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Incursões

Instância de Retemperação.

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liberdade vigiada 145

d'oliveira, 23.09.21

Liberdade vigiada 145

Lá começa o ano escolar... Mal!

mcr, 23-o9-21

 

 

A famosa paixão dos primeiros ministros (e só falar em algo que meta primeiros ministros, é tentar o demo...) anda desde o engenheiro Guterres, num permanente mar encapelado. Melhor no Mar Tenebroso e não há quem se atreva a meter sequer um bote na água.

Alguns leitores não se lembrarão mas Guterres, ainda nos Estados Gerais que levaram à sua eleição depois de duas épocas triunfais de Cavaco Silva.

(É mister recordar essa conturbada época pois há quem tenha olvidado o impacto das asneiras e os seus funestos resultados  - funestos para os vencidos, obviamente, mas eu fui um deles, mesmo se também tivesse sido dos que mais se esforçaram por avisar do tsunami que se avizinhava.

Lembremos que, após uma aventura populista, mas esmagadora, o Parlamento viu aparecer uma coisa estrambólica chamada Parido Renovador Democrático. O dito fenómeno tinha a marca escondida de Ramalho Eanes sendo que sua mulher foi o arauto mais esforçado do movimento, revelando alguma forte habilidade política.

Neste curioso e, aliás efémero, juntamento, preponderaram muitos elementos da Esquerda, desde José Carlos Vasconcelos a José Medeiros Ferreira. Nunca percebi o que os movia mas a verdade é que nas primeiras eleições após a sua formação, o PRD registou 18& dos votos deixando o PS exangue com 22% eo PPD folgadamente à frente mesmo se com maioria  relativa. E Cavaco foi para 1º Ministro. Um terramoto mais sentido ainda d  que a primeira Aliança Democrática, a de Sá Carneiro/Freitas do Amaral/Ribeiro Telles. 

Algum PS de cabeça perdida e todo o PR, entenderam derrubar o relativamente frágil governo cavaquista. Mais uma vez fiz parte dos que entenderam que a aventura era arriscada e que mais valia um Cavaco fraco do que um Cavacão. 

E uma vez derrubado o Governo e realizadas eleições, Cavaco obteve a primeira maioria absoluta. Toma lá que já almoçaste!

Quatro anos depois, à vista de nova chamada dos eleitores tentei explicar ao meu amigo José Rodrigues (o escultor) que corríamos o risco de ver cair-nos em cima nova e esmagadora maioria. Um outro bom amigo meu, deputado socialista, com especiais responsabilidade e um longo historial na Esquerda de antes e depois do 25 A, interrompeu-me e afirmou que eu delirava. Bom rapaz mas politicamente meio atoleimado... 

Espantado e aterrado, nem me dei ao trabalho de votar. Fui para Paris assistir à rentrée e foi o Luís Matias, quem num excelente jantarinho num bistrot da margem esquerda me anunciou, contristado: “Levámos uma banhada!” Segunda maioria, ainda mais violenta! 

Felizmente, a vida continua e o mundo lá vai desandando. E veio Guterres, e nós com ele, nos Estados Gerais. Foi a única vez que me vi, num palco pomposo com mais um cento de personalidades, num Coliseu de Lisboa cheio até o último lugar da geral. Nunca me senti tão mal! Tinha vontade de coçar o nariz, bem ao fundo. Vontade urinar,. Faltava-me o ar. Um horror. Quando houve uma pausa, desertei do meu posto de pequena celebridade e fui fazer coisas mais agradáveis. A um primo socialista e fundador do Partido, expliquei que a aposta estava no papo, a eleição eram favas contadas e que me faltava o ar no palco. 

Todavia, tive ocasião de ouvir Guterres proclamar convicto que “a Educação seria uma paixão do seu Governo”

A coisa pegou e desde essa altura, já lá vão quase trinta anos, a educação tem sido uma paixão de todos os cavalheiros que querem ser primeiro-ministro. Até Santana Lopes, vejam bem ao que a coisa chegou. 

Nem vou comentar o que ocorreu neste domínio, nestas décadas. É verdade que temos imensos doutorados e muitos deles no desemprego, sobretudo nas zonas das ciências humanas. É verdade que as Universidades pariram centenas de milhares de licenciados mas agora, veja o caso dos licenciados em Direito, é a própria Ordem que exige, ou vai exigir um mestrado como mínimo para admissão ao estágio! O desemprego da geração mais bem apetrechada fez com que houvesse uma corrida aos mestrados (caros) e as doutoramentos. Nem falo das post-graduações... 

Ora, no meio disto tudo, da catástrofe do português e da matemática, do desleixo quanto à filosofia e à história, da apagamento do latim e do grego temos que nem nas disciplinas ditas urgentes há um avanço significativo. 

O caso de hoje é extraordinário: faltam, segundo as escolas e a fenprof em uníssono (!!!) professores de informática. Por baixo faltarão, pelo menos, 400 (quatrocentos!...)

Eu com a feia idade que levo (recuso-me veementemente a achar bonita uma idade destas)  considero-me uma espécie de info-excluido. Por junto sei escrever o blog, funcionar com o mail, tirar fotografias, trocar mensagens e fazer pesquisa. No blog só sei publicar textos, vagamente corrigi-los, piratear imagens. Bem que gostava de poder meter músicas mas creio que isso é muita areia para a minha desconjuntada camioneta. 

Vamos, que eu não queria saber programar, era o que faltava. Mas, volta e meia, aparece-me uma dificuldade no uso do computador e lá vou numa corrida pedir ajuda aos irmãos Mónica e Rui Silva, (Oficina dos Neurónios) que me aturam com evangélica paciência e lá me ensinam mais qualquer coisa, uma de cada vez para ver se eu não dou com os burrinhos na água. 

Esta falta de 400 professores, numa época em que a ameaça do covid ainda vagueia por aí e quando os estudantes precisam de ter noções aprofundadas de informática não só para o estudo normal mas também para poder acudir a situações mais complicadas se voltarmos a ter de interromper as aulas ao vivo, é terrível. 

Eu sei que não é de bom tom estar sempre a apontar o dedo aos nossos excelsos governantes, coitados, que se estafam para nos tornar felizes e melhores. Mas cada vez que vejo o sr. Ministro da Educação impante e a fazer declarações risíveis (já nem falo naquela da preparação dos médicos de família para não ter que dizer que há criaturas que nem um veterinário merecem) até quase que simpatizo com o cavalheiro da Fenprof, uma criatura que já não deve dar aulas desde o tempo de Guterres. Felizmente, a criatura abre a boquinha e diz tis coisas que a simpatia logo se desvanece. 

Não sei como caracterizar esta paixão assolapada pela Educação mas quando oiço os lancinantes apelos amorosos dos governantes, fico com a impressão que estou metido numa leitura do pior de Soares dos Passos. É que só sucedem desgraças, desencontros, tragédias, amores de perdição de faca e alguidar. Quase que se poderia dizer dos governantes e da Educação que são eles a dar-lhe e a burra a fugir. 

É  que, quando falo de Educação, só me vem à ideia aquela avalanche de obras que em vez de acudirem a todas as escolas se ficaram em menos de metade, pelo dobro do preço previsto. Agora, que se avizinha a artilharia pesada dos dinheiros europeus, só me temo do que lhes vai dar para gastar os cacaus e ajudar alguns amigos patriotas a fazer pela vida. 

 

Enquanto meditava no que iria hoje escrever, vi passarem a rua umas dezenas de alunos, de uma das escolas que há aqui ao lado. Desertavam da cantina e iam comer junk food ao supermercado. Eu percebo que a escola deva ter comida saudável mas muito me arreceio que resolveram acabar com o oito e ultrapassar o oitenta. E quanto a pedagogia alimentar estamos no mínimo abaixo do medíocre. Ou a proibição de uma série de produtos tem uma contrapartida em oferta de outros atraentes e igualmente saborosos ou a medida falha completamente o alvo.