o leitor (im)penitente 76
Jean Jacques Pauvert, a liberdade inegociávelo
Aos oitenta e oito anos JJP retira-se de cena. Pela porta grande, claro. Escritor, editor e polemista, este intelectual nunca cessou de ser um guerrilheiro. Desafiou os poderes conservadores, arriscou pesadas multas, proibição de livros, asfixiados pela interdição de os colocar em vitrina ou simplesmente à vista do público.
Tudo começou pela publicação das obras do Marquês de Sade. Um desafio, um escândalo, várias condenações. Sessenta anos (talvez mais) depois Sade está em toda a parte e, neste exacto mês, “Le Point” publica na sua série “les maîtres-penseurs” um volume de cem páginas com o título “Le mystère Sade” (acabo de o comprar mas já lhe dei uma olhadela: para já não desaponta bem pelo contrário).
Mais tarde organizou (com Lo Duca) a extraordinária “Biblioteca internacional de erotologia”, 25 ou 26 volumes hoje disputadíssimos no mercado de “segunda mão” na autoria de excelentes estudos sobre o erotismo na literatura
Todavia JJP não se ficou pelas publicações sulfurosas. Uma das suas mais importantes colecções (importante, lindíssima e barata) tinha por título “libertés” e custava, nos mimosos anos 60, três francos. Livros entre 150 e 200 páginas num formato “poche” retangular 2:1, capas castanhas claras, com uma escolha que ia desde Sade, claro (o excelente “Français encore un effort) a Vallés, Courier, Chateaubriand, Taine, d’Holbach (o delicioso d’Holbach portatif) Sempé, Voltaire, Breton, Stendhal, Péret ou Benda (“La traison des clercs: Tout un programme!) Muita da minha formação pré-68 vem daí, desses livrinhos, dessa espantosa liberdade de espírito.
A perseguição censória teve os seus efeitos: a editora não resistiu ao contínuo cerco de multas, processos e interdições à publicidade à exposição. JJP refugiou-se no estudo e publicação de textos seus nomeadamente antologias (entre elas uma monumental antologia de textos eróticos que é uma referencia internacional. Imprescindível também, é a sua troca de correspondência com Guy Debord, um dos grandes nomes da Internacional Situacionista.
Não sei bem explicar mas Pauvert, com Maspero e com uma escassa meia dúzia de outros foi um exemplo ea honra da edição francesa da segunda metade do século XX. Parece
