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Incursões

Instância de Retemperação.

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liberdade vigiada 121

d'oliveira, 30.08.21

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Liberdade vigiada, 121

“Tudo vai pelo melhor...”

mcr, 30 de Agosto

 

Permita-se-me dar, como título, a primeira parte de uma citação do dr. Pangloss, mestre de Cândido, segundo Voltaire.  

A frase inteira, verdadeiro manifesto do citado mestre filósofo, eminente introdutor da metafiso-teologo-cosmolonogologia, continuava assim  “no melhor dos mundos”.

Eu, leitor antigo e devoto de Voltaire, tendo-me justamente iniciado ainda rapazola com o “Cândido”, apesar de ser optimista esforçado, sempre tive a ideia que neste mundo nem tudo são rosas e que uma pitada de pessimismo permite evitar desilusões e, eventualmente, ter uma visão mais certeira da realidade.

Vem tudo isto a propósito do congresso do PS realizado, caso não saibam ou não tenham dado por isso, este fim de semana.

Congresso partidários em Agosto dão sempre azo a desatenção. Está-se em plena “silly season”, as pessoas estão mais interessadas na temperatura da água do mar, nos romances estivais narrados pela imprensa cor de rosa, ou noutro tema candente. Os meandros de um congresso, as subtis manobras de bastidores, a análise das votações, do sobe e desce de certas figuras no xadrez partidário são matéria obscura, ingrata, movediça que requer demasiado esforço sobretudo nos tempos de calor.

Quando  o congresso é de um partido no poder, a tarefa é ainda mais difícil porquanto das duas uma: ou há a previsão de grandes modificações ou não. No caso vertente, nada, rigorosamente nada de previa a esse nível. Nem era de prever, a um mês das eleições autárquicas. Os partidos terão muitos defeitos mas não se dão ao luxo de manobras suicidárias na iminência de prélios eleitorais.

Quando isso acontece, trata-se de agremiações amadoras, pequenas, descartáveis que não pesam no panorama político. Tais formações podem dar-se ao luxo da polémica, sobretudo da polémica bizantina que, de todo o modo, apenas interessa aos seus reduzidos militantes que não tem preocupações de gestão política seja do que for, sindicatos, juntas de freguesia, câmaras municipais, lugares no parlamento. Como não tem isso, também não tem a gesto de empresas públicas, agências estatais e assimilados.

Portanto, não se esperavam deste magno ajuntamento novidades de maior, sequer novidades, aliás. O que aconteceu, malgrado a tentativa de televisões e jornais de enfatizar diferenças, rivalidades, novidades.

A menos que se considere novidade a filiação da dr.ª Temido, que assim se protege de algumas brotoejas políticas dada a sua condução dos assuntos de saúde, a sua visão ultra-centralista do SNS, o seu estado de negação perante a evidência da existência crescente de privados no sistema de saúde. A senhora Temido poderá ter alguma vez afirmado que estava farta, que queria voltar a ser “a Marta” (lembremos José Mário Branco e a sua Marta que só irá com “o maganão... dentro de um caixão”) mas a verdade é que com esta entrada radiosa na família socialista deixa a ideia que está pronta  para “mais uma voltinha, mais uma viagem” até porque “menina não paga” se é que me lembro desta lenga-lenga.

Havia um tabu, diz-se. Que era o da sucessão de Costa. E apontavam-se presuntivos herdeiros desde o famoso inimigo dos banqueiros alemães (cujas perninhas até tremeriam...!!!), Pedro Nuno a duas senhoras (Mariana Vieira da Silva, Ana Catarina Mendes) que, pelos vistos o tempo é das mulheres mesmo se elas apenas representam um terço dos militantes (ou um pouco menos, nem sei).

Em suma os comentadores, os jornalistas, alguns círculos de ociosos tentaram encontrar um pouco mais de azul , um pouco mais de sol no monótono acontecimento. Em vão.

A época é de cerrar fileiras e lá temos um quarteirão de amigos do sr. Adrião (uma espécie de opositor de Sua Majestade que o país ignora e os militantes idem, aspas, aspas) votados na lista única do generoso líder que assim se vê coroado por noventa e muitos por cento, número norte coreano  agora muito em voga por cá.

Que o sr. Adrião não é um Tino de Rans já se sabia. Faltam-lhe espontaneidade, berço, convicções. De resto, só existe nestes momentos congressionais...

Mas pior, bem pior do que esta morna reunião,  este mormaço político.

António Barreto, no último sábado (Público, p.3) apontava ao PS uma série de faltas, desde programáticas até ideológicas, um fatalismo pouco criativo  que não tem substância cultural, orgulho ou compaixão). Em boa verdade, e dado o estado vegetativo da oposição, nem precisa. Basta-lhe o poder para mobilizar as energias de uns centos de militantes mais em vista, a falta notória de credibilidade política  da Direita, e a complacência (por fraqueza manifesta) da Esquerda a que se encosta. Chega a ser penoso, ouvir o sr. Jerónimo de sousa, regatear na praça pública apoios que finalmente concederá depois de umas migalhas  que ele transformará obviamente em vitórias do “povo”. O secretário geral do PC sabe que o seu partido está desde há muito em perda. Em perda lenta mas segura. E nisso apenas difere de antigos e quase inexistentes congéneres europeus por a queda desses ter sido muito mais abrupta. A massa militante do PC envelhece como o país (mais de 50% dos militantes está acima dos 65 anos!)

Aliás o mesmo fenómeno se passa com o PS. Entre os 26 e os 40 anos são 13300. Em contrapartida, acima  dos 65, passam ligeiramente dos 22.000. E 50& anda entre os 41 e os 64 anos. Desconheço os números dos outros partidos mas basta-me este para me apoquentar um pouco. Aliás, o número total de militantes não chega aos 75.000 o que diz muito da penetração do partido entre os portugueses. E note-se que estes números (Público,28 de Agosto, p.8) são números de um partido que está no poder desde 2015...E que por isso pode distribuir benesses a quem tenha o cartão e, eventualmente, as quotas em dia.

Tudo visto e respigado, fica-se com a sensação que no PS há um certo estado de espírito “lorquiano” no pior sentido da palavra. Refiro-me claro, a um frase de “Bernarda Alba”, uma peça que pode não ter a a poesia e a  força de “Assim que passem cinco anos”.

Quando tudo se desmorona à sua volta a velha matriarca Bernarda grita num paroxismo de raiva “en esta casa no pasa nada!” exactamente o contrário do drama terrível que atinge aquela família.

Enfim foi um fim de semana de Agosto, sem festas nem romarias, sem festivais de Verão (mas com uma vitória, outra!, da task force :  já teremos atingido 85% de população vacinada. Um prodígio de logística e de trabalho insano e de dedicação extraordinária de centenas ou milhares de enfermeiros e outras profissionais anónimos de saúde.

(não quero ser cruel mas fiquei com a ideia que a transferência de Ronaldo teve mais ouvintes e mais interessados do que o vago monólogo socialista.

Sinal dos tempos!

E do país...)