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Incursões

Instância de Retemperação.

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liberdade vigiada 142

d'oliveira, 20.09.21

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Liberdade vigiada 142

As imagens pias da pátria

mcr, 20 de Setembro

 

Uma senhora deputada, dita independente (eu fico sempre de pé atrás com estas criaturas independentes: num sistema de votação por lista para o parlamento, os eleitos devem a sua eleição aos eleitores e, sobretudo, ao aparelho partidário que os candidatou.

Seja em que caso for (grandes partidos PS ou PSD, partidos médios PCP ou pequenos e pequeníssimos Livre e IL. Se alguém é proposto por estas agremiações e, depois, se sente desconfortável, há que saber de quem é a culpa. Do partido proponente ou do eleito que afinal descobre, a cândida criaturinha, que aquilo -  parlamento, propostas partidárias - não é exactamente o que queria.

Nestes caso, genericamente, o lugar eleito deveria ser devolvido ao partido porque foi nisso que os eleitores votaram)

É o caso da senhora Joacine Katar Moreira. Nunca poria o mimoso pé na augusta sala de S Bento não fora uma coisa chamada “LIVRE” se ter lembrado dela. Na altura, achei estranho que o partido tivesse escolhido a dita senhora em detrimento de alguns (poucos) dos mais activos militantes.

Depois, alguém entendeu explicar-me que o LIVRE sempre desafiante achara extraordinário candidata uma mulher sobretudo negra!  Provavelmente, eles terão pensado que isso, mulher e negra, era um xeque-mate à burguesia, aos capitalistas, ao imperialistas, aos fascistas e sei lá a quem mais.

Não era, como se viu. A referida senhora foi eleita não pelos bairros suburbanos, pelos ghettos mas em zonas de classe média, bastante média ou mesmo quase alta! Paradoxos das votações. Também o BE recolhe aí, e não nos antros do proletariado, a maioria dos seus votos. Os bairros pobres dão votos ao PC, ao Chega, ao PS e ao PSD.

Portanto, a senhora Katar Moreira entrou no Parlamento pela mão de um partido que se afirma de esquerda mais ou menos radical e com os votos de eleitores que, presumivelmente, abominam qualquer radicalismo e sobretudo o de esquerda.

Depois, como já vai sendo hábito, a srª Moreira começou a desafiar o seu partido. E saiu, como também já se esperava, tornando-se independente (signifique isto o que significar...) e, de longe em longe,  vai disparando sentenças, propostas, recomendações.

Desta feita, atirou-se às pinturas da sala das sessões e, supõe-se, do resto do edifício. Que as pinturas são a exaltação de várias coisas horrendas e sobretudo do colonialismo infame e lusitano.

Eu aceitaria que a sr.ª deputada apontasse o dedo ao mau gosto, à  manifesta mediocridade das peças, aquele estilo grandiloquente, maçudo ultra-convencional de fazer arte.  Mas não, a boa senhora apenas ali vê  a exaltação da opressão duns pobres diabos colonizados.

Eu, se valesse a pena, lembraria à acusadora que não há país em que gestas míticas, carregadas de opressão para outros que não os nacionais, plenas de superioridade as mais das vezes racial (e se não cultural, ética, moral) contra outros, mormente os vizinhos, não façam parte do sentir nacional ou daquilo a que se poderia chamar pathos nacional.

Os próprios mitos fundadores de um bom punhado de etnias africanas (não digo todas porque não conheço todas) estão carregados de imagens que exaltam p povo “eleito” e execram os restantes.

Percorra a srª deputada qualquer país extra-europeu e verá repetirem-se exactamente as esmas representações nacionais, raciais e culturais.  

As nações após a convulsão da Grande Revolução dos fins do século XVIII, procuraram avidamente fundar a sua recente existência nacional numa série de figuras, situações, histórias e mitos que justificasse a sua, delas, existência.

Viriato, a padeira de Aljubarrota, o “Decepado” e muitos outros, incluindo Vasco da Gama diante do Samorim, ou Mousinho frente ao Gungunhana , são figuras de Epinal caras a uma certa maneira portuguesa de ver Portugal, o “jardim à beira mar plantado”.

Terçar armas contra isto, insistir furiosamente na falsidade do milagre de Ourique (e eu ficaria tristíssimo –mesmo não acreditando - pois, o meu mais antigo antepassado terá sido um dos que juraram a veracidade do acontecimento) não vale ao esforço sobretudo se há outras batalhas mis sensatas e de mais ganho para os pobres eleitores que provavelmente já se arrepelaram três vezes do voto na eleita Joacine. Eles que se consolem com a ideia, salutar, que daqui a dois nos ela não andará nas bocas eleitorais dos portugueses.

Esta deputada, que arremete contra moinhos de vento, sem sequer ter a candura, a bravura, a loucura do velho fidalgo, esforça-se por sair da obscuridade a que ela própria se remeteu, com estas espadeiradas na água. Deixem-na espadeirar que dí não vem grande mal ao mundo. Pior, bem pior é aquela gente, muito nossa, muito de cá que sem saber história, sequer português que se veja, lhe repete os propósitos e sem perceber que dão armas a radicais bem mais poderosos levam a cabo uma  cruzada  do mesmo teor. São órfãos de uma imaginária e não ocorrida Revolução, tem saudades de um passado em que poderiam ter sido heróis contra o Estado Novo, contra a Monarquia, contra o absolutismo, contra Castela ou contra os romanos invasores. É só escolher a época e pinta-la com cores directamente saídas da paleta dos autores das pinturas de S Bento.

Um poeta de que não recordo o nome, lamentava-se nos meus tempos de moço atrevidola, pelo facto de as “Indias estarem todas descobertas”. Já não havia aventura, heroísmo, emoção.

E, porem um cavalheiro madeirense (para citar apenas um ) escrevia

“Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra

e seu arbusto de sangue.Com ela

encantarei a noite...”

Por junto o Herberto veio da sua ilha natal até ao “continente” e terá paseado pouco tempo na Holanda. Não afrontou a mourama nem enfrentou o mar tenebroso, não desembarcou na Ilha dos amores nem nas praias do Malabar. Mas deixou-nos mais de 500 páginas de fogo e génio, uma pegada solar e um espanto perpétuo.

Mas provavelmente a senhora Moreira não leu Hélder. Ou se o tentou não percebeu.

Ao fim e ao cabo está escrito na língua bífida do opressor.

Não faço parte da estúpida minoria que quer mandar a senhora Katar Moreira pra a Guiné. Coitada, que iria ela fazer lá, num Estado falhado, onde se sucedem governos e políticos que mutuamente se acusam de corruptos, traidores, ladrões e criminosos. Ao lado, em baixo, está um povo amável que vive pauperrimamente, que emigra quando pode para em país estranho e frio ganhar o pão de cada dia. O mesmo se passa ao lado, no Senegal de onde diariamente fogem em barcos desconjuntados, jovens que descobriram que o futuro abandonou aquelas paisagens. O mesmo Senegal de onde veio o senhor Mamadu Ba outro demolidor de colonialistas. Veio combater o inimigo na sua própria toca. E o inimigo, divertido, paga-lhe pela façanha, oferece-lhe uma cidadania carregada de sangue negro e inocente, de escravatura e de genocídio. E lá, no país iluminado pelos poemas de Senghor, a pátria esvai-se pela fuga dos mais aventurosos, dos menos complacentes, dos que querem se não mudar o mundo, pelo menos mudar a vida.

 

* as vinhetas: a liberdade guiando o povo de Delacroix exaltando uma revolução que nem sempre foi exemplar e o famoso cartaz “banania” que dá corpo ao mito do preto bom, servil e afável.     

As gravuras tem tamanho diferente mas eu para isso não dei um passo. Nem sequer saberia pô-las do mesmo tamanho. De todo o modo poder-se-á interpretar esta diferença de formatos como mais uma restea de má vontade colonial.