Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

o leitor (im)penitente 237

d'oliveira, 08.08.22

 

 

 

thumbnail_IMG_1078.jpg

Aflições do leitor compulsivo

(e do comprador viciado)

mcr. 8-8-22

 

 

Quando os meus pais compraram a casa onde actualmente vivo, toda a gente achou que era um exagero. “É enorme”, diziam, “uma pessoa perde-se aí dentro...”

O meu pai defendia-se: que tinha dois filhos (logo mais dois quartos); que precisava de um escritório; que o quarto da empregada daria uma excelente sala de pequenos almoços, enfim desculpava-se de ter escolhido o maior apartamento naquilo que, na altura, era o mais novo e mais “in” bairro da cidade. Aliás, segundo os promotores do empreendimento, aqueles andares destinavam-se a pessoas que queriam abandonar as enormes, soturnas, frias, desconfortáveis casas onde moravam. Casarões gigantescos, com jardins fundos, onde algum pé de penca convivia com japoneiras lindíssimas e antigas.

As famílias tornavam-se cada vez menos extensas. os filhos, também em menor quantidade procuravam apartamentos pequenos mas arejados, fáceis de conservar e de limpar.

Foi a essa transformação ocorrida no início dos anos setenta que este tipo de novos bairros respondeu. Apartamentos amplos, desafogados capazes de albergar as mobílias antigas instados em condomínios que tornavam as despesas de manutenção numa brincadeira em comparação com os custos das casas de que se viam livres.

Em mais outro ponto o meu pais, sobretudo ele, tinha razão: os divórcios chegavam em força aos jovens casais  pelo que ter um quarto para um filho descasado não era propriamente um exagero. E no meu caso, não foi. Ao fim de um ano e meio de instalados, eis que lhes apareci com três malas de livros, outra de roupa a pedir casa e pucarinho.

Afreguesei-me rapidamente ao bairro.  Havia tudo desde o banco ao cinema, uma piscina, um jardim, cafés , um livraria e uma papelaria para os jornais. E comprei um T 1 que, imaginem, tinha 81 metros quadrados!

Quando a minha mãe, já viúva, resolveu ir para Oeiras, para perto dos netos e das companheiras de canasta, mudei-me de armas e bagagens, e sobretudo de livros para esta casa. Durante dias andei numa roda viva a transportar a livralhada sabiamente embalada num cento de caixas de cartão  para vinhos que pesavam toneladas!... o meu amigo Manuel Sousa Pereira encarregou-se de desenhar as estantes. Para duas salas e um escritório fora os corredores. “Não tens livros que cheguem...”, avisou-me.  Repontei que havia de chegar o momento em que não teria estantes para todos os livros. E o Manel, que já me conhecia de ginjeira, acreditou.

Hoje a essas primitivas estantes foram acrescentadas outras já provenientes do maravilhoso Ikea que terá muitos defeitos mas tem as estantes Billy, uma invenção genial.

E a livralhada a pingar constante e impetuosa... As ºparedes que não tem livros, tem quadros, esculturas, máscaras africanas, meia dúzia de posters de estimação como se vê na vinheta e fotografias Acrescem as estantes (sempre Billy) para os discos e para os dvd. Um cafarnaúm!

Ora, entre os livros que se acumulam, há umas dúzias de calhamaços enormes (e nem falo dos atlas, outra mania mansa e invasora)  que não cabem em estante nenhuma. São livros que em média tem 30 cm de altura, ou seja mais 50 a 70% da altura de cada estante!

Resolvi, reordenar parte deles, fazer-lhes fichas novas  e, já agora, que estamos na silly season, dar a conhecer alguns. U porque são raros, ou curiosos, ou muito ilustrados mas sobretudo porque os fui recolhendo em alfarrabistas portugueses, espanhóis ou franceses para onde tinham sido “empandeirados” pelos herdeiros ingratos mas sofredores de impenitentes leitores da minha espécie.

(isto do “empandeirar”, bonito e expressivo verbo, tem uma história: estava eu, certo dia, na antiga livraria do Bernardo Trindade – que agora tem outra que dizem maravilhosa mas onde já por duas vezes bati com o nariz na porta – quando uma balzaquiana boazona e muito “tia” apareceu para saber se o Bernardo poderia ir ver uma biblioteca do avô, entretanto defunto, pois queria vender a casa e “empandeirar” os livros. Convém dizer que o finado fora governador de uma colónia e tinha uma excelente biblioteca africana que agora anda por aí dividida. Um conhecido meu, descendente de um intelectual estudioso das coisas de Moçambique, murmurou-me, indignado “empandeirar”... Eu respondi-lhe com um jogo de palavras sobre o que faria, caso a dama estivesse pelos ajustes... Isto é um blog para famílias de modo que me fico por aqui, tanto mais que agora, um criaturo da minha pobre e antiga espécie já nem se pode definir como homem,  binário, “cis” qualquer coisa, ocidental, branco etc...  )

Voltando à vaca fria: ficam os raros mas corajosos leiotres (e leitoras, claro) que irei descrevendo amenamente esses  tijolões de papel impresso na esperança de suscitar em alguma vítima destes escritos a curiosidade, o interesse, a gula por obras que tiveram o seu tempo, os seus cultores e a sua utilidade.

Caso a coisa não vos pareça atraente, força”, vão a banhos que é tempo disso. E com boas leituras que, entretanto recomendo, desde a enorme biografia do Pessoa, pelo Richard Zamith, até aos “diários do mesmo poeta a que vou meter o dente. Quem prefere policiais tem mais um Padura relativamente fresco: “A transparência do Tempo” (para já não rferir a Tetralogia de Havana em dois volumes e utro belíssimas histórias. Entretanto uma senhora senhora chamada Anne Aplebaum publicou “ Fome Vermelha” (que explica muito do horror dos ucranianos pelo império russo)enquanto um cavalheiro de seu nome (un nom a coucher dehors) Pedrag Matvejevitch tem em português mais um excelente livro: “A outra Veneza”... boas leituras, boas sardinhadas, boas férias  que por enquanto o covid está menos feroz.

* na vonheta: alguns livros grandes de que darei notícia. Em cma: poster sobre o Vietnam pilhado na minha residencia de estudante de DireitoComparado em Amsterdam 1972 ou 1973; fotografia em poster do maior ajuntamento de grandes músicos de jazz organizado em Harlem pela revista "Esquire". poster com uma fotografia da place de Saint Germain des Pés tirado exactamente da mesa onde costumo sentar-me na esplaada do "deux magots": e do meu jornal francês  desde os anos sessenta!...Se tudo correr como quero lá estarei em finais de Setembro...