a GNR foi impedida (ou limitada) por ordens superiores, de não só não fazer algumas perícias normais mas também de informar o público sobre o que fez e o que não fezou  ou o que não a deixaram fazer.

Não sei se o automóvel ministerial já foi visto por gente da companhia de seguros ou por peritos independentes. Parece, todavia, que não, que também sobre ele, testemunha muda que muito poderia contar, caiu uma cortina de silêncio se não de ocultação do veículo.

Dou de barato (ou melhor: sabendo quem é o ministro) o facto de ninguém do gabinete se ter incomodado em ir ao enterro da vítima. Parece que há um bilhete, uma carta curta ou algo do mesmo género, cuidadosamente impresso a manifestar à viúva e às órfãs uns quaisquer pêsames oficiais ou oficiosos. Ignoro se a coisa foi assinada  pelo ministro ou se pura e simplesmente alguém assinou por ele.

Para quem demorou uns meses a escrever à viúva de um desgraçado ucraniano assassinado por agentes do SEF  uma carta deste teor não me espanta, nem me incomoda. Eu deste ministro apenas espero uma demissão mesmo se duvide que ela apareça por motu próprio ou por ordem alheia. Depois de ouvir o dr. Costa afirmar que o sr Cabrita é excelente já nada me espanta. Espantar-me-ia sim, se a criatura se demitisse mas (e abstenho-me de dizer as minhas razões para não ofender quem me lê) tenho por praticamente certo que nunca o fará. É feitio dele e basta.

Ontem, regozijando-me pela detenção do comendador Berardo, terei afirmado, não me apetece ir ler o que escrevi, que anda por aí, nas pretensas elites que temos de aturar, um sentimento de impunidade, de arrogância que em qualquer país meramente civilizado atiraria com quem manifestasse tais sentimentos para o vespeiro da crítica pública e para o fim de carreira. Por cá, e já nem vale a pena falar nos da operação Marquês, é o que se vê.

Não resisto a citar, outra vez, “A casa de Bernarda Alba”: en esta casa no pasa nada!

E passava-se tudo, amor, ódio, desejo, solidão, repressão, preconceito, morte...

Cabrita, coitado, não tem a dimensão de uma figura lorquiana, era o que faltava. Provavelmente nunca leu esse imenso poeta e dramaturgo, se é que lê seja o que for.

Não é uma personagem de tragédia, falta-lhe espessura, dignidade, peso específico. Como diz a Jujú “cachimbinha” já ontem citada: “o homenzinho olha para o espelho e este devolve-lhe apenas o vazio”.

O vazio, o vazio, nada, rigorosamente nada!

 

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