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Incursões

Instância de Retemperação.

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liberdade vigiada 120

d'oliveira, 29.08.21

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Liberdade vigiada 120

Há cinquenta anos éramos assim

mcr, 29 de Agosto

 

O tempo passa quase sem percebermos. Agora os jornais e a televisão garantem-me que Vilar de Mouros foi há cinquenta anos, data redonda que merece sempre referência.

A esta distância os festivais de Vilar de Mouros misturam-se-me na memória. Ou melhor, tenho vários flashes de momentos especiais, de Verões especiais, de amigos, encontros, desencontros. Do mar de Moledo, de vivermos quase acampados na casa do Manel Simas, melhor dizendo nas casas pois primeiro havia uma de pedra, antiga e com um jardim, melhor dizendo um terreno com umas trepadeiras e três árvores, numa das quais pendurávamos um balde furado por baixo para servir de chuveiro.

Éramos novos, tínhamos pouco, tínhamo-nos uns aos outros, fazíamos ceatas de um chouriço espanhol que a Laurinda jurava que era o melhor do mundo e rematávamos com uns chocolates também passados aos direitos que era, ela outra vez, que era o único que não sabia a mofo. E dávamos-lhe forte e feio na cerveja, umas bazukas de litro e meio que se finavam num ápice, o Carlos Cal Brandão dizia que a bebida se evaporava, o Manel sousa Pereira que Deus tem à sua direita, contentava-se com leite pois jurava que padecia de uma úlcera que ele tratava com violentas cachimbadas e namoros em cascata. Se havia alguém que merecia um harém era ele sempre perdido de amores, sempre correspondido (o grande sacana!) incapaz de se meter nuns calções de banho para ir à praia. A filha, em viagem pela estranja, mandou-lhe uma vez um postal: Pai Maravilhoso   Moledo do Minho

Texto: viagem maravilhosa, beijos maravilhosos, filha maravilhosa.

O postal chegou à casa do Manel direitinho. O carteiro justificou-se: os senhores usam todos barba, vi logo que era um de vossemecês!...

E o Festival, claro.

Numa tarde, eu e o Manel resolvemos subir o Coura de canoa até às Azenhas, uma piscina natural mesmo em Vilar de Mouros, melhor dizendo mesmo junto ao recinto das festividades.

Acabados de chegar, um mariola que se armava ao pingarelho, junto dumas garinas que se banhavam em topless ou mesmo nuas, já não me lembro, atirou-nos: “Ó meus, vindes aos cracodilos?” num tom definitivamente tripeiro e da Ribeira (o Manel só para me contradizer jurava que ele usava a variante do Amial).

As atrevidas riram deliciadas. Nós extraímo-nos das canoas e o graciso ao ver a figura gigantesca (e gorda a atirar para o robusto) do Manecas engoliu em seco. Razõ tinha pois o meu amigo era enorme e pesado.

Entretanto, enquanto nos aprestávamos a descansar e ver as vistas, um sólido camponês de meia idade, chegou à margem com a mulher a tiracolo. Esta trazia um cesto lancheiro enorme e uma cadeira enquanto o marido trazia uma mesa desmontável. A mesa foi posta e do csto surgiram acepipes de toda a ordem, uma garrafa de vinho, pão, um copo, uma navalha respeitável. Uma vez armada a mesa, a mulher foi despedida e regressou sei lá para onde. E o aldeão mirou as raparigas.

Ao ver-nos tão perto, perguntou se éramos servidos enquanto com a navalha cortava fatias fininhas de um presunto, maravilhoso, desses que vem de um porco criado em casa, como se fosse família e abatido na devida época e submetido nas partes convenientes a um fumeiro largo e benfazejo.

Claro que éramos servidos. O aldeão generoso extraiu um segundo copo do cesto, desculpou-se por sé ter um mas respondemos que beberíamos à vez. E vá de trincar uma lasca de presunto, outa rodela de chouriço, uma taleiguinha de  salpicão, aquilo não era um lanche, era um deboche de sabores, dava para um regimento, ou quase.

E o vinho? Ai o vinho era um alvarinho, leitores e leitoras, que o alvarinho de Monção e Melgaço ainda atira mais para baixo algumas vezes. E não confundam o “nosso” alvarinho  com o albariño galego  que também se bebe com entusiasmo e respeito mas que é diferente. E pede sobretudo marisco. Muito marisco das Rias Baixas, e do Grove, capital do marisco. Ai que saudades. O raio da pandemia está-me a atrasar as expedições anuais a Sanxenxo e ao Grove para me fartar de marisco.

Voltando à vaca fria: lá lanchamos, lá lavamos o olho atrevido nos peitinhos juvenis e atrevidos que naqueles anos prodigiosos, naquela década prodigiosa, a nudez recentemente inaugurada era como Deus mandava e os tempos exigiam.

E havia a música, claro. Era um festival caseiro, feito de boas vontades, o primeiro de todos e com músicos que vinham tocar para gente que gostava de música,

Em Vilar de Mouros, onde, suspeito, nunca nenhum sarraceno pôs o pé, terra encantada, com uma lagoa sem crocodilos mas com melgas, em dias quentes num verão que não volta, que não volta.

 

Vai esta em memória de dois escultores, dois amigos, duas saudades: Jaime Azinheira e Manuel Sousa Pereira.

E um abraço ao novel pai Carlinhos Cal Brandão que também ele apanhou verões nestas terras à beira Minho.  Agora é a vez deles