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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

homem ao mar 99

d'oliveira, 27.07.21

Liberdade vigiada 87

Perguntas de um leitor que não é operário

mcr, 27 de Julho

 

Um leitor, e um amigo antigo, também, apanhou-me na esplanada e disse-me que eu fui injusto com Otelo. E apoiava-se em Ramalho Eanes que terá declarado que o país deve a Otelo a liberdade. 

Eu quando vejo, oiço ou leio estas declarações tão peremptórias (Eanes teve, porém, o cuidado de falar nos efeitos perversos do Otelo do projecto globl) fico entupido.

Ora vejamos. Portugal viveu um longo período de privação de liberdades fundamentais. Começou em 1926,por iniciativa de uma série de militares, muitos deles apoiantes da 1ª República (gomes da Costa ou Mendes Cabeçadas) e vários outros militares (Henrique Galvão ou Humberto Delgado) serviram fielmente e em cargos extremamente importantes o Estado Novo até se malquistarem com ele. 

Em poucas palavras, a Ditadura propriamente dita (26-33) e a ditadura disfarçada de Estado Novo foram essencialmente obra de militares e, é bom lembrar, de republicanos. (os monárquicos praticamente não tiveram qualquer papel no 28 de Maio e Salazar trouxe-os sempre de rédea curta (O mesmo sucedeu aliás à única organização de cariz fascista, os camisas azuis de Rolão Preto que foram completamente manietados e silenciados. Rolão Preto acabaria por se juntar à Oposição Democrática sem que essa aliança espúruia desse qualquer resultado.

Ao fim de quase meio século de regime ultra conservador, os capitães, melhor dizendo o MFA fez o 25 de Abril e como já no 28 de Maio de 1926, o regime caiu sem estrondo e sem luta. A única ocasião em que pareceu poder travar-se um combate, foi na zona do Terreiro do Pço entre a coluna de Salgueiro Maia e uma força de tanques comandada por um brigadeiro. Este, contudo, foi desautorizado pelos seus subordinados que se recusaram a disparar sobre a coluna de Santarém. Se o tivessem feito é provável que tivessem esmagado graças ao seu superior poder de fogo a pequena hoste de Salgueiro Maia. Agradeçamos a esses jovens oficiais e soldados que se recusaram a combater. Também lhes devemos muito. 

Ontem deixei aqui claro que o plano de operações redigido por Otelo foi excelente e contribuiu grandemente para a rápida vitória das forças insurrectas. 

Todavia, na história da luta pela liberdade nunca houve heróis solitários. Nem em qualquer outra insurreição popular, militar, de esquerda ou de direita. 

Aos quase cinquenta anos de Estado Novo corresponderam outros tantos de oposição, de luta pela liberdade, de homens e mulheres tombados pela liberdade, de centenas ou milhares de cidadãos presos, espancados, algumas vezes assassinados pelas polícias do regime (e não apenas pela PIDE).

É verdade que esse esforço contínuo e desesperado não deitou o regime abaixo, mas também ninguém duvida que criou um caldo de cultura e uma cultura de Resistência extremamente importante e que se foi fortalecendo ao longo dos anos e que, com o longo desastre das guerras africanas mais e mais se tornou vital. 

Os militares de Abril foram-se apercebendo da marcha da História (a descolonização de África; o despertar do 3ª Mundo, a tragédia do Vietnam, a conferência de Bandung, a atitude da América em relação às colónias portuguesas e até a famosa entrevista do Papa com alguns líderes africanos de expressão portuguesa). 

Mais começaram a ver a guerra perdida, devorados os seus melhores anos  (Melo Antunes, Vasco Gonçalves, Eanes o Otelo estavam bem perto dos quarenta anos). Contactavam com centenas de jovens oficiais milicianos que tinham forjado nas lutas universitárias desde o decreto lei 40900 até às crises académicas de 62 e 69, um forte sentimento de exasperada oposição ao regime. 

A todos eles, aos militantes anónimos das cidades, aos agitadores sindicais ou universitários, à corajosa falange de velhos democratas que nunca se rendeu, que passou vezes sem conta pelas prisões e, sobretudo, pelas perseguições mesquinhas, do Poder e da Polícia, à pequena e recente plêiade de católicos progressistas que puseram em causa o apoio da Igreja ao regime, a todos esses e muitos outros, a “Pátria deve a liberdade e a Democracia”(para usar as exactas palavras de Eanes).

O problema de Otelo nada tem a ver com o seu papel relevante – mas não único! –na conspiração militar. É depois, e durante uma boa década, que as suas sucessivas posições por vezes imprevisíveis, por vezes risíveis, quase sempre desastradas e finalmente detestáveis, que também não podemos esquecer. Não estão aqui em causa as suas candidaturas à Presidência da República! Da primeira vez obteve 16% dos votos (Pinheiro de Azevedo 14% e Octávio Pato 8%) contra 61% de Eanes. Da segunda vez, o seu score foi quase nulo. 

Ora, foi depois deste desaire que correspondia, também, à quase desaparição da extrema esquerda, que Otelo que já não compreendera outras situações entendeu avalizar uma aventura terrorista num país de democracia consolidada. E essa patética, perversa, infame e trágica tentativa  que, à semelhança do terrorismo de Direita (1975) se saldou em mortes incompreensíveis, em assaltos a bancos e destruição de bens sem conexão com qualquer plano revolucionário ou pretensamente revolucionário, tem de ir à conta final.

Tanto mais que a amnistia atabalhoada em nome da reconciliação dos portugueses, deixou por resolver algo muito simples: quem finalmente era ou não responsável. E mais, desta feita em relação a Otelo: alguém ouviu uma palavra de arrependimento, de remorso, de desculpa ou alguma justificação política, moral ou ética dessa onda de violência por ele patrocinada mesmo se haja quem legitimamente suspeite que Otelo era apenas um idiota útil, uma futura vítima a eliminar uma vez conseguidos os objectivos revolucionários? 

A dr.ª Isabel do Carmo, ontem, afirmou candidamente que, depois do 25 de novembro houve quem se sentisse “deprimido” e por isso se revoltasse, se organizasse, primeiro nos GDUP depois na FUP e (isso não disse mas presume-se) no arrevesado  “Projecto Global”)

Convenhamos que a “depressão” tem costas largas e pelos vistos, à luz das elucubrações da ex-líder das Brigadas Revolucionárias, é também ela eminentemente revolucionária. 

Conviria, mas talvez nem valha a pena o esforço, explicar que todo aquele arsenal de organizações sempre de unidade, sempre populares, por vezes arriscando o “democrático e o frentismo, eram quase que só nomes com cada vez menos militantes, participantes, apoiantes e simpatizantes. Isso também explica a queda dos 16% de 1976 par os exíguos 1,8% de 1980. 

A tentativa serôdia, a destempo, caricatural da imitação das Brigadas Vermelhas italianas, da Action Directe francesa ou até da Rote Armée Fraktion alemã (algo também absurdo e destemperado!) é uma espécie de fenómeno do Entroncamento da história “revolucionária” portuguesa. E sempre com outra agravante: nunca ultrapassou a barreira de Lisboa e arredores. Não pegou no Alentejo onde o Partido Comunista nunca lhe deu guarida, não entrou pelo Centro ou no Norte onde socialistas, sociais democratas e gente do CDS, fortemente apoiados pela esmagadora maioria da população, nunca lhe permitiram entrar.

A depressão não veio para ficar. Ou se veio, entrou na cabecinha de Isabel do Carmo, mas sentindo-se bm, não saiu de lá. 

 

Brecht escreveu um poema que intitulou “Perguntas de um operário leitor” e aí pode ler-se

“César venceu os gauleses.

Não tinha sequer um cozinheiro ao seu serviço?”

 E, mais longe, em guisa de conclusão:

“Em cada década há um grande homem.

Quem pagará as despesas?”

Deixa-se a leitura do poema que se publica em anexo à reflexão dos leitores e, se possível aos teóricos da “História com heróis solitários“ 

 

      

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