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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

liberdade vigiada 115

d'oliveira, 24.08.21

Liberdade vigiada, 115

África, longe

mcr, 24 de Agosto

 

Enquanto Portugal e grande parte da União europeia andam acima dos 70% de vacinados, a África, globalmente considerada, vegeta em menos de 10%. 

As boas consciências, sempre em busca de uma causa longínqua que as não obrigue a agir mas lhes permita perorar, acusam o “Ocidente”, sempre esse medonho monstro, de privar o continente negro de vacinas. Por acaso, há grandes países que não são “ocidente” que também não se esforçam por mitigar a escassez africana. A China, que fabrica vacinas, a Rússia que faz o mesmo, a União Indiana que nem sequer consegue acudir aos seus muitos milhões (centenas de milhões!...) de pobres, camponeses, miseráveis das grandes cidades  e o que mais se lhes aproxima) não são mencionadas et pour cause.

O mal e a caramunha estão só, como é hábito, nos EUA e aliados europeus, um pouco também no Japão e Canadá. Mas os europeus são de longe os piores. Foram (apenas alguns, mas tanto dá) colonialistas, são eles que acolhem a grande maioria de imigrantes das antigas colónias, são eles que estão na linha da frente dos actuais hospedeiros de fugitivos de toda a espécie e de quase todos s lugares desde a Ásia à  África.

Conviria que, quando se fala de África, distinguir cuidadosamente entre os países que, detendo grandes riquezas naturais, pouco ou nada fazem pelos seus cidadãos (pela esmagadora maioria dos seus cidadãos), outros que são pobres desde sempre e se debatem com naturais dificuldade, e, finalmente os “Estados falhados” que pura e simplesmente não conseguem chegar à maioria dos seus habitantes. 

É bom lembrar que há elites africanas (e nem vale a pena citar as que nos são mais próximas) que confiscaram boa parte da riqueza nacional. A isso corresponde em grande medida o desastre da pobreza africana e o escândalo da vacinação. Esta, de resto, não apresenta diferenças substanciais do sistema de saúde “normal”. É m África morre-se de muitas maneiras, já nem se fala da fome, de desastres naturais (lembremos as últimas cheias da zona da Beira/Moçambique), da guerra larvar em variados países. 

Há muitos anos, ainda na década de sessenta, um especialista em agronomia, francês, René Dumont escreveu um livro que causou escândalo: “L’Áfrique est mal partie” onde recordava que a os efeitos da colonização não eram os únicos, sequer (e progressivamente) os mais importantes. Favia uma imensa falha das elites nascentes, erros gigantescos nas escolhas do desenvolvimento que se projectava. Esquerda  e Direita, africanas e europeias, “juntaram-se à esquina a tocar concertina” e a atacar um Dumont por uma vez só. Claro que era ele quem tinha razão como rapidamente se verificou. As independência tem sessenta anos e os resultados estão infinitamente aquém do que se esperava. A África subsaariana perde para a imigração dezenas de milhares de jovens por ano. Os mais decididos, os que arriscam mais, os que querem radicalmente mudar de vida.

Esta sangria desatada também não melhora a sorte do continente. Nem sequer, na grande maioria das vezes, dá um especial contributo aos países de acolhimento. 

Há na campanha mundial de vacinação  o problema da assimetria notória entre países ricos e pobres (e mesmo entre países ricos: é inexplicável o atraso da Austrália, da Nova Zelândia, entre outros).

E se é verdade que o que vale para um país (imunidade de grupo) vale para o planeta, não menos verdade é que só alguém vivendo na Terra com a cabeça nos asteroides exteriores poderia sequer pensar que os europeus prescindiriam da segunda (e eventualmente da terceira...)dose da vacina. Vai nisso se não a a vida pelo menos o sofrimento de uma infecção que, mesmo não sendo mortal, não é pera doce.

Atrevo-me a pensar que mesmo os mais entusiásticos e solidários amigos do Terceiro Mundo, não cederiam a sua dose se a necessidade se impusesse a qualquer africano perdido entre o Congo e o Ruanda e que obviamente ainda não está sequer perto da primeira toma. 

As boas almas samaritanas poderiam começar a organizar-se para a exemplo dos Bancos Alimentares, se juntarem local, regional e nacionalmente para num esforço cidadão e individual começarem a comprar vacinas e a fazê-las chegar onde são precisas.

Eu sei que os Bancos Alimentares não gozam dos favores de uma certa “inteligentsia” alegadamente de Esquerda.Que aquilo não passa de um subproduto da caridade cristã, que só serve para expandir a influência do “ópio do povo”, do poder clerical, enfim o costume.

Porém, a verdade, a verdade verdadeira, é que, entre nós, o BA matou a fome da dezenas ou centenas de milhares de pessoas, ajudou milhares de instituições e, de certo modo, tranquilizou a consciência de muitos que não tendo muito, tinham pelo menos o suficiente para viver confortavelmente. 

R o mesmo sucedeu nos diferentes países – sempre ocidentais – onde instituições análogas existem e actuam. 

É pouco mas antes pouco do muito pouco do que nada.

Sou um pequeno contribuinte de algumas campanhas de ajuda em certos países africanos. O pouco que dou é, nalguns sítios, uma apreciável contribuição de meses de necessidades de educação. É verdade que a minha contribuição não ajuda a fermentar a verdadeira e única Revolução salvadora porque anseiam algumas senhoras e cavalheiros africanos que preferem o Portugal racista e colonialista às Guinés e Senegais onde a sua capacidade mobilizadora poderia(...???) ser mais bem aproveitada. Mas isso é um outro falar...