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Incursões

Instância de Retemperação.

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o leitor (im)penitente 230

d'oliveira, 24.01.22

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Nunca é demasiado tarde

(Maria Archer)

mcr, 24-01-22

 

Um colóquio na Biblioteca Nacional celebra, a partir de hoje, a memória de Maria Archer (1899-1982) uma escritora com vários talentos, uma resistente durante o Estado novo, uma exilada que nunca desistiu de Portugal para onde regressou logo depois do 25 A

Não vou, debruçar-me sobre a romancista ou a lutadora feminista que, para isso, aí estão duas inteiras páginas do “Público”(pp 28 e 29 com chamada na 1ª página) Li o texto que não vou analisar mas noto que uma parte importante da bibliografia de MA ficou esquecida (ou então não dei por ela). Refiro-me ao facto de Maria Archer ter sido uma das  assinaturas (e importantes) da famosa colecção “cadernos coloniais” composta por setenta (70) volumes in octavo, da autoria de um forte e ilustre grupo de “africanistas” republicanos que vai desde Augusto Casimiro a Gustavo Soromenho entre muitos outros. Era a época do “Império” versão democrática e republicana e a sua importância não é de desdenhar na historiografia colonial portuguesa. A editora foi a “Cosmos”, uma grande casa que publicou excelentes colecções de livros de vária ordem normalmente ensaios. Dentre outras colecções notabilíssimas, é de recordar a “Biblioteca Cosmos” dirigida por Bento de Jesus Caraça. Esta mesma editora foi responsável por uma notável “História Universal” dirigida e quase toda escrita por Macedo Mendes. O projecto “faraónico” prometia dez volumes mas acabou por findar ingloriamente no vol XIIe ainda faltavam parte do sec XVIII e os dois restantes. Começou ou foi sempre por ser uma edição em fascículos muito ilustrada que normalmente agrupava 500 páginas por volume. Depois a editora publicava  as capas de notável qualidade.

Se cito esta obra inacabada é porque foi aí teria eu dez/onze anos que comecei a maravilhar-me com a História (história a sério) e se hoje tenho os 12 volumes foi porque a prima Maria Manuel me ofereceu (da sua ”parca” herança) os primeiros cinco ou seis que o Tio Marcos foi comprando. Mais tarde consegui completá-la nos alfarrabistas e tenho-a em local honroso mesmo incompleta.

Feita  a apresentação da editora passemos à obra de Maria Archer  na colecção “cadernos coloniais”. São cinco (em setenta)  os títulos da sua autoria: “sertanejos” (10º), “Singularidades de um país distante” (11º), Ninho de bárbaros (15º),”Angola filme (19º) e “colónias piscatórias de Angola (34º).

M A conhece bem os territórios que descreve pois viveu em Moçambique, Angola e Guiné durante a infância e a adolescência, sem falar nas vezes em que, como jornalista se deslocou às colónias.

Hoje em dia,  há quem faça tudo para esquecer a chamada literatura colonial e sobretudo mais de um milhar de ensaios de vária ordem dados à estampa a partir dos anos 70 do sec. XIX. Isto para não falar das dezenas de revistas de tema colonial que pedem meças ao melhor que se fazia em outros países igualmente colononizadores. Curiosamente, desde há anos que se assiste a uma verdadeira caça a estas publicações quer pelos governos de Angola e Moçambique quer por um grupo de universidades americanas que tem comprado o que de melhor os alfarrabistas tinham em armazém.

Ao contrario do que se passa cá, entre alguma gentinha ignorante mas cheia de toleima, há nos “palop” muita gente que quer enriquecer as bibliotecas e os institutos históricos universitários com um conjunto de fontes únicas e imprescindíveis para a História africana.

De notar que, no que toca a dicionários das línguas vernáculas africanas (particularmente de Angola ou de Moçambique) o que há é de origem portuguesa “colonial”, “colonialista” e, particularmente, missionaria!...  (singularidades de uma certa inteligentsia nacional !...)

Poderei estar enganado mas o facto de não ter notado nenhuma referencia aos textos coloniais de Maria Archer parece-me (oxalá esteja enganado) um claro sintoma de censura intelectual  muito ao gosto do dia....

De todo o modo, aqui fica registada mais esta parte da obra de uma mulher que o antigo regime perseguiu e que o novo não revela inteiramente.

E uma homenagem a uma editora que atravessou os tempos duros com dignidade.

 

(uma nota final  Há quem confunda os “Cadernos Coloniais” com uma publicação relativa ao mesmo domínio, a colecção “Pelo Império”. Este grupo de 132 obras com formato sensivelmente idêntico, é já obra do Estado Novo através da Agencia Geral do Ultramar (anteriormente “das colónias”). Vale, sobretudo pelo carácter documental mas nota-se claramente um intuito propagandístico ainda mais acentuado que o dos “Cadernos Coloniais”. De todo o modo, ambas as colecções são (quando completas) relativamente raras e bastante procuradas.

(observção: não falo dos romances de MA porque nunca os tive ousequer li Eu tenho aqui uma norma: só falar dos livros e revistas que li (mesmo que incompletamente, como é o caso da História de M Mendes - estão por lr o último volume e parte do anterior. As 2 colecções de fascículos ou livrnhos foram lidas com facilidade tanto mais que eram cadernos de menos de 100 pp. )