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Incursões

Instância de Retemperação.

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liberdade vigiada 90

d'oliveira, 29.07.21

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Liberdade vigiada 90

o fisco, nós e a Europa

mcr,29 de Julho

 

Recebi há duas semanas uma carta do Fisco. Nela, naquele tom enigmático e confuso que a Autoridade Fiscal usa (e abusa) preveniam-me que eu poderia pedir uma audiência prévia a propósito de um IUC em débito.

Corri para as Finanças para perceber melhor do que se tratava mas. à porta, estava um aviso de que só com marcação prévia é que se admitia o pobre contribuinte (eu) que só queria pagar para não ter mais maçadas.

E indicavam um telefone. Anotei-o cuidadosamente numa das folhas do jornal (também ia munido de uma espessa revista, pois nestas coisas de fiscalidade é bom o paciente prevenir-se para aguentar o inevitável banho de cadeira que o espera). Na impossibilidade, pensava eu, de ser atendido fui para a habitual esplanada, tomar um café vingativo e vindicativo. Apareceu uma amiga antiquíssima que se propôs ouvir as minhas queixas a troco de um café. quando lhe disse o que se passava, olhou-me como quem olha um cordeiro acabado e nascer : “E tu pensas que alguém vai atender a tua chamada?” Eu, mais tonto que uma pescada melancólica, achei que sim, que se indicavam um telefone para alguma coisa seria.  minh sábia amigs, riu-se da minha candura e ordenou-me com rispidez que ligasse para o dito número. Obedeci. Nada. Aquilo tocava, tocava e tocava mas, do outro lado, como no soneto de Antero só “silencio e escuridão...”

“Vês?”, perguntou-me. “Estás a lidar com a burocracia nacional.”

entretanto, hoje, lembrei-me de voltar ao mesmo local para tentar pagar os selos dos carros meu e da CG que nunca se digna pôr lá os pés. ela lá sabe que tem um marido extremoso, um mordomo, um pau mandado.

quando cheguei à Repartição de Finanças, não vi ninguém à porta  de modo que me precipitei lá paa dentro sem dizer água vai. fui interceptado por uma jovem que me perguntou ao que vinha. “quero pagar os selos dos carros” murmurei. “Tem de marcar entrevista!” “Mas eu só quer pagar...” Nada feito. Ou melhor, perguntou-me o número de contribuinte, o telefone e, para meu espanto mandou-me para a tesouraria. tudo isto em cinco minutos.

Felicíssimo paguei o que devia e referi a tal carta das Finança. A diligente funcionária, já conhecida de vezes anteriores, informou-me que isso era uma eventual coima e que me não preocupasse. Se o Fisco entendesse que eu a deveria pagar (boa piada!) mandar-me-iam uma cartinha com a informação da quantia e os códigos multibanco para comodamente efectuar esse pagamento.

Cheio de atrevimento, perguntei corajosamente, porque é que nesse caso, o fisco me dava a possibilidade de pagar uma multa no multibanco e não fazia o mesmo com as importâncias dos selos. O Fisco sabe quanto devemos, em que altura, manda imensas mensagens, por exemplo o aviso de pagamento do IRS, poderia sem esforço maior fazer o mesmo com o selo do automóvel. Ela concordou mas não sabia responder-me.

Caros leitores: isto esta penosa (e no caso em apreço, com covid, marcações, entrevistas e o raio que para o Estado)ida por via de algo que poderia com facilidade ser pago no multibanco sem filas, sem gente a murmurar obscuras e obscenas ameaças aos funcionários que atrás dos balcões tem a maçada de introduzir o nosso número de contribuinte e um par de códigos para depois extraírem uma folhinha onde consta que o cidadão cumpridor entrou com os cacauzinhos do IUC, demonstra bem o estado da arte da colecta de impostos em vigor no torrãozinho de açúcar.

Aliás, poderia dar mais dez exemplos de penosos esforços para cumprir com deveres simples. Basta-me porém um exemplo.

Numa estadia em Paris em casa do meu amigo Luís Matias, este comunicou-me que tinha de ir à mairie da pequena cidade onde residia para tratar da transferência da propriedade do carro. O carro era do sogro e para evitar dificuldades na vinda para Portugal convinha que o Luís (ou a mulher dele) fosse o proprietário. E convidava-me para o acompanhar e, depois, para almoçar. Previ horas de espera, montes de papéis, enfim um martírio. Muni-me de um livro para enfrentar a espera e lá fui não tanto com a mira no almoço mas para o confortar naquilo que eu imaginava ser uma insuportável prova de resistência.

Demorámos 18 minutos Dezoito, nem mais um! quando me espantei e olhei para o calhamaço por uma vez inútil, o Luís disse-me com aquele ar malandro do emigrado com longos anos de Franças e Araganças: “isto é a europa, M! A Europa!”

E fomos para Paris, dar uma volta pelas livrarias, beber um café, fazer horas para um almocinho (um “coq au vin” maravilhoso ali para os lados de St Germain e um vinho que ainda hoje me comove.

Isto foi ainda nos anos 80. Consta que, entretanto, também nós portugas, chegámos à Europa. Para sacar o dinheiro, não tenho dúvidas, bastou-me ouvir Costa, perguntar se podia ir ao banco. Mas para ter a vida facilitada e retirar o segundo “r” à burocracia, ainda vão demorar anos. E não digo para recer dinheiro, mas apenas para o pagar!

Arre!    

 

 

 

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