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Incursões

Instância de Retemperação.

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liberdade vigiada 137

d'oliveira, 15.09.21

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Liberdade vigiada 137

Médicos para que vos quero!

mcr,  15 de Setembro

 

Há médicos a mais ou a menos?  A Ordem dos Médicos entende que não há falta de médicos. As faculdades de Medicina continuam a manter os números clausus de anteriormente e garantem que preparam o numero suficiente de médicos. Os médicos defendem que só se deveriam criar faculdades novas com hospitais de retaguarda suficientemente apetrechados em pessoal e tendo uma forte cobertura de especialidades. Sem isso, afirma-se, qualquer curso de Medicina está votado ao fracasso. Os estudantes devem poder frequentar uma faculdade que no momento certo, os faça deambular num hospital  com um máximo de valências que lhes permita ter uma visão o mais abrangente possível da futura profissão.

Ocorre que tirando Lisboa, Porto, Coimbra, eventualmente Braga, não há hospitais para satisfazer este desiderato.

Entretanto, abriu a primeira faculdade de Medicina privada. Pertence à Universidade Católica e pelos vistos tem algumas particularidades bizarras: o ensino é todo em inglês; as propinas mensais quase duplicam o salário mínimo nacional e julga-se que o esforço monetário final para uma família ter um filho licenciado nesta escola ultrapasse os 100.000 (cem mil) euros. Convenhamos que não são trocos. O hospital que prolongará o ensino teórico é o Beatriz Ângelo, um hospital público, o que pode querer significar que o Estado do SNS abençoa este casamento. O Governo da geringonça também foi convidado para o auspicioso evento. This is a glorious day for everyone, students, teachers & happy and rich familiues. (do’nt ask where are the workers, the people, the trade unions, please! ). Pelos vistos há cinquenta estudantes já a aprender. Que bom!

O dr António Costa, foi à festa. Foi bonito vê-lo de bispo a tiracolo, falar nos que tem o “privilégio da fé” (faltaram a esperança e a caridade mas a última está prometida. Os dirigentes da novel instituição juram que haverá bolsas de estudo para alunos de excelência! Bonito gesto! Só um invejoso, ou um negacionista de outra espécie é que retorquirá que com propinas daquelas sempre haverá um lugarzinho para mais um, Desde que “de excelência, bem comportado, filho de um casamento canónico, baptizado e católico apostólico e romano. Uma licenciatura em Medicina é como Paris, vale uma missa, ou várias se for o caso.)

Todavia, o senhor dr Costa não se ficou pela bênção ministerial e laica. Avançou com a promessa de fundar mais três faculdades de Medicina (Aveiro, Évora e outra já não sei onde). Para justificar este triplo nascimento, disse, com a unção que se espera em dia tão solene que se alguns entendem que há médicos a mais, é com eles. O que ele, Costa vê é um número gigantesco de candidatos que não conseguem ter lugar nas faculdades já existentes. E isso, segundo o preclaro Primeiro Ministro, provaria que há razão, necessidade, quiçá urgência nestas três futuras escolas médicas.

Eu não sei se o dr Costa, rapaz bem mais novo (mas mais gordo) do que eu, fez “Medicina Legal” que era uma valente chatice que nos acontecia no 5º ano.  Pelos vistos os autores dos curricula da época acreditavam que depois de meia dúzia de aulas teóricas e duas ou três autópsias os esforçados e martirizados estudantes de Direito, ficavam aptos para detectar toda a espécie de crimes violentos que lhes caísse em julgamento. A cadeira era semestral e a malta tentava escapulir-se do teatro anatómico por todas as maneiras e feitios. Não que os cadáveres impressionassem. Mas o cheiro, ai o cheiro, ainda hoje o sinto. Disse malta mas deveria dobrar a língua. Era a macharia que mais se sentia incomodada. As nossas colegas (tão poucas que eram!) não perdiam pitada. Sentavam-se na primeira fila, olhar ardente, quase concupiscente, no cadáver. Às vezes comentavam que o “verdinho” era particularmente interessante. E assistiam impávidas à autópsia. Só lhes faltava bater palmas.

Terá o dr Costa sofrido esta descida ad loca infecta ou fala de cor sobre a necessidade de médicos? Sobretudo com o argumento de que há muitos candidatos que ficam de fora. Bem sei que o disse no meio de uma multidão de clérigos e de criaturas vestidas com umas roupas bizarras que, presumo, serão os trajes académicos da UC.

Às tantas, no calor da emoção, parafraseou “muitos são os chamados mas poucos os escolhidos” e com uma caridade que merece encómio e bênção urbi et orbi, terá prometido um céu suplementar aos réprobos que não passam a porta dourada do paraíso terrenal.

Eu, nestas coisas, de Medicina, não me meto: venho de uma longa cadeia de médicos e assimilados. Desde o trisavô Ernst Richard  até ao meu pai Marcelo, ao meu irmão, com passagem pelo bisavô Oskar Heinzelmann que foi farmacêutico e inventou uns xaropes ou coisas do mesmo género e teor. Na família há enfermeiras e a senhora minha Mãe, receita a torto e a dieito. Fui uma das vítimas do seu extremoso afã materno-medicinal: Una vez, em férias, entendeu que eu, acabado de chegar, estava com ar de doente e pimba, receitou-me uma coisa hedionda que se chamava “Heparregulina”. Aviei um frasco inteiro daquela poção maldita até, por acaso, perguntar ao meu pai se aquilo fazia bem. A resposta paterna, prudente mas apesar de tudo sublinhada por um sorriso irónico, foi “mal não te deve fazer!”

Apeteceu-me uivar e pouco depois, com o cadáver do frasco praticamente bebido, disse-à Mae em tom sentidamente revolucionário que acabava ali mesmo o tratamento por ela aconselhado ou imposto. A mater-familias indignou-se, argumentou, pediu mas eu, dessa vez, resisti a tudo. Não e não!

Ora bem, já me perdi. Portanto creio que o dr Costa ou se entusiasmou, ou, pior, decidiu levar avante o seu intuito de nos encharcar de médicos.  

Às tantas está como o ministro Heitor que, coitado, acha, que para médico de família bacalhau basta. Meio curso, provavelmente. Ou dos terços, vá lá três quartos. Depois é metê-los no centros de saúde onde tanta falta fazem.

E, já agora,  que estamos com a mão na massa, a notícia de hoje é que dos médicos do SNS só 23,8% estão em exclusividade! E parece que aqui se  trata de especialistas!  Os especialistas em dedicação exclusiva eram 6124 em 2015 e são 4840 em 2021!

Para onde vão os médicos que por aí andam? Pois para onde lhes pagarem melhor, com certeza! Ora, isto é estranho porquanto há por aí umas almas perdidas que juram que o sector privado paga miseravelmente!

Eu sempre desconfiei que os médicos adoram sacrificar-se: desertam o sector público para irem ser explorados no privado. Eis um método seguro de ganhar o céu.

Deve  ser por isso que a direcção da ADSE se recusa a pagar aos capitalistas da CUF e assimilados o que eles pedem. Estão a tentar atirar para o SNS  os doentes que tentam encontrar especialistas onde os há. E se no SNS não há, não tem mal, morrem. Ou esperam pelos licenciados a 100.000 euros por cabeça da Católica. Ou pelos outros os das três futuras e fantasmáticas universidades que Costa quer. Será que aí os cursos teráo seis anos ou um pouco menos? Só o futuro, e depois, das autárquicas, o dirá. Até lá estamos em campanha. E em campanha vale tudo...

*a figureta da gravura  não tem nada de imaginário. Eram assim os médicos venezianos, e depois, muitos outros, no tempo da peste