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Incursões

Instância de Retemperação.

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liberdade vigiada 118

d'oliveira, 27.08.21

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Liberdade vigiada 118

Júlio Dinis, o subvalorizado

mcr, 27 de Agosto

 

Abre hoje a feira do livro do Porto, no verde cenário dos jardins do Palácio de Cristal o que permite ao leitor dar um pequeno passeio entre árvores quase (ou mesmo) centenárias beber qualquer coisa à sombra e reencontrar livreiros conhecidos, incluindo vários alfarrabistas de Lisboa que, pelos vistos, entendem ser esta feira uma boa oportunidade.

A feira do Porto andou por diversos sítios desde a rotunda da Boa vista (também com árvores) até à Avenida dos Aliados sítio abrasado pelo calor.

Deve-se à actual gestão camarária de Rui Moreira esta mudança de poiso que ainda tem a seu favor um extenso parque de estacionamento mesmo por baixo do pavilhão Rosa Mota.

Outra característica simpática é cada edição ser ded icada a um escritor vivo ou morto, organizando-se diversas conferências e colóquis sobre a obra e o tempo do homenageado.

Desta feita, é Júlio dinis, um autor que morreu demasiado cedo para se poder aquilatar do que poderia ter sido a sua marca no universo das letras portuguesas.

De todo o modo, JD deixou meia dúzia de romances escorreitos, inteligentes, que, como hoje argumentava alguém no jornal, são lidos demasiado cedo por jovens demasiado novos que não apreenderão toda a qualidade da intervenção do médico-escritor.

Júlio Dinis é uma testemunha sagaz da sua época e nos seus livros perpassa muito claramente a grande mudança social que Portugal vive, a ascensão de novas classes no meio rural com o declínio dos velhos e descuidados grandes proprietários (algo bem evidente em “Os fidalgos da Casa Mourisca”) e o fortalecimento mesmo que incipiente da burguesia citadina.

Numa mesa habitual dos meus tempos de Coimbra, ouvi algumas vezes Joaquim Namorado e Orlando de Carvalho perorarem sobre o que poderia ter sido um Júlio Dinis sobrevivente. Namorado apostava numa espécie de Balzac, feroz retratista das novas classes em ascensão o que, aliás, suscitou a admiração de Marx e de Engels que o consideram como uma das vozes mais interessantes do ramance mesmo se, como se sabe, Balzac fosse, do ponto de vista político, um reaccionário de primeira ordem. Todavia, para já não falar do seu estilo, das suas qualidades de efabulador, ele conhecia a sociedade em que se movimentavam as suas personagens e não escamoteou nada do que via mesmo o que detestava. Vai bem mais longe do que muitos escritores coevos que hoje chamaríamos progressistas mas que eram incapazes de ver o mundo como ele era mas apenas como gostariam que fosse.

Infelizmente, Júlio Dinis, por sobre ter vivido pouco (31 anos como Cesário Verde e menos um do que António Nobre), foi quase que relegado para escritor para a juventude e os realistas viram nele sobretudo o romantismo sem curarem de perceber a força que o movimento tinha naquele tempo e a argúcia com JD pintava algumas personagens que nunca se apagam da memória dos leitores.  

Uma das críticas mais comuns a JD reside no que muitos chama o seu “optimismo esforçado”, esquecendo que ele escreve na época em que o país gozou de grande estabilidade política e se notava uma intensa tentativa de modernização de Portugal. algo que Eça, quase sempre longe, não valorizou tanto mais que, nas suas visitas à pátria, quase não saiu de Lisboa e sobretudo não percorreu a “província”.

  

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