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Incursões

Instância de Retemperação.

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31
Out14

o leitor (im)penitente 78

d'oliveira

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Até que enfim!

Foi há tantos anos que já nem me lembro. Instigada por mim, uma amiga de nome Judite, ofereceu-me “A retirada dos dez mil” de Xenofonte, na edição ilustrada, um must. A tradução era de Aquilino Ribeiro e, para mim, que de grego clássico só sei as letras e dez palavras, o texto pareceu-me delicioso. Sobretudo, porque Aquilino usava vários níveis de português coloquial consoante os personagens que falavam.

A história é de tal modo incrível que, se em baixo, pusessem romance qualquer um embarcaria. Um punhado de mercenários gregos é chamado por Ciro, pretendente ao trono do Império persa. Trata-se, obviamente, de tropas prestigiosas, disciplinadas, autênticos profissionais da guerra. Vêm de inúmeras cidades gregas embora atenienses e espartanos fossem os mais numerosos.

Num combate secundário, nos confins da Pérsia, enquanto os gregos se enchem de glória, Ciro morre e, sem empregador, aqueles sentem-se aflitos e encurralados, tanto mais que, o vencedor não os tem em grande estima. Resolvem, por isso, regressar à pátria enfrentando pelo caminho dezenas de regiões hostis, num percurso de milhares de quilómetros. Homens livres, teimosos e independentes, a cada passo, têm de reunir para votar o caminho, os eventuais aliados e, acaso, a substituição das chefias. Um enredo! A história deste pequeno exército em marcha para o mar é um tratado de política, uma aguda reflexão entre a liberdade e a responsabilidade, a disciplina e a afirmação da individualidade.

Li “a retirada...” num estirão, subjugado, exaltado, ansioso. E quando num derradeiro dia, a hoste grega chega à vista do mar (tálassa!) é um triunfo e uma decepção. Para os gregos sobreviventes aquele é o seu mar, o mar “cor de vinho”, que eles conhecem e dominam. Estão, praticamente, em casa. Para o leitor que quereria ainda mais, sobra apenas o prazer, a certeza que irá muitas mais vezes reler o livro e descobrir sempre coisas novas, emoções novas e o mesmo subtil aroma de liberdade, heroísmo e retórica.

Já, por várias vezes aqui referi este livro. E sempre me espantava pelo facto de ninguém o reeditar.

Sempre que encontrava um exemplar num alfarrabista, comprava-o, encadernava-o e oferecia-o a um amigo. Ocorreu até, que uma amiga minha tanto ouviu gabar a obra que, tirando-se dos seus cuidados, foi à biblioteca familiar e trouxe-me, oferecido, um exemplar. Não aceitei, claro, mas pedi-lhe o livro para, na volta, o devolver encadernado. Ficou deliciada, leu-o num ápice e confessou-me que também ela se inscrevia na tropa de admiradores de Xenofonte e Aquilino. Bela vitória!

Todavia, se convém celebrar este feito da Bertand, deve-se igualmente fazer um, dois, reparos.

Aquilino, escritor soberbo, deixou para além da ficção vários títulos desde crónicas a ensaios. Dois deles exigem urgente, urgentíssima, edição, sobretudo neste ano de centenário da 1ª Grande Guerra.

São eles “É a guerra” e “Alemanha ensanguentada”. O primeiro é a crónica vivida das primeiras semanas do conflito que Aquilino passou em Paris. Trata-se de uma reflexão cronística extraordinária e reveladora do pior e mais imbecil chauvinismo francês. E da miopia evidente dos primeiros guerristas portugueses entre os quais avulta o tremendo polemista João Chagas, representante diplomático de Portugal em Paris.

O segundo título, “Alemanha ensanguentada” é o relato de uma viagem realizada por Aquilino e a primeira mulher (que era alemã) pela Alemanha destroçada e exangue do post-guerra. Como se sabe, a Alemanha foi condenada a pagar fortíssimas indemnizações aos aliados, sobretudo à França e isso reflectiu-se dramaticamente na vida dos cidadãos. A inflação, a fome, o frio, o desemprego atingiram cumes extraordinários e exacerbaram a luta política. Pode mesmo afirmar-se sem qualquer espécie de receio que radica aí boa parte das razões para a ascensão do nacional-socialismo.

A descrição crua de Aquilino e a sua clara percepção que dali só poderia, como ele diz, sair ou um Estado bolchevista ou um outro profundamente nacionalista e reaccionário provam à saciedade que, além de escritor de mérito indiscutível, era um excelente analista político. É um testemunho poderoso e violento da época.

Estes dois livros há muito esgotados mereciam ser agora reeditados para proveito dos leitores e, mais além, dos cidadãos que desses tempos revoltos pouco ou nada sabem.

A Bertrand, editora de sempre de Aquilino, ficaria ainda mais de parabéns. E aposto que ganhava dinheiro. E leitores!...

 

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