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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

homem ao mar 95

d'oliveira, 23.07.21

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Liberdade vigiada  83

O Estado editor

mcr, 23 de Julho

 

Fiz uma tentativa de ir ao Museu Nacional de Arte Antiga. Chegar lá já não exactamente a coisa mais fácil do mundo mas encontrar um lugar para estacionar seja a que preço for parece uma tarefa impossível.

Deixei essa visita para mais tarde e fui pelo catálogo antes que se esgote. O problema do catálogo é outro mesmo se bem característico das edições do Estado. Existe na loja do Museu, tão inacessível como o museu ele próprio e nas livrarias nem ouviram falar dele. As respostas iam desde o “ainda não foi distribuído” até “nunca aparece cá”.

Ou seja, repete-se a  mazela antiga comum a 95% das edições do Estado: não chegam às livrarias. Ou melhor: é provável que cheguem às duas ou três livrarias da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Na internet uma consulta à FNAC, à Bertrand e à Wook não deram resultado. No entanto parece que uma das livrarias Almedina tem o livro. Não são muitas (três ou quatro, mas é melhor que nada).

Não sei, nem tenho possibilidade de saber se nas livrarias dos Museus Nacionais há o livro.

Eu, ao fim de anos e anos, de busca de livros, já conheço os truques todos e, sobretudo já sei que o Estado tem armazéns inacessíveis onde se amontoam edições próprias que praticamente não se escoam por falta de um aparelho de distribuição ou de um contrato com distribuidores privados.

Certa vez, procurando livros editados pela Comissão Nacional  das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, soube numa pequena mesa de venda existente na Torre do Tombo que havia pilhas enormes de livros num armazém em S João da Talha com milhares de livros não vendidos. O problema é que também não havia quem os fosse buscar a tal sítio.

Vi algo do mesmo género com produtos de outras acções do Estado no campo editorial: dessa vez tratava-se de uma operação conjunta com editoras privadas. O Estado patrocinava a edição de autores clássicos portugueses e recebi em troca uns centos de  exemplares de cada obra.

Vi as garagens do Ministério da Cultura, ainda na Avenida da República, atulhadas de gigantescas pilhas de livros. Ninguém sabia o que lhes fazer. Nem sequer enviá-los para as bibliotecas que ainda não eram muitas mas que já existiam e se debatiam com uma pobreza franciscana.

Nem vou referir, pois tenho ideia de já o ter contado, os poucos projectos em que participei. À uma ninguém se lembrava de fixar um preço de venda(!!!) de outras vezes esqueciam-se de contratar um distribuidor e por aí fora: um desastre. Em determinada ocasião, a instituição que eu dirigia entrou numa vaquinha para editar um sumptuoso álbum sobre um grande cineasta português. Quando perguntei em que que data reuniríamos para fixar um preço de venda, olharam-me como se olha um marciano. Depois, percebi que os meus parceiros achavam que o livro, um livro caro, seria para dar. Finalmente, agarrei nos exemplares que me cabiam, fixei o preço e vendi-os todos num abrir e fechar de olhos. Ou seja paguei-me completamente do dinheiro entregue. E jurei que nunca mais.  

Desta feita eu ia em busca do catálogo “Vi o reino renovar (a arte no tempo de D Manuel I)” Vou arriscar: quando regressar ao Porto, irei à livraria da INCM e  eventualmente, caso dê com o nariz na porta, à Almedina. Se nada conseguir espera-me um longo telefonema para o MNAA e uma difícil negociação para obter o livro, combinar forma de pagamento, um inferno.

Cada vez que vejo umas alminhas pueris quererem pôr o Estado a fazer coisas culturais até me arrepio. E fico com a ideia que a coisa vai ser cara, incompleta e fora do alcance físico da esmagadora maioria das pessoas.