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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

homem ao mar 80

d'oliveira, 06.07.21

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Liberdade vigiada 60

Deambulando por aí

(e pela História...)

mcr, 6 de Julho

 

a notícia já tem vários dias mas vale sempre a pena tê-la em atenção. Em França, as eleições regionais trazem o regresso da Direita clássica e a pesada derrota da senhora Le Pen. Valha a verdade que ela só ameaçava tomar o poder numa das regiões do sul, suponho que a PACA. Na primeira volta o candidato lepenista ficou em primeiro lugar, porém a Frente Republicana (ou seja a Direita clássica, o Centro e alguma Esquerda) fizeram um pequeno esforço e a região foi para a Direita.

No entanto, uma lição há que tirar: a abstenção atingiu níveis portugueses o que não se entende lá muito bem num país que leva a sério as eleições.

Bem sei que o macronismo, algo de estranho no universo fortemente ideologizado francês, reduziu a Esquerda a um farrapo e bateu duramente a Direita.

Mas, justamente por ser ao mesmo tempo tudo e nada, foi agora castigado pelos eleitores. A Direita regressou em força, aspira à Presidência e a Esquerda, sobretudo a ecologista recompõe-se. Quanto aos comunistas e ao ultimo quadrado socialista, as coisas não melhoraram muito.

 Quem é que tendo conhecido o poderoso PCF consegue imaginar uma derrocada deste tamanho? Do Congresso de Tours até ao final do século o PCF foi uma força formidável, política e sindicalmente falando. Dirigia centenas de autarquias com relevo para as da “coroa vermelha” de Paris. Dispunha de uma imprensa poderosa em todos os sectores com relevo, aliás, para o cultural.

Também é verdade que a primitiva SFIC (section française de l’Internacionale comuniste) era filha directa do Komintern, foi levada às águas lustrais por eminentes enviados da 3ª internacional (entre outros Clara Zetkin - piscadela de olho às leitoras-) encarara como objectivo central a eliminação da SFIO coisa que quase conseguiu. Sobretudo, e durante quase cinquenta anos, foi a força dominante na Esquerda. Também é verdade, oculta verdade, que o PCF teve uma atitude miserável nos dois primeiros anos de guerra. Chegou mesmo, pela voz de Duclos, a pedir aos ocupantes alemães permissão para publicar  e vender “L’Humanité”. A propaganda do partido afirmava alto e bom som que os fascistas e nazis eram aliados objectivos, do capitalismo, do imperialismo e da Inglaterra que resistia e apelava a um cordão sanitário à volta dos escassos grupos resistentes e de De Gaulle. Claro que, logo que a Alemanha invadiu a União Soviética o PCF mudou radicalmente de política, empenhou-se na Resistência chegando mesmo a arvorar-se na grande força resistente francesa, o “partido dos deportados e dos fuzilados”. Não era exactamente verdade e cedo se verificou que era à volta do general fugido para a Grã-Bretanha que os franceses se reuniam e reorganizavam. Os exércitos franceses recrutados nas colónias foram claro exemplo disso. Aliás, curiosamente, eram de certo modo internacionais pois mobilizaram milhares de espanhóis anti-franquistas (foi uma coluna maioritariamente constituída por antigos combatentes de Espanha, a 9ª companhia, “la nueve”, que entrou em Paris em primeiro lugar) e cidadãos de numerosas proveniências que se tinham alistado na Legião. Foram exércitos franceses desembarcados com outros aliados no sul que, a marchas forçadas, bateram os alemães para reconquistar Estrasburgo e entrar pela Alemanha até aos Alpes e ao poiso de Hitler em Berchstergaden.

E esses exércitos franceses agrupavam colonos, militares ex-Vichy e dezenas de milhares de tropas coloniais magrebinas e africanas. Alguns dos primeiros políticos dos novos países descolonizados serviram nesses exércitos.

Não querendo de modo algum negar a acção dos franc-tireurs et partisans, não posso entretanto alinhar nessa história que depois se vendeu para consumo interno. A Resistência francesa teve gente de todas as cores políticas, da Direita intransigente até aos anarquistas, passando pelos refugiados (incluindo portugueses) que souberam, desde o primeiro momento, qual era o seu campo sem necessitar de esperar pela invasão da URSS.

Ora, é toda esta história tremenda do século XX que desabou entre fins do sec. XX e os primeiros anos deste século. O PCF evaporou-se quase completamente, aliás não foi o único, basta relembrar a Espanha ou a Itália, sobretudo esta cujo partido, de Togliatti a Berlinguer, era a segunda maior formação política do país, maioritária em várias regiões, sobretudo na Emília, aureolada pela tenaz e contínua resistência ao fascismo, sem quaisquer intervalos oportunistas.       

  

Deixemos, este circunlóquio pela história pregressa de um século e de um país que também era o de muitos portugueses, exilados, refugiados ou emigrados bem como de muitos outros que olhavam para a França como um referente, e voltemos à crua realidade. Na França começa a tornar-se claro um regresso às formações de sempre, à Esquerda e à Direita tradicionais. A tentativa cocktail de Macron não suscita ao fim de um par de anos a mesma curiosidade, o mesmo fervor dos primeiros tempos. Claro que estes anos passados não ajudaram, o mundo mudou demasiadamente depressa e as tentativas de modernização política de Macron (que, de resto não foi muito mais além das políticas de Giscard e de Chirac) suscitaram demasiadas resistências mesmo se muitas delas fossem apenas desesperadas (os coletes amarelos).

E em Portugal, onde estamos?

Estamos a ver passar os comboios, mesmo naquelas linhas que a senhora Vitorino fechou prometendo (e não cumprindo) reabri-las de seguida. Não reabriu, deixou isso ao cuidado de governos futuros , ente eles um com um ministro Marques que, além de bolas de sabão, nada mais fez. Agora com a bazuca anunciam-se revoluções na ferrovia mas, como S Tomé, é ver para crer.

A Direita portuguesa anda desaparecida. Nem Rui Rio se diz de Direita o que já é extraordinário, porquanto de Esquerda não parece ser. O CDS está nos cuidados intensivos e ninguém aposta muito na cura. O homenzinho do Chega dá tiros nos pés e duvido que faça grande mossa nas próximas autárquicas. Provavelmente, no Alentejo ajudará a derrotar o PC sem com isso obter ganhos significativos. A Iniciativa Liberal começa a tornar-se cansativa e sobretudo ninguém percebe exactamente o que quer, como quer e para onde vai. No meio da desordem, ao cheiro do poder, dos dinheiros que aí vão chegar, só o PS está relativamente tranquilo. À Natureza tem horror ao vazio e o PS tem a estranha faculdade de em face dele ir preenchendo todos os buracos e buraquinhos e mete os seus partidários em toda a parte até nas entidades alegadamente independentes. A AR dormita, ronrona, está ansiosa por férias e precisa realmente delas para tentar encontrar um par de ideias novas e mobilizadoras. Entretanto, continua agarrado ao cadáver da TAP que teima em fingir-se vivo, ao fantasma de Sócrates que assombra ainda meio partido e ao ministro Cabrita, “sempre esse homem fatal” que, aliás não merece a citação.

Os jornais noticiam que nos últimos tempos entraram em Portugal 34.000 turistas sem testes covid, sem certificados sem nada. Mas são turistas e a cavalo oferecido não se olha o dente.

 

It’s all right Ma, I’m only bleeding      

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*as vinhetas:

depois da entrada de "la nueve" em Paris, findos os combates

fotografia de grupo: la nueve

** a citação final: Bob Dylan, canção com o mesmo título.

eu tenho ideia de uma versão em ue bleeding aparece transformado em dying. E tinha uase a certeza que isso se ouvia em "Easy Rider" esse mítico filme. todavia, procurei e não encontrei qualquer confirmação... que estaria de acordo com as imagens finais do filme.