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Incursões

Instância de Retemperação.

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O leitor (im)penitente 210

d'oliveira, 06.06.19

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Na morte da Sibila

mcr Jun 2019

Diz-se, com algum exagero, que “Cem anos de Solidão” fagocitou toda a restante obra de Garcia Marquez. Não é exctamente assim mas, na verdade, nenhum dos livros posteriores (e alguns de grande qualidade) ultrapassou aquele cometa.

No caso de Agustina, um destino idêntico, envolve o enorme romance “A Sibila”.

Há obras que suscitam um tal interesse e um tal entusiasmo que se tornam incómodas para o próprio criador. Como se os leitores se arrogassem do direito de exigir, a cada novo livro, uma outra obra maior, incomensurável, um outro arrebatamento duradouro.

Nada disto diminui, bem pelo contrário, Agustina. Mas a quem a conheceu via “A sibila”, toda e qualquer obra posterior sabe a pouco (um pouco agustiniano, claro, nada a ver com a mediocridade contentinha que por aí reina. Ou com o “mainstream” tão comum na literatura portuguesa dos últimos cinquenta anos do século XX.)

Conheci mal Agustina, cruzámo-nos poucas vezes e em nenhuma delas tive oportunidade de estabelecer um diálogo sério e proveitoso. De certo modo, dei-me mais com alguns familiares com quem, por razões diversas, tive muito maior contacto. Destaco, desde logo, o dr Alberto Luís, um advogado de grande qualidade, um homem cultíssimo e um excelente conversador. Vezes sem conta mos encontrámos na livraria Leitura onde íamos quase diariamente por novidades literárias. A Leitura, um pouco mais tarde do que Alberto Luís, acabou e com ela fechou-se um ciclo de oiro de livrarias portuenses mesmo se algumas subsistem. Em boa verdade, a procura de livros e a atenção de livreiros esforçados minguaram conjuntamente. A grandes superfícies livreiras estão entregues a um par de comerciantes que entendem que ganhar dinheiro pode ou não ser compatível com vender livros por atacado.

Hoje, pode ser mais interessante visitar um alfarrabista (ou melhor ainda: frequentar os seus leilões) do que uma livraria reduzida a estantes cheias de best-sellers e de livrinhos fabricados por estrelas da televisão e da sociedade cor de rosa. As criaturas do jet-set tem êxito assegurado seja qual for a paupérrima redacção que apresentem. Os chamados valores consagrados continuam a disputar as montras e os expositores mais em evidência relegando para os sítios mais esconsos algumas verdadeiras pérolas. Ainda recordo a miserável recepção que os livrinhos de Raduan Nassar por cá tiveram. Acabaram por ser vendidos a preço vil numa espécie de feiras-saldo . E, mesmo agora, que o prémio Camões lhe deu mais visibilidade, consta que vende pouco. E neste vender pouco vai muito, visto que o número de exemplares por ediçãoo baixou vertiginosamente.

Além do marido, conheci e privei, com gosto e reconhecimento, com a filha Mónica que foi minha colega no Ministério da Cultura. Vi-a dirigir com competência, zelo e êxito o Museu da Literatura, primeiro, e o Soares dos Reis depois. Mais tarde acompanhei-lhe os primeiros passos literários (primeiros e seguros, diga-se para já) e fui o pior associado do Círculo Agustina Bessa Luís, obra que tem tanto de qualidade como de devoção e piedade (no sentido bom e antigo) familiar.

Gostaria, desde longe, de lhe dizer que tem aqui, mais do que um admirador, um amigo grato, dela e de todos os seus.

Aproveitando a boleia seguramente generosa de Agustina, lembraria agora que, mesmo na sombra persistente do preconceito e da desmemória literária e cultural deste país que não lê, há um grande grupo de mulheres escritoras cujas obras valem ou ultrapassam as dos seus congéneres masculinos. E, citando apenas as desaparecidas, bom seria ver aparecerem de novo leitores e leitoras para Irene Lisboa, Isabel da Nóbrega (ai o “Viver com os outros”!...) Maria Judite de Carvalho que está em reedição (não percam, pelas alminhas, “Tanta gente Mariana), Fernanda Botelho (idem pela “A gata e a fábula). Poderia juntar-lhe mais uma meia dúzia de mulheres que escrevem muito bem, que são inteligentes e que merecem mas espero que estes quatro exemplos suscitem a curiosidade de alguns. E que essa curiosidade leve a outras descobertas, incluindo a de escritoras ainda vivas e que isso comece a recentrar o papel das mulheres escritoras portuguesas.

Isso não diminui Sofia ou Agustina, bem pelo contrário.A literatura portuguesa, a boa, entenda-se, não parou em Florbela, em Irene Lisboa em Sofia ou em Agustina. Não passa é sem elas que a engrandeceram, que em muitos momentos a vivificaram, a robusteceram. Eu sempre achei que há mais (e melhores) leitoras que leitores. Vi isso ao vivo na Póvoa ou em Matosinhos onde asmulheres eram multidão em relação aos leitores. Poderiadizer que é a curiosidade o que as faz correr estantes, livrarias e bibliotecas mas, mesmo que entenda a curiosidade como algo de optimo, de refrescante qualquer coisa que faz avançar o mundo e a civilização, isso só não chega. Sensibilidade? Desejo de perceber o mundo e o outro? Responda quem souber ou quem quiser. E leiam, leiam muito estas (e outras) belíssimas autoras. Há todo um mundo à vossa espera.

Em boa verdade, até MaoTse Tung ou Mao Zedong (é como quiserem) escreveu com alguma justiça (não sei se sincera) "As mulheres são metade do céu". Só metade, grande timoneiro, só metade?

 

 

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