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Incursões

Instância de Retemperação.

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liberdade vigiada 116

d'oliveira, 25.08.21

 

 

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Liberdade vigiada 116

Ajudar só quem se ajuda a si próprio

mcr, 25 Agosto 

 

 

Desde há dias que as páginas de opinião do “Público” (e provavelmente de outros jornais)estão cheias de artigos sobre a “imperiosa” necessidade de “acudir às irmãs afegãs”.

Fico ligeiramente perplexo porquanto, no Afeganistão também haverá homens  a necessitar de ajuda. Pelo menos aqueles que vemos nas imagens, outros que, entretanto, se abalançaram a uma perigosa viagem pelas mais ínvias rotas até tentar chegar à Europa e os muitos que, terão ficado pelo caminho.

E, já agora, muitos outros pis creio que naquele desgraçado país, muito boa gente não se sentirá em segurança com os novos (velhos) dirigentes.

Isto não significa que, eventualmente, não haja uma sólida maioria de habitantes que se revê em maior ou menor grau nos actuais vencedores.

Não basta o exército ter-se desvanecido, liquefeito, mudado de campo. A fulgurante progressão das guerrilhas taliban nunca teria êxito sem um claro apoio popular. E isso não significa apenas homens mas também mulheres. 

As poucas reportagens sobre o Afeganistão, que de longe em longe passavam na televisão, mostravam – sobretudo fora de Cabul, mas também aí – multidões de mulheres encafuadas em burkas.

Hoje, uma colunista. A economista Maria João Marques, intervém com um título perturbador: “E as mulheres muçulmanas na Europa? Ajudamos?” 

E é aqui que a porca torce o rabo. As (melhor dizendo algumas, muitas) mulheres muçulmanas na europa têm à sua disposição um farto arsenal jurídico igualitário, aguerridos grupos feministas, políticos de quase todos os quadrantes (incluindo os de Extrema-Direita que levam o seu descaramento ao ponto de apontarem a situação de inferioridade das muçulmanas para melhor poderem criticar as políticas migratórias dos países europeus)

Até, entre nós, mesmo se raramente, se vem nas ruas mulheres de véu, cabelos cuidadosamente escondido, roupas mais que austeras, apregoando a sua pertença e a sua desconfiança sobre a indumentária mais ligeira das europeias cristãs ou nem isso. 

Também, mas mais raras ainda são as judias ortodoxas que marcham atrás dos maridos também elas vestidas com uma sobriedade que claramente as distingue. Pelos vistos, o remorso de séculos de inquisição ou de pogroms impede os críticos de se pronunciar. 

Pessoalmente, distingo mal um judeu ortodoxo de um muçulmano também ortodoxo pelo menos no que respeita às relações homem/mulher e, sobretudo à atitude em relação aos “infiéis”. Todavia, basta-me passar os olhos sobre reportagens em Israel (Jerusalém ou territórios ocupados por colonatos) para perceber que os palestinianos, todos eles, estão em maus lençóis com tais vizinhos. E que os partidos destes radicais religiosos têm sido os mais ardentes sustentáculos de uma política ultra-nacionalista.

Isto para significar que a nossa concepção de Direitos Humanos, de Liberdade, de Política de Género, esbarra em convicções, costumes, hábitos, mundivisões que nos são estranhas para não dizer mais.

Os adeptos do multiculturalismo  a outrance dão uma mãozinha, melhor dizendo uma manzorra, à continuação deste estado de coisas, desta auto-segregação, sempre em nome de “culturas” próprias que os europeus deveriam respeitar. 

Junte-se a isto, o facto de na maioria dos casos as comunidades emigradas na Europa serem constituídas por pessoas com baixos índices de escolaridade, fraco ou nulo conhecimento da língua do país que  (de bom ou malgrado) os acolhe e omeça-se a perceber como é que certos fenómenos de rejeição  aparecem nos ghettos onde por necessidade, por solidariedade, se acumulam os recém chegados. Junte-se-lhe, no caso dos muçulmanos, a forte influência de um Islão rigorista apoiado nas mesquitas que a Arábia Saudita paga por todo o  lado. O “clero” muçulmano educado nas madrassas sauditas e dificilmente regulado pelos poderes civis dos países de acolhimento contribui em latga medida para que os fieis não conheçam outra cultura mais liberal e aberta. 

Cabemos isso desde as erupções de violência dita islâmica que tem já uma larga tradição nos países ocidentais (desde a Espanha à Alemanha, com forte incidência na França ou na Bélgica). O que eventualmente pode surpreender é o facto de muitos dos autores e comparsas dos mais violentos atentados serem já “segunda geração” com passagem, mesmo se relativamente curta, pela escola pública.

Pode dizer-se que é no seio das comunidades emigradas que se reproduzem as ideologias que dão voz a uma recolta que pode ser mais ou menos mobilizada por factores de exclusão, de racismo, de desconfiança. 

E, convenhamos, essa desconfiança não se atenua com a constância dos atentados, com as violências nos territórios do Magrebe ou do Médio Oriente. E menos ainda com os desafios inflamados que vêm das mesquitas radicais, das escolas corânicas, das autoridades civis e religiosas  (por todas as do Irão, mesmo se, neste caso elas tragam o selo dos chiismo que por sua vez, vide o Afeganistão, é vítima dos sunismos mais radicais).

É neste pano de fundo que a pergunta (não direi exactamente o mesmo da resposta ou da sugestão de resposta) de Maria João Marques faz todo o sentido.

Finalmente, cada vez que oiço clamar que a Europa tem de, “deve”, intervir pergunto-me como é que isso se pode fazer sem que, logo de seguida, apareçam os habituais “anti” (colonialistas, imperialistas, racistas, capitalistas e o que mais der).

As mesmas criaturas que agora choram o “abandono” do Afeganistão, gritavam ainda há bem pouco contra a intervenção imperial dos EUA (dos restantes nem falo porque não faziam peso).         

Não vou sequer debruçar-me sobre a famosa tese de entregar à ONU este ripo de intervenções. A ONU já se mostrou suficientemente impotente em dezenas de ocasiões em que os Direitos Humanos foram alvo de ataque. E então num país encravado entre Paquistão, China, Irão e antigos territórios soviéticos, a coisa parece ainda mais absurda.

Parece e é!

*na vinheta: mulheres muçulmanas em Paris