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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

o leitor (im)penitente 235

d'oliveira, 28.06.22

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Aventuras com livros

mcr, 28-6-22

 

 

Os meus olhos já não são o que foram em muitos e leais anos de serviço. Agora, graças a um tratamento caro mas imprescindível lá vou aguentando esta barca sabendo, porém, que não voltarei a ter a mesma acuidade visual. O problema desta doença ocular é que não há melhoria mas tão só possibilidade de não piorar.

É a essa esperança que me agarro firmemente como o náufrago à boia miraculosa que, em Deus ajudando (e as ondas, as correntes e tudo o mais ) o hão de levar até à praia.

Descobri, entretanto, que há limitações ao leitor impenitente que fui e que, vou tentando continuar a ser. Há livros impressos a letra miúda que já não arrisco. E a escrever, o truque é escolher o tamanho da letra e ir pondo o que vem às cansadas “celulazinhas cinzentas” de que falava Poirot.

Muitos dos meus habituais amigos alfarrabistas condoem-se e sempre que apanham um livro que julgam interessar-me o primeiro cuidado é verificar o tipo de letra. E guardam-no até me encontrarem triunfantes quando, agradecido e maravilhado, desembolso o preço pedido.

Às vezes exageram. Assim, o João C mandou-me um um mail informando ter “Le petit Simonin ilustre (le Littré de l’argot) e perguntava malicioso se eu o queria Claro que queria pois sou perdido por calão seja em que língua for e que eu perceba.  Lá veio o Simonin acompanhado de uma italice Chamada “Il sublime” de um cavalheiro que dá por Baldine Saint Girons. Além do tipo de letra ser dificultoso por pequeno, confesso que, nesta idade, o sublime queira isso dizer o que que quiser, não me atrai.

(aqui o que interessa é que a letra do simonin é menor do que a do livro a devolver. Mas o gosto, a mania aumentam-me a graduação dos óculos..).

Numa livraria alfarrabista aqui perto de casa dou com os tês volumes completos dos “Trois regnes de lanature”. Na verdade, na internet a maior parte dos fascículos simples anda entre 20 e 50 euros pelo que  entendi que era barata feira.

O organizador desta publicação é um famoso professor Chenu,  autor de uma “Encyclopedie d’Histoire Naturelle”, uma monstruosidade em 35 volumes (!!!)  que, de resto, rareiam no mercado.

A mim, o que me surpreende, é o fervor dos eruditos (e dos leitores) dos séculos XVIII e XIX que se atiravam de pés e mão para a edição de obras gigantescas de divulgação científica que, pelos vistos, se vendiam com facilidade.  Trinta e cinco volumes gordos (vi quatro na mesma livraria) é leitura ou mera consulta para anos!...

Nos duvidosos tempos que se vivem tenho por difícil senão impossível empreitadas desta natureza . Pelo preço, pelo volume gigantesco de tomos, pela falta de tempo para já não falar do desinteresse em conhecer o mundo com um pouco mais de rigor do que os dois minutos de televisão.

Não faltam edições caras, evidentemente. Mas são reservadas a poucos leitores o que justifica os preços pedidos. Já aqui referi um par de editoras espanholas que se dedicam a  publicar o que elas chamam “quase originais”, edições limitadas a cerca de 900 exemplares, fac-similadas com extremo rigor, e apresentadas com um luxo invulgar (Moleiro ou Siloé ou mesmo Cartem, são os nomes mais conhecidos).

Curiosamente, ou nem isso, hoje mesmo chegou-me uma edição francesa do “Ramayana” em 7 volumes (30 x 28) e ilustrada abundantemente por miniaturas indianas dos sec XIV a XIX. É um edição primorosa  da “Diane de Selliers ed2) especialista em publicar clássicos de todo o mundo muito bem ilustrados  mas a preços inferiores aos espanhóis já citados.  De todo o modo não se trata de coisa barata  e esta obra começou por ser vendida por cerca de 900 euros. Na altura achei caro sobretudo comparando com vários outro livros da mesma editora que fui comprando desde as Viagens em Itália de Stendhal até à Divina Comédia  também excelentemente ilustradas. Claro que o Ramayana é algo de extenso e isso obviamente implica custos. Porém, agora, numa revoada de saldos da editora, surgiu com um enorme desconto, coisa para 80%  e não resisti. Aliás, com paciência, coisa que falta à esmagadora maioria dos leitores viciados, a espera vale a pena. A editora, provavelmente para se livrar dos restos de edições faz uma vez por ano um saldo generosos  que aprendi a aproveitar.

Para leitores igualmente impenitentes nem vale a pena referir a trabalheira que consiste em arranjar um “buraquinho” para o novo livro. Algo de épico, de imaginação criadora e de paciência quase infinita.

*na vinheta: edições de “Diane de Seliers” (Eneida, Rimbaud, Decameron, Stendhal,  Verlaine,  Erasmo e, claro o Ramayana e mais dois de poesia oriental

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