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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

O leitor (im)penitente 215

d'oliveira, 30.01.20

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A morte está a passar por aqui

 

mcr, 30/JAN/2020

 

Lá se foi o Manuel Rezende poeta que descobri num livrinho editado há quase quarenta anos, “Natureza morta com desodorizante”, em que já era patente uma enorme esperança poética, um agudo sentido literário e uma séria erudição.

Cruzei-me fugazmente com ele, pouco depois de chegar ao Porto mas nunca fomos amigos, sequer conhecidos de longa data. Para lá das inevitáveis divergências políticas que marcaram a segunda metade dos anos setenta, havia ainda o facto ele ter desaparecido, abalado para Bruxelas onde terá feito parte, a maior parte, da sua vida. E, no regresso, ter-se-á fixado em Lisboa.

Retomei o contacto, como leitor, quando ele publicou a “Poesia Reunida”, há cerca de um/dois anos.

Tudo aquilo que eu esperara dele, nos anos 80 estava ali presente, soberbamente presente. Rezende aparecia como uma bela voz marcando com grande dignidade os anos que medeiam os dois séculos.

E mais uma vez, verifiquei que o simples facto de estar ausente da pequena cena nacional bastava para ser um desconhecido mesmo se, entretanto, um outro livro tivesse sido publicado. E, a par disso, algumas excelentes traduções de grande poetas (entre eles Elitis e Kavafis, esses dois enormes gregos separados por quase cem anos de grande poesia). Mas, coo diz o ditado, “olhos que não veem, coração que não sente”, isto de estar semi-exilado é já uma condenação, mesmo se, como dizia outro esquecido, Daniel Filipe a “Pátria (é) lugar de exílio”.

E também este acabou esquecido mesmo se a sua poesia iluminou os nossos primeiros anos sessenta (A Invenção do amor, Pátria, lugar de Exílio). É verdade que, morto em 1964, a sua obra, sobretudo estes dois livros acima citados, continuou a ser reeditada mas, a falta de referencia crítica atirou-o para o limbo. Recordo que, quando foi conhecida a sua morte, António Pedro, na altura encenador no CITAC (Coimbra) lhe fez um belo elogio. Vinham ambos de Cabo Verde e, mesmo se divergissem poeticamente, em boa verdade estimavam-se r reconheciam os respectivos (grandes) talentos.

A pequena história cultural nacional, doméstica e mesquinha é feita destes desencontros, destes desconhecimentos, da geral incultura (também política e ideológica, o que não é exactamente a mesma coisa).

Mesmo editado pela “Cotovia” (cuja qualidade é inversamente proporcional ao reconhecimento público) Manuel Rezende permanece um desconhecido e de nada serve afirmar que um pequeno grupo de leitores ávidos e curiosos o lê e aprecia.

Já Eduardo Guerra Carneiro, outro que tal, dizia “É assim que se faz a história”. Tanta razão tinha! E que desconsolo!...

 

 

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* Definitivamente o meu jeito para estas coisas é, no mínimo e piedosamente, medíocre. As fotografias deveriam ficar todas em cima mas o Daniel Filipe, talvez por ser o mais velho caiu para o fundo. De todo o modo, em primeiro lugar está o Eduardo e depois o Rezende

 

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