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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 81

d'oliveira, 07.07.21

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Liberdade vigiada 61

ADSE para que te quero...

mcr, 7 de Julho

 

O título poderá ser enganador. De facto a ADSE é uma bênção. Uma bênção que alguns acham cara mas que eu, que a pago religiosamente há 46 anos, estimo acima de tudo.

Os jornais de hoje, 7 de Julho dão conta de alguns problemas do SNS. Não querendo sobrecarregar os leitores com uma lista do tamanho da légua da Póvoa, apenas deixo uma indicação algo assustadora: entre Março de 2020 e Fevereiro de 2021 fizeram-se menos 13, 4 milhões de contactos presenciais médicos e de enfermagem nos centros de saúde; fizeram-se menos 29 milhões de meios complementares de diagnóstico; trezentos mil diabéticos viram adiados os seus exames; o número de cirurgias caiu 25% e as urgências caíram 40%

Por outro lado, há uma crescente falta de médicos de família que, agora se pretende colmatar com um concurso hoje mesmo aberto (ou noticiado) e, paralelamente ficou-se a saber que os médicos (e provavlmete outros profissionais de saúde) estão exaustos. Um administrador hospitalar declarou ao “Público” que tem gente com 60 dias de férias acumuladas. No Algarve fala-se em limitar fortemente as licenças para férias e até num extraordinário sistema de “férias intermitentes” (!!!)

Isto e o facto de haver(notícia de hoje) mais de um milhão de portugueses sem médico de família traça uma fotografia demasiado baça e dura da realidade do sistema.

O SNS foi desde há muitos anos algo que balançava de deficit em deficit, de profissionais, de meios, de instalações. Por isso pode falar-se num milagre quando se verifica que, apesar de tudo, o sistema lá tem conseguido sobreviver.

E é nisto que entra a ADSE. Uma espécie de seguro de saúde que vem do antigo regime e que, mesmo pesando 3,5% nos bolsos dos seus utentes permite a estes refugiarem-se nos sistemas de saúde privados.

Eu, justamente, comecei em Fevereiro um tratamento aos olhos. Um tratamento que apenas pretende manter a minha degradada visão no ponto a que chegou. Não espero melhorias e, resigno-me ao que ainda tenho. Trata-se de um tratamento caro (quase 400 euros por sessão mais ou menos mensal). No meio do caos instalado com a pandemia eu ainda estaria na lista das pessoas que, no SNS, esperam por esta delicada intervenção. É evidente que, mesmo com ADSE as despesas não serão totalmente cobertas mas pelo menos, ainda que com atraso, poderei receber parte do que paguei.

Dir-se~á que sou um privilegiado (e sou-o evidentemente) que se pode dar ao luxo de suportar uma percentagem deste gasto mensal (ignoro em que percentagem serei reembolsado) mas adivinhem, se puderem, a angústia de quem teme perder a visão, sobretudo se , como eu, for um leitor voraz.

Todavia, hoje mesmo, tive de consultar um cirurgião por causa de uma hérnia umbilical. Andei a adiar desde o Verão passado (quando ela começou a ser visível) porque queria que o meu irmão, médico, a visse e me aconselhasse. A pandemia não me deixou. Não vou a Lisboa desde Setembro e não sei se poderei, ainda este mês, ir lá para celebrar a entrada da minha mãe no seu primeiro centenário (em boa verdade, a old lady faz (perfaz, aliás) 99 anos mas no dia seguinte começa a contagem da centena!

Por isso, hoje mesmo, liguei para o hospital da CUF, tive a sorte de apanhar uma desistência nas consultas de cirurgia e, à hora marcada, exactamente à hora marcada, lá me encontrei com o cirurgião. E marcou-se a intervenção para meados da segunda semana de Agosto porque as nossas respectivas férias não permitiam uma data anterior. Saí da CUF já com electrocardiograma feito e tudo explicadinho. Paguei cinco euros por tudo. Se as coisas correrem como espero vou à faca a 10 e, se o anestesista o permitir, nesse mesmo dia regresso para o lar, doce lar, sem aquele tartamulho na barriga. Velho sim mas sempre elegante...

Estão a imaginar o que seria se tivesse de esperar por uma consulta hospitalar, sobretudo agora que a quarta vaga ameaça crescer exponencialmente?

De modo algum quero diminuir o SNS, obra de Miller Guerra (tão esquecido) e da malta do “relatório sobre as carreiras médicas”, e que reputo como uma das grandes realizações da Democracia. Pretendo apenas, se os filisteus me deixarem, afirmar que um SNS robusto, eficaz e universal não retira aos sistemas privados a sua utilidade e pertinência. Podem coexistir harmoniosamente, complementar-se  com benefício para todos e tornar este país um pouco mais seguro, mais são e mais justo.

A obstinada raiva de alguns altos responsáveis políticos pelo sistema privado  mais do que uma burrice é um atentado à estabilidade do SNS que, neste momento, está encostado às cordas e provavelmente ficaria knockout com mais um milhão de usuários da ADSE sem falar do outro milhão (no mínimo) de utentes de seguros privados.

Eu sou pouco dado a doenças, provavelmente até sou um tanto ou quanto inconsciente (como se verificou no pouco cuidado com que tratei os meus olhos) mas quando penso na angústia de quem subitamente tem um problema de saúde, desconfio que até os acirrados inimigos do “privado” vão, pé ante pé, ao primeiro que lhes aparece.

Ou ficarão a roer as unhas e a ansiedade durante períodos de tempo que nalguns casos, e mesmo sem pandemia, ultrapassam um ano de espera?

Responda quem souber!           

* a vinheta Meu pai, um João Semana assumido, citava muito Hipócrates ou, pelo menos, o juramento.  É nele que constantemente penso quando oiço falar em saúde. Já o seu bisavô, um certo dr Ernst Richard Heinzelmann , formado pela Universidade Wilhelm de Berlin (hoje Humboldt) seguia um honrado código de trabalho científico e solidário. No Rio Grande do Sul (Brasil) uma pequena cidade, celebra-lhe a obra e a vida e usa o seu nome: cidade Dr Ricardo. Sabe-me bem ter estes antepassados

 

nota: um erro meu permitiu que se publicasse um texto aberrante que provavelmete nem sequer era umcomentário ao folhetim. De todo o modo, não vou perder tempo a comentá-lo. 

entretanto um "anónimo" regurgitou uma frase a que respondi como podem ver